Derrota de Trump nas eleições dá força a países para resistir às tarifas dos EUA

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Fonte da notícia: Globo Globo

A reação contrária ao Partido Republicano do presidente Donald Trump nas eleições legislativas de meio de mandato, motivada pelo aumento do custo de vida, pode encorajar países de todo o mundo a resistir às suas políticas comerciais agressivas, que elevaram os preços para os consumidores americanos.

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Os democratas conquistaram a maioria tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados na terça-feira, em uma contundente rejeição dos eleitores americanos às políticas de Trump, especialmente às tarifas comerciais e à guerra contra o Irã, às quais atribuem a inflação persistente. Isso pode dar aos países mais motivos para retardar o cumprimento de compromissos de investimento assumidos para evitar tarifas e conferir à China, rival econômica de Washington, uma aparente vantagem nas negociações comerciais em andamento, segundo analistas políticos e economistas.

A próxima grande viagem internacional de Trump será à Ásia, ainda neste mês, quando ele deverá se reunir com líderes do Sudeste Asiático nas Filipinas e, em seguida, participar do fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), em Shenzhen, na China. Japão e Coreia do Sul, os aliados mais próximos dos Estados Unidos na Ásia, prometeram investimentos de US$ 550 bilhões e US$ 350 bilhões, respectivamente, nos Estados Unidos no ano passado, em acordos firmados com Trump.

"Os democratas parecem considerar que os compromissos de investimento foram impostos aos aliados", afirmou Heo Yoon, professor de economia da Universidade Sogang, em Seul, acrescentando que os países podem agora sentir menos pressão para cumprir esses compromissos. Outros, porém, alertaram que Trump, alvo de críticas internamente, pode aumentar a pressão sobre os aliados no exterior, exigindo que concretizem os investimentos prometidos para demonstrar que suas políticas estão funcionando.

"A questão das tarifas não está encerrada. Se a resposta do Japão for lenta, os pedidos de tarifas adicionais poderão ressurgir", afirmou Kazuhiro Maeshima, professor de política americana da Universidade Sophia, em Tóquio.

A Coreia do Sul se tornou um dos principais alvos da irritação de Trump com países que, em sua avaliação, não cumpriram os compromissos de investimento assumidos para evitar tarifas que ele considera necessárias para reequilibrar o comércio dos EUA tanto com aliados quanto com rivais.

Mais recentemente, Seul contestou as afirmações de Trump de que havia concordado em financiar o Alaska LNG, um projeto de gasoduto de gás natural liquefeito. Embora Trump ainda possa exercer seus poderes executivos sobre a política tarifária, Ban Kil-joo, professor de relações internacionais da Academia Diplomática Nacional da Coreia, afirmou que o escrutínio do Congresso sobre esses projetos pode dar a Seul "mais tempo valioso" para analisá-los e avaliá-los.

Votação nos EUA;midterms Stephanie Scarbrough/AP

Trump mais contido ou mais agressivo? Para países como a Índia, que ainda negociam acordos comerciais com os EUA, os resultados das eleições legislativas podem oferecer um incentivo para adotar uma postura de esperar para ver, segundo analistas.

O ministro do Comércio da Índia afirmou no início deste mês que a primeira fase de um acordo comercial entre Índia e Estados Unidos estava nos estágios finais de elaboração, mas reiterou que Nova Délhi só avançaria se conseguisse uma vantagem em relação aos exportadores concorrentes.

Nova Délhi e Washington chegaram a um entendimento em fevereiro sobre um acordo-quadro que reduziu de 50% para 18% uma tarifa punitiva sobre a maioria dos produtos indianos, imposta em agosto do ano passado após o fracasso de uma rodada anterior de negociações. Depois das eleições legislativas, a Casa Branca poderá enfrentar maior pressão para evitar uma retomada das guerras comerciais que poderiam elevar ainda mais os custos para os consumidores americanos, afirmou Tommy Xie, chefe de pesquisa macroeconômica para a Ásia do OCBC Bank.

Outros, porém, alertaram contra a expectativa de que Trump se torne mais flexível. "Países como a Índia devem continuar cautelosos.

Uma vitória democrata não tornará necessariamente Trump mais conciliador em relação a qualquer país", afirmou Rajiv Bhatia, ex-diplomata indiano e pesquisador sênior do centro de estudos Gateway House. Bhatia acrescentou que a Índia deveria intensificar sua preparação diplomática e dialogar mais ativamente com o Congresso americano para apresentar suas preocupações sobre comércio, tarifas e questões relacionadas a vistos.

Presidente dos EUA, Donald Trump, fala a jornalistas em Chillicothe (Ohio) Kevin Lamarque/Reuters

Sem carta branca nas negociações com Pequim A China, que fechou uma frágil trégua comercial com os EUA que expira em janeiro, estará pensando em maneiras de aproveitar a fragilidade política de Trump para fortalecer sua posição nas negociações comerciais, segundo analistas.

"Xi Jinping reconhecerá que a autoridade de Trump foi muito enfraquecida por esses resultados e, sem dúvida, estará pensando em maneiras de explorar isso", afirmou Saul Eslake, economista da consultoria Corinna Economic Advisory, na Austrália. Outros, porém, disseram que as dificuldades de Trump não são necessariamente boas notícias para Pequim.

O presidente americano fez grandes esforços para melhorar as relações com Xi — incluindo recebê-lo em uma suntuosa visita de Estado no mês passado —, e um Congresso controlado pelos democratas pode limitar sua capacidade de oferecer incentivos em futuros acordos. "É improvável que os democratas deem carta branca a Trump em acordos com Pequim", afirmou Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico do Natixis, acrescentando que eles já haviam criticado as reuniões de cúpula de Trump com Xi por apresentarem poucos resultados concretos em questões importantes, como a inteligência artificial.

Um Congresso democrata terá maior probabilidade de apoiar controles mais rigorosos sobre as exportações de tecnologia e uma fiscalização mais intensa das cadeias de suprimentos de inteligência artificial e semicondutores, o que dará a Trump menos flexibilidade para fazer concessões que afetem esses setores de alto crescimento, acrescentou.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, disse a jornalistas nesta quarta-feira que as eleições legislativas eram um assunto interno dos Estados Unidos e que Pequim continuaria a administrar as divergências e ampliar a cooperação com Washington. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, posam na Casa Branca antes de um jantar de Estado, em Washington

REUTERS/Kylie Cooper

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