Desafios à dominância global do dólar

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Fonte da notícia: Valor Valor

Apesar do agito pré e pós-eleições, deu para ler estes dias o novo livro de Barry Eichengreen, “Money Beyond Borders: Global Currencies from Croesus to Crypto” (Princeton University Press, 2026). O livro trata de um tema bem atual: se o dólar seguirá como a moeda dominante em transações internacionais, frente ao acelerado crescimento chinês, à competição do euro e à popularização das criptomoedas, dominância que traz grandes benefícios econômicos e considerável poder para os EUA na esfera global.

O livro tenta responder a essa pergunta analisando a história das moedas globais e identificando que fatores deram às moedas de certos países, em determinadas épocas, esse papel. Parte-se do reconhecimento de que há economias de rede no uso de uma moeda — quanto mais gente usa uma moeda, mais interessante ela se torna — e um efeito de reforço entre suas diferentes funções: se determinado produto é precificado em uma moeda (e.g., petróleo em dólar), faz sentido utilizá-la para comprar e vender esse produto em transações internacionais, o que por sua vez justifica manter reservas nessa moeda.

A resposta vem, assim, de entender por que a moeda de um certo país se torna global e depois deixa de sê-lo. O livro começa essa análise com a moeda da Lydia, meio milênio antes de Cristo, e avança com as moedas gregas, as cunhadas por Alexandre o Grande, as romanas, as bizantinas, as muçulmanas, a florentina, a espanhola etc., que em diferentes épocas cumpriram esse papel.

Em cada caso, se identificam os fatores que tornaram essas moedas o padrão internacional e depois levaram-na a perder importância, até chegar à ascensão do dólar como moeda dominante há quase um século. Eichengreen não dá um receituário, mas enfatiza três fatores que considera determinantes.

O primeiro é confiança, que vem quando o soberano emissor se preocupa com preservar o valor da sua moeda, além de proteger e dar estabilidade ao sistema financeiro: “no nível mais básico, as moedas que alcançam ampla utilização internacional precisam preservar seu valor. Isso significa que devem ser emitidas por Estados sólidos, capazes de arrecadar de forma confiável os recursos necessários para atender às suas necessidades fundamentais, sem recorrer à desvalorização monetária ou à inflação.

(...) O solidus bizantino circulou mantendo o mesmo teor de ouro durante setecentos anos”. Neste quesito, o livro aponta que a atual situação fiscal americana, com altos e crescentes déficits públicos, e medidas discutidas por autoridades do governo Trump, para alongar unilateralmente o prazo de suas dívidas, têm minado essa confiança e podem ameaçar a dominância global do dólar.

O mesmo em relação à “weaponization” do dólar, com congelamento de reservas internacionais e o bloqueio ao uso de sistemas de transferência internacional baseados no dólar. O segundo fator é o tamanho da economia e, com frequência, seu poderio militar e influência geopolítica.

Historicamente, a internacionalização de uma moeda começou pelo seu uso no comércio exterior do país, para só depois avançar sobre operações financeiras: “disso decorre que, quanto mais um país comercializa com o resto do mundo, maior é a probabilidade de que sua moeda passe a ser utilizada internacionalmente”.

Isso ajuda a explicar porque as moedas de países que são vistos como confiáveis, como Suíça, Austrália e outros, não competem com o dólar, mesmo considerando a queda no custo de transações internacionais de menor valor. E, por outro lado, porque o renminbi e o euro são vistos como potenciais concorrentes.

O terceiro fator é a solidez da infraestrutura que sustenta as transações com essa moeda e a sua liquidez internacional, permitindo aos usuários dispor dessa moeda com a mesma facilidade e custo com que a adquiriram: “O que determinava o papel internacional de uma moeda não era simplesmente sua estabilidade ou volatilidade.

(...) O que realmente importava era a profundidade e a liquidez dos mercados em que essa moeda era negociada, bem como o fato de esses mercados contarem com o respaldo de um emprestador e provedor de liquidez de última instância”. A falta dessa liquidez é apontada como a principal barreira a que euro e/ou o renminbi consigam se sobrepor ao dólar.

No primeiro caso, pela relativamente baixa integração dos mercados financeiros da Área do Euro e, em especial, a ausência de um mercado de títulos públicos tão profundo como o americano. No segundo caso, pela resistência da China a abrir sua conta de capital, o que também limita a disponibilidade de seus títulos públicos para investidores estrangeiros.

No caso de criptomoedas como o Bitcoin, Eichengreen nota que a volatilidade de suas cotações limita seu uso como moeda. O problema é menor com as stablecoins, mas também nesse caso há riscos relevantes devido à falta de supervisão e de um emprestador de última instância.

Além de fragilidades na infraestrutura, como mostrou o episódio recente com a Binance. Ao fim, o livro conclui que “nenhuma outra moeda, atualmente ou no futuro previsível, está em condições de ocupar o lugar do dólar”.

Mas também provoca a reflexão ao observar que isso tem seus custos, exemplificados pelos casos históricos de Florença, Holanda e Grã-Bretanha, onde isso levou a uma excessiva financeirização e posterior decadência da economia. Um tema que parece estar preocupando as autoridades americanas.

Armando Castelar Pinheiro, professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ, é PhD em economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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