247 – A diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management (GWM), Solange Srour, defende que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresente e tente aprovar um pacote de ajuste fiscal ainda em 2026, antes do início de seu quarto mandato. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, a economista argumentou que a corrida eleitoral agravou a situação das contas públicas e que o governo deveria aproveitar a atual composição do Congresso Nacional, considerada mais favorável às negociações, para promover mudanças estruturais nas despesas obrigatórias.
Na avaliação de Srour, a urgência decorre tanto do crescimento da dívida pública quanto da reação dos mercados financeiros à reeleição de Lula. Ela considera que a ausência de anúncios sobre a política fiscal e a indefinição sobre o futuro comando do Ministério da Fazenda podem prolongar a instabilidade observada no primeiro pregão após a eleição.
“Dada a configuração do Congresso em 2027, acho que seria mais inteligente o governo tentar aprovar isso agora, porque ele tem uma base de apoio maior hoje e uma interlocução muito boa com os presidentes da Câmara e do Senado”, afirmou. Economista propõe revisão de despesas obrigatórias
Entre as medidas defendidas pela diretora do UBS estão mudanças na política de valorização do salário mínimo, na vinculação de aposentadorias e benefícios previdenciários ao piso nacional e nas regras constitucionais de financiamento da saúde e da educação. Essas propostas envolvem áreas sensíveis da política social brasileira e contrariam compromissos assumidos por Lula durante a campanha eleitoral.
Srour reconhece a dificuldade política dessas mudanças e chega a afirmar que a adoção de medidas contrárias às promessas eleitorais representaria algum grau de descumprimento dos compromissos de campanha. “Vai ter algum grau de estelionato eleitoral.
Pode ser maior ou menor, mas se não tiver estelionato eleitoral a crise vai se aproximar de uma maneira mais rápida”, declarou. A economista também defende um redesenho do Bolsa Família e de outros programas sociais, com maior focalização dos benefícios, além de uma nova reforma da Previdência que eleve a idade mínima e inclua outros setores.
Ajuste necessário seria equivalente a 4% do PIB, segundo UBS Na avaliação de Srour, um ajuste fiscal capaz de afastar o risco de insolvência teria dimensão equivalente a aproximadamente 4% do Produto Interno Bruto (PIB), considerando o nível atual dos juros reais e da dívida pública.
Ela reconhece, porém, que uma correção dessa magnitude seria politicamente inviável no curto prazo, independentemente do resultado eleitoral. Por isso, propõe um programa de reformas distribuído ao longo de cinco a dez anos.
Uma alternativa mais moderada seria reduzir o limite de crescimento real das despesas públicas dos atuais 2,5% para aproximadamente 1,5%, acompanhada de medidas de redução de subsídios e gastos tributários. Segundo a economista, entretanto, esse caminho seria insuficiente para provocar uma queda mais expressiva dos juros reais.
“Ou seja, no ajuste meio-termo, você queima capital político para evitar uma crise, mas não sai da mediocridade e continua vulnerável a novas crises”, afirmou. Novo Congresso pode dificultar negociações
A diretora do UBS também questiona a percepção de que um Congresso mais alinhado à direita necessariamente facilitaria a aprovação de medidas de austeridade. Segundo ela, a próxima legislatura poderá impor obstáculos adicionais ao Executivo, especialmente em razão do fortalecimento das bancadas de centro-direita e do poder dos parlamentares sobre a execução das emendas orçamentárias.
Para Srour, o governo deveria aproveitar as relações estabelecidas com os atuais presidentes da Câmara e do Senado para encaminhar as mudanças ainda neste ano. A economista também considera fundamental que o próximo ministro da Fazenda tenha a confiança pessoal de Lula e capacidade de convencê-lo a adotar medidas fiscalmente restritivas.
Ela destaca ainda a importância de uma Casa Civil com forte capacidade de articulação política. UBS alerta para dólar acima de R$ 6
A diretora do UBS avalia que a ausência de medidas fiscais poderá ampliar a pressão sobre os ativos brasileiros nas próximas semanas. Questionada sobre o comportamento do câmbio, afirmou que não descarta uma cotação do dólar superior a R$ 6 caso o governo não apresente respostas consideradas suficientes pelos investidores.
Srour também apontou riscos externos, como a possibilidade de juros mais elevados nos Estados Unidos e de uma escalada do conflito com o Irã, com consequências sobre os preços internacionais do petróleo. A economista considera que um programa fiscal limitado a medidas de combate a fraudes, contingenciamento de despesas e mudanças tributárias pontuais poderá não ser suficiente para estabilizar as expectativas.
As declarações explicitam a pressão de setores do mercado financeiro para que Lula adote uma agenda de contenção de gastos já na transição para seu quarto mandato. Ao mesmo tempo, colocam em evidência o conflito entre as propostas de austeridade defendidas por agentes financeiros e os compromissos sociais reafirmados pelo presidente durante a campanha eleitoral.
Brasil 247