A participação do presidente da Argentina, Javier Milei, no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, em julho, evidenciou uma integração da direita sul-americana que ganhou corpo e também foi vista nas eleições de outros países da região, como Chile e Colômbia. Estrategista política do país de Milei, Ana Iparraguirre avalia que essa coordenação abrange símbolos, narrativas e profissionais de marketing político em comum entre os candidatos, mas pontua que há riscos na estratégia. Se um desses governos fracassar, diz, outros podem ser contaminados. Entrevista: ‘Sociedades estão imediatistas, e frustração castiga governos’, avalia espanhol que fez campanhas vitoriosas na América Latina 'Brasil de fora': 'Nunca funciona dizer que a economia vai bem se o eleitor não sente isso', aconselha Karl Rove, arquiteto das vitórias de Bush Foi o que aconteceu com a derrocada do chavismo, que obrigou políticos de esquerda de todo o continente a conviver com a acusação de que, se eleitos, transformariam seus países “em uma Venezuela”. Nas últimas semanas, a campanha do presidente Lula (PT) chegou a usar dados socioeconômicos negativos da Argentina de Milei para dizer que o Brasil de Flávio, com o “tesouraço” nas contas públicas prometido pelo candidato do PL, seguiria a mesma linha. Hoje dividida entre a Argentina e os Estados Unidos, Iparraguirre é sócia da consultoria americana GBAO. Conhecida pelo desenvolvimento de estratégias guiadas por dados, ela segue sendo uma voz muito ouvida na terra natal. Nos EUA, atua sobretudo em candidaturas estaduais do Partido Democrata, com o qual também colaborou em eleições nacionais. Na América do Sul, participou de campanhas presidenciais como a do boliviano Samuel Doria Medina, um dos candidatos de direita da eleição do ano passado, e a de Henrique Capriles em oposição ao chavismo na Venezuela, além de várias outras em níveis estadual e municipal. Colaborou, por exemplo, com o marqueteiro brasileiro Renato Pereira, quando ele ainda era associado ao ex-prefeito do Rio Eduardo Paes. Iparraguirre é a terceira entrevistada da série “Brasil visto de fora”, que reúne conversas com estrategistas internacionais sobre a eleição brasileira e tendências vistas aqui que também estão presentes em outros países, como a “maldição do incumbente”, que dificulta a reeleição de governantes, e a presença de uma direita radicalizada. Os primeiros foram o americano Karl Rove, arquiteto das vitórias do republicano George W. Bush nos EUA, e o espanhol Antoni Gutiérrez-Rubí, responsável por campanhas notáveis da esquerda na América Latina. Com exceção de países pequenos como o Uruguai, o Brasil é o único governado pela esquerda na América do Sul hoje. O que explica? Há duas tendências simultâneas. A primeira, e mais ampla, tem a ver com um voto anti-incumbente. Há dez anos, diríamos que um partido no poder tinha vantagem na eleição, mas hoje isso não é mais assim, e a mudança tem a ver com vários fatores. As expectativas das pessoas estão mais altas agora, e a tolerância delas é menor. Por outro lado, é verdade que a direita tem hoje mais chances de vencer do que a esquerda. Acho que o primeiro e principal motivo é que ela não esteve no poder na região por algum tempo. Portanto, não carrega a responsabilidade pela situação atual em muitos desses países. E em relação a discursos, pautas etc., como essa direita ascendeu? Acho que a direita tem uma mensagem muito mais nítida, especialmente em segurança, que é a principal preocupação em quase toda a América Latina, apesar de não ser na Argentina. É uma mensagem mais fácil de entender e mais imediata do que o discurso da esquerda. Não estou dizendo que seja mais eficaz, mas certamente está mais próxima do que as pessoas querem nesse tema. Provavelmente o primeiro fator, que é o sentimento anti-incumbente, é mais amplo do que o segundo (a segurança) e tem impacto sobre ele. Fato é que a direita, especialmente a versão mais extrema dela, parece ter hoje uma chance maior de vencer eleições. É interessante, porque Lula teve uma campanha de oposição bem-sucedida em 2022, contra Jair Bolsonaro. Agora, é desafiado pela ‘maldição do incumbente’. Uma máxima política diz que “governar é explicar”. Está muito difícil para os governos, hoje, fazer essa explicação. Os eleitores estão exigindo posições mais claras, sim ou não, preto ou branco. Quando se está na oposição, é muito fácil dizer: “Temos que reverter tudo. Precisamos de uma mudança radical. Precisamos eliminar isso. Precisamos começar aquilo”. Quando se está no poder, é necessário negociar, encontrar o que é possível. Passa-se a viver no mundo do possível, e não apenas do que se considera desejável. Essa diferença joga contra o partido no poder hoje no Brasil e em todos os outros lugares. Como analisa a participação de Javier Milei no lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro, no Brasil, que acabou virando uma crise diplomática? A direita na região está coordenada. No Chile, José Antonio Kast usou as mesmas imagens, os mesmos símbolos que Milei havia usado. Esses políticos pegam emprestadas narrativas, usam as mesmas palavras e expressões. Um também ajuda o outro diretamente, e há consultores circulando entre os países e promovendo esse intercâmbio. Quais são as consequências dessa coordenação? Gosto de destacar os perigos dessa estratégia. Quando tivemos a “onda rosa” e muitos partidos de esquerda trabalhavam juntos na região, tínhamos a família Kirchner com Lula, Evo Morales e Hugo Chávez, todos trabalhando juntos. Mas isso virou um problema quando um desses países, a Venezuela, se tornou tóxico. Em qualquer campanha no continente, uma das mensagens mais bem avaliadas, onde quer que fosse, era algo como “a esquerda vai nos transformar numa Venezuela”. Se um desses países fracassa, todos podem fracassar. Existe o perigo de um efeito contagioso (similar na direita). Ainda sobre a onda anti-incumbente, há algo atípico nas pesquisas recentes: Lula, como presidente, não viu a aprovação ao governo subir na campanha. O que explica essa mudança em relação ao padrão histórico? Quando se chega a uma eleição, as pessoas, especialmente as desengajadas, começam a prestar atenção. Eu não atribuiria esse problema específico de Lula a uma questão estrutural global. Procuraria mais razões locais. Provavelmente, os eleitores que normalmente não prestam atenção até a eleição começam a olhar para o que está acontecendo no país e a tomar decisões, e não devem estar satisfeitos com o que o partido no poder está oferecendo. A senhora tem destacado pesquisas que mostram como as pessoas têm sentido dificuldade de ver melhoras na “economia real”. Como avalia essa dissonância entre indicadores e a percepção dos eleitores, algo muito forte hoje no Brasil? É uma questão ampla e fascinante, que acontece na Argentina também. Nos EUA, houve algo parecido em 2024, quando Donald Trump venceu. A inflação estava caindo, o nível de emprego estava alto. Os indicadores estavam lá para que o partido no poder fosse reeleito, e isso não aconteceu. Um dos fatores é a maneira como a riqueza é distribuída. Na Argentina, por exemplo, há crescimento, mas ele está concentrado em segmentos da economia que geram menos empregos. A maioria das pessoas não está sentindo esse crescimento, e isso tem a ver com o surgimento das novas economias. Não tenho certeza de como resolver esse problema, mas é verdade que não vemos mais aquela associação direta entre os indicadores econômicos e a percepção de melhora de vida. Outros temas também parecem ter entrado no jogo. No Brasil, isso ficou muito claro com Bolsonaro, a partir de 2018. Muitas pautas estão sendo introduzidas na eleição nacional, como segurança, por exemplo. Há esses temas, como segurança, mas também tem, e acho isso fascinante, pautas que não estão ainda tão definidas ideologicamente. Na Argentina, um deles é o das pessoas com níveis elevados de dívida que não conseguem pagá-las. Exemplo: se eu digo “impostos mais altos”, você imediatamente diria que sou de esquerda; se digo “impostos mais baixos”, de direita. Agora, se proponho encarar o endividamento das pessoas, não é tão claro qual é a resposta da direita ou da esquerda para o problema. Nos EUA, há o debate sobre data centers da IA (inteligência artificial), que tem borrado as linhas partidárias. É uma questão nova que está na mesa. Às vezes, esse tipo de pauta abre espaço para alguém de fora da polarização tradicional. Milei se aproveitou disso. Depois da pandemia, com a ideia de “liberdade” muito em alta, colocou o assunto no centro da narrativa. O governo Trump fez uma série de movimentos em relação à América Latina. Ao Brasil, impôs tarifas altas e outras medidas. Como alguém que trabalha nos EUA, qual é a sua avaliação sobre o interesse dele na região? O Brasil é o maior país da região, e Trump claramente tem um interesse geopolítico. Já deixou isso claro. O que ele vem tentando fazer com as tarifas teve um impacto político numa direção que ele não queria, mas o movimento mostra que existe um interesse em influenciar o Brasil para ter um continente a seu favor. O Brasil, no entanto, é muito resistente a qualquer influência externa. Os Estados Unidos, no fim das contas, sabem que isso pode sair pela culatra, como aconteceu no Canadá. Lá, eles acabaram criando quase um movimento antiamericano. É uma faca de dois gumes: se tentarem influenciar demais o Brasil, podem ter um efeito inverso.
'Direita está coordenada, mas Venezuela mostrou à esquerda que isso pode ter efeito contagioso', avalia estrategista argentina
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O Globo
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