Diretores de fotografia falam sobre uso do plano-sequência no cinema e nas séries; relembre cenas sem cortes marcantes

Diretores de fotografia falam sobre uso do plano-sequência no cinema e nas séries; relembre cenas sem cortes marcantes - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O diretor americano Francis Ford Coppola descreve a montagem como a "essência do cinema" e a sétima arte como "a combinação de imagens extraordinárias em um tipo de alquimia". Teoricamente, o plano-sequência seria uma ruptura com esta noção, afinal trata-se de um plano longo sem edição.

No entanto, como explica o teórico francês Jacques Aumont, o expediente obriga os cineastas a lidar com o fato de que a montagem pode acontecer dentro de um mesmo plano. E tem sido assim ao longo dos mais de 100 anos de cinema.

— Pra mim, o ponto de partida é sempre pensar em como contar qualquer cena num plano só. Acho que um corte precisa ter uma motivação e deve acontecer quando é necessário para contar a história — destaca o diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso.

— Permanecer num plano, sem cortar, aproxima o espectador da sensação de estar ali, observando aquela ação e vivendo aquele tempo junto com os personagens. Na vida, a gente não corta para um detalhe ou pula para outro ângulo.

Existe uma continuidade na experiência, e o plano-sequência permite preservar isso no cinema. Indicado ao Oscar de melhor fotografia por "Sonhos de trem" (2025), Veloso acredita que o plano é capaz de criar tensão e intimidade, aumentando "a sensação de realidade, porque se aproxima da maneira como a gente percebe o mundo".

Ele também reconhece o enorme desafio que é se pensar em um plano-sequência, que demanda muito ensaio e atenção. — Um plano-sequência que sempre me vem à cabeça é o da casa pegando fogo em "O sacrifício" (1986), do Tarkovsky.

É memorável por toda a coreografia envolvida e pela maneira como a câmera acompanha aquilo, tão paciente e sutil. Mas também pela história por trás da filmagem.

Como a casa queimava de verdade, eles tinham apenas uma chance. Só que, durante o plano, a câmera emperrou e a casa já estava pegando fogo — conta Veloso.

— Existe um vídeo incrível desse momento, com o Tarkovsky dirigindo a cena, até que o Sven Nykvist, diretor de fotografia, avisa que a câmera tinha emperrado e eles não tinham conseguido filmar tudo. É triste ver o desespero e a desolação da equipe.

Acabaram reconstruindo a casa para filmar a cena novamente algum tempo depois. Cena de "O sacrifício" (1986), de Andrei Tarkovski

Divulgação O crítico de cinema Marcelo Janot vê o plano-sequência como ferramenta com múltiplas funções em um filme.

Ele lembra clássicos como "Festim diabólico" (1948), Alfred Hitchcock, "Feios, sujos e malvados" (1976), de Ettore Scola, e "Arca russa" (2002), Alexandr Sokurov, como obras que se destacaram pelo uso de planos sem cortes. — O plano-sequência é uma tomada em que a unificação da passagem do tempo é o elemento primordial para comunicar ao espectador que tudo que ele está vendo está desenrolando durante este período.

A partir daí, você tem uma série de usos e funções para esse experiente dentro de uma narrativa cinematográfica — explica o crítico. — Ele pode criar e acentuar suspense, pode ser um recurso psicológico e pode oferecer várias possibilidades criativas, como em "Arca russa", que se passa todo dentro de um museu e conta a história da Rússia e da União Soviética através de um único plano-sequência, em que você tem um fluxo contínuo de história como se o espectador percorresse os corredores do museu.

A história do audiovisual é marcada por planos-sequência memoráveis. Considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos, Orson Welles revolucionou a linguagem cinematográfica em algumas de suas obras e também foi um usuário da ferramenta.

Em "Cidadão Kane" (1941), realizou planos longos e ininterruptos, muitas vezes brincando também com a profundidade de campo, como na clássica cena em que mostra o personagem principal, ainda criança brincando na neve. A câmera, que começa no menino, se afasta até entrar pela janela de sua casa e acompanhar a movimentação de seus pais até que se sentam à mesa para a conversa com um bancário.

Cena de "Cidadão Kane" (1941), de Orson Welles Reprodução

Filmes como "Birdman" (2015), como Alejandro González Iñárritu, e "1917" (2020), de Sam Mendes, e séries como "True detective" (2014) e "Adolescência" (2025) chamaram a atenção dos espectadores em razão das ambiciosas sequências sem cortes.

No Brasil, o expediente também já ganhou destaque em obras como "Ainda orangotangos" (2007), de Gustavo Spolidoro, todo filmado em plano-sequência, e "Ainda estou aqui" (2024), de Walter Salles. Diretor de fotografia de "Ainda estou aqui", Adrian Teijido defende o uso do plano-sequência, mas ressalta que o mesmo não deve ser apenas pirotecnia técnica.

— Planos sequencias, quando bem executados, podem levar a audiência a uma experiência mais profunda e interativa, compartilhando a emoção dos personagens em tempo real. Pessoalmente gosto muito de planos-sequência, mas tem que existir um razão real para executá-los, e não realizá-los simplesmente por pirotecnia cinematográfica.

Hoje em dia com as séries, as audiências se condicionaram a cenas ágeis com muitos cortes e ritmos frenéticos, acho uma pena — defende o diretor argentino radicado no Brasil. — Em “Ainda estou aqui”, Walter sentiu falta do filme respirar em situação externas.

Então, filmamos uma sequência que Eunice caminha até um banco, em que fizemos um travelling de 30 metros com vários figurantes. Relembre planos-sequência clássicos do audiovisual

‘A marca da maldade’ (1958): Em seu clássico noir, Orson Welles e o diretor de fotografia Russell Metty criaram aquele que é tido como um dos maiores planos-sequência da história. Na cena, um homem coloca uma bomba em um carro.

Sem cortes, vimos um casal entrando no veículo e acompanhamos o carro pelas ruas, intercalando com o movimento de outro casal andando pela calçada, até chegar ao momento derradeiro. ‘Profissão: repórter’ (1975): Michelangelo Antonioni deixou muito cinéfico se perguntando conseguiu fazer uma das cenas do longa, em que Jack Nicholson aparece em um quarto de hotel com grades na janela.

Após acompanhar o ator fumando e deitando-se à cama, a câmera atravessa a janela e continua a ação do lado de fora, como se as grades não estivessem ali. ‘Os bons companheiros’ (1990): Em outra cena clássica da sétima arte, Martin Scorsese apresenta o personagem de Ray Liotta entrando em um restaurante com a namorada.

A sequência mostra os dois entrando no local e o mafioso apresentando a pretendente ao seu universo, com direito a participação de vários figurantes. ‘Oldboy’ (2003): Em uma das sequências mais eletrizantes do cinema no século XXI, o protagonista do longa de Park Chan-Wook atravessa um corredor lutando brutalmente contra dezenas de inimigos.

‘Desejo e reparação’ (2007): Joe Wright revolucionou o cinema com um plano-sequência de seis minutos com mais de mil figurantes, recriando o caos da evacuação da batalha de Dunkirk, na Segunda Guerra Mundial. ‘True detective’ (2014): A primeira temporada da série, comandada por Cary Fukunaga, traz em seu quarto episódio uma sequência sem cortes de seis minutos, alternando espaços fechados com grandes cenários.

‘Adolescência’ (2025): A minissérie da Netflix impressionou os assinantes ao investir em longas cenas sem cortes, criando uma experiência imersiva para o espectador.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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