A cooperação para o desenvolvimento verde deve ser analisada não só pelas intenções declaradas dos países, mas também pelas condições institucionais que tornam possíveis resultados duradouros. Esse é o foco central do livro Desenvolvimento Verde China-América Latina, organizado por Guo Cunhai e Márcio Pochmann e publicado pela Blossom Press em 2026.
A tese da obra é clara: a cooperação verde só se consolida como instrumento de desenvolvimento quando se apoia em compromissos institucionais e em capacidades científicas. Os editores reuniram onze capítulos de pesquisadores chineses e latino-americanos que abordam temas como governança climática, transição energética, financiamento, inovação e comunicação.
Os organizadores buscaram reunir contribuições sobre temas que, no Brasil, costumam ser tratados de forma isolada. Ao reunir perspectivas chinesas e latino-americanas, o livro conecta debates sobre a ordem internacional a questões de política pública e a experiências nacionais.
Essa escolha editorial reforça a tese de que o desenvolvimento verde vai além da expansão das energias renováveis ou do aumento dos investimentos. O tema envolve instituições, estruturas produtivas, capacidades científicas e critérios para a distribuição dos benefícios e custos da transformação econômica.
Essa visão aparece tanto no prefácio de Pochmann quanto na introdução de Guo Cunhai, o que confere unidade ao livro. Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas
A variedade de temas exige uma análise cuidadosa para distinguir entre interesses comuns, compromissos formais e resultados concretos. O livro sustenta que as iniciativas só avançam quando suas condições institucionais são examinadas com rigor.
Identificar pontos em comum entre os parceiros não garante que os benefícios sejam equilibrados ou duradouros. A introdução aponta diferenças tecnológicas, financeiras e de governança que precisam ser negociadas.
O principal desafio é criar mecanismos que transformem oportunidades em mudanças reais, considerando as diferenças entre os parceiros e a necessidade de fortalecer a participação deles na cooperação. Os capítulos de Zhu Xufeng e Li Yuanbo, sobre a Agenda 2030, e de Douglas de Castro, sobre o Cinturão e Rota Verde, situam essa discussão no contexto da cooperação internacional e das alternativas de desenvolvimento do Sul Global.
Essas contribuições ajudam a analisar a aproximação entre a China e a América Latina para além do comércio. No entanto, a cooperação Sul-Sul não garante, por si só, relações equilibradas.
É preciso analisar quem define as prioridades, quem participa das decisões e como são distribuídos os recursos, o conhecimento e as responsabilidades. Por isso, a convergência diplomática é apenas o começo; o livro insiste na necessidade de examinar os mecanismos e os efeitos da parceria.
Xing Wei amplia essa visão ao examinar a cooperação verde no âmbito da Iniciativa de Desenvolvimento Global, destacando a importância de mecanismos alinhados aos interesses de longo prazo dos parceiros. No relacionamento entre China e Brasil, manter os compromissos é um ponto importante.
Zhang Rui e Li Xiaoyu destacam mecanismos de diálogo e de coordenação climática, mas também apontam falhas no planejamento estratégico, no acompanhamento de projetos e na transferência de tecnologia. Diante desse diagnóstico, defendem que a cooperação precisa de instrumentos que não dependam apenas de encontros presidenciais ou de momentos políticos favoráveis.
Por isso, programas de longo prazo, responsabilidades administrativas claras, fontes de financiamento e avaliações regulares são critérios para medir a consistência institucional. Portanto, a continuidade não pode depender apenas da vontade dos governos, nem a institucionalização pode se limitar a mais declarações e memorandos.
O capítulo de Leila da Costa Ferreira, Fabiana Barbi Seleguim e Niklas Weins traz uma contribuição importante para a análise da governança das mudanças climáticas no Brasil. Governos locais, universidades, instituições de pesquisa e organizações sociais são essenciais para criar e implementar respostas às mudanças climáticas.
Na cooperação sino-brasileira, essa visão destaca a necessidade de alinhar os compromissos internacionais às capacidades locais. Assim, projetos ambientais devem considerar as prioridades locais, as estruturas administrativas e a participação da sociedade.
Sem essa ligação, a cooperação pode resultar em iniciativas pouco integradas às políticas públicas e com pouca continuidade nos territórios onde são aplicadas. A dimensão produtiva requer uma avaliação semelhante.
Os capítulos de Gao Ge e Lin Yue, sobre energia limpa, e de João Cumarú, sobre a transição energética brasileira, aproximam a perspectiva regional das particularidades nacionais. Sua leitura suscita uma distinção importante para o Brasil: acessar tecnologias não equivale a adquirir a capacidade de desenvolvê-las e absorvê-las.
Deste modo, os investimentos devem ser avaliados quanto à sua contribuição para a formação profissional, a pesquisa conjunta, a integração de fornecedores e a aprendizagem industrial. Nesse contexto, o estudo de Wang Ning, Zhang Hongfu e Guo Peiyuan sobre finanças verdes complementa essa discussão ao abordar instrumentos financeiros, transparência e gestão de riscos.
Recursos e tecnologias precisam estar associados a objetivos de desenvolvimento explicitamente definidos. É nesse ponto que a cooperação científica pode assumir uma função estruturante.
Na introdução, Guo Cunhai propõe uma plataforma de compartilhamento de conhecimento e tecnologia, baseada em pesquisas colaborativas e no intercâmbio de dados e de métodos. O capítulo de Marco A.
Cabero Z., dedicado à cultura científica, enfatiza as relações entre ciência, educação e desenvolvimento sustentável. O capítulo de José Gabriel Pérez Canencio, Mary Luz Ojeda Solarte e Jorge Enrique Guevara Bejarano, dedicado à Colômbia, apresenta iniciativas de colaboração entre universidades, pesquisadores e organizações voltadas à biodiversidade e à educação ambiental.
Juntas, essas contribuições permitem reconhecer a produção compartilhada de conhecimento como parte constitutiva da cooperação verde, e não como atividade acessória à diplomacia ou aos investimentos. Wei Mingxin, por seu turno, acrescenta a perspectiva da comunicação ao exame das oportunidades e dos desafios da cooperação sino-brasileira.
Na leitura aqui proposta, essa dimensão também permite indagar como os compromissos e os resultados da transição verde são apresentados e submetidos ao debate público. Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email
Uma decorrência dessa leitura é a necessidade de um financiamento estável para a pesquisa em ambos os países. Para avançar nessa direção, a agenda bilateral deveria contemplar chamadas conjuntas, projetos plurianuais, formação de pesquisadores e apoio à consolidação de grupos e redes científicas.
Não se trata apenas de promover visitas ou intercâmbios pontuais, mas de criar condições para investigações contínuas, com definição compartilhada de problemas, participação de equipes brasileiras e chinesas e critérios transparentes de acompanhamento. O apoio a grupos nessas áreas, portanto, poderia articular a investigação tecnológica, a análise de políticas públicas e o estudo dos impactos sociais e territoriais da transição.
A contribuição da coletânea está, por fim, em explicitar que a cooperação verde depende de comparações e avaliações de resultados, além de projetos. Explorar essas lacunas pode oferecer subsídios valiosos para fortalecer a cooperação acadêmica e identificar caminhos para o aprimoramento institucional.
Para China e Brasil, conforme pretendem os organizadores da obra, uma cooperação duradoura pode exigir mais do que ampliar projetos; pode requerer que esteja ancorada nas instituições e nas comunidades científicas capazes de concebê-los, acompanhá-los e aperfeiçoá-los. É essa ancoragem institucional que dará à cooperação verde continuidade e conteúdo efetivo.
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