Decisão que proibiu Meta de usar material jornalístico sem autorização impulsiona debate sobre remuneração de conteúdo, dizem parlamentares

Decisão que proibiu Meta de usar material jornalístico sem autorização impulsiona debate sobre remuneração de conteúdo, dizem parlamentares - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

A decisão da Justiça de São Paulo que, na terça-feira, proibiu a Meta de utilizar material jornalístico sem autorização ampliou, na avaliação de parlamentares, a urgência de avançar no Congresso com a regulamentação das big techs e na discussão sobre remuneração de conteúdo de terceiros pelas plataformas.

A empresa é dona do Facebook, do Instagram, do WhatsApp e do Threads. Na Câmara, há duas propostas prontas para o plenário: a que estabelece o Marco Legal da Inteligência Artificial (IA), sob relatoria do deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e a que cria regras de concorrência nos mercados digitais, relatada por Aliel Machado (PV-PR).

Ambos os textos estão na agenda prioritária do governo Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso neste ano. O projeto de regulamentação da IA já foi aprovado pelo Senado.

O texto, entre outros pontos, prevê que o agente de inteligência artificial que utilizar conteúdos protegidos por direitos de autor e conexos em processos de mineração, treinamento ou desenvolvimento de sistemas deve remunerar os titulares desse material. Aguinaldo Ribeiro afirma que seu texto vai deixar explícita a necessidade de remuneração pelo conteúdo em qualquer “fase” do desenvolvimento de uma linguagem de IA, inclusive no treinamento dos modelos.

— Essa é a grande questão, tentar deixar claro essa remuneração pelo uso do conteúdo, em qualquer fase. A mais desafiadora é a do treinamento, da mineração dos dados — explicou.

O deputado diz que irá se reunir na próxima semana com o relator do tema no Senado, Eduardo Gomes (PL-TO), para construir um texto alinhado entre as duas Casas. Esse alinhamento é necessário porque, se houver alterações na Câmara, o texto volta para análise dos senadores.

Também haverá um encontro com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para tratar da tramitação da proposta. Eduardo Gomes afirma que a decisão da Justiça de São Paulo vai influenciar as discussões sobre o tema no Congresso Nacional.

— Quando você tem uma decisão da Justiça no vácuo da definição legislativa, é porque o assunto é complexo e o Senado e a Câmara têm a oportunidade de dirimir essa dúvida e resolver de uma vez por todas. Não queremos inviabilizar a atividade econômica, mas é preciso respeitar o trabalho que você faz e o algoritmo que o robô não faz.

Os dados não são sintéticos, são minerados. E, em determinado volume, vira uma espécie de utilização da obra — considerou.

O líder do União Brasil na Câmara, Pedro Lucas Fernandes (MA), defende que a proposta relatada por Aguinaldo Ribeiro seja analisada ainda neste ano, diante desse contexto. — Eu acho que a gente deveria apreciar antes de terminar o ano — afirmou.

A avaliação no Palácio do Planalto é que o projeto de regulamentação da inteligência artificial deve ganhar prioridade por trazer uma mudança estrutural na relação entre as grandes plataformas digitais e os produtores de conteúdo. Na visão de auxiliares de Lula, o principal avanço do texto é estabelecer a remuneração pelo uso de obras protegidas por direitos autorais, incluindo conteúdos jornalísticos, científicos e de pesquisa.

A medida é considerada estratégica por atingir diretamente o modelo de negócios das big techs, que utilizam grandes volumes de dados e conteúdos disponíveis na internet para treinar seus sistemas de inteligência artificial sem remunerar, em regra, quem os produz. No Palácio do Planalto, auxiliares de Lula avaliam que o Brasil pode assumir uma posição pioneira no debate internacional ao estabelecer regras para essa compensação, tema que ainda provoca impasses em outros países.

Ordem judicial A decisão da Justiça de São Paulo atendeu a pedido da Associação Nacional de Jornais (ANJ), da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e da Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), em ação contra a Meta.

A empresa passou a condicionar o uso que os meios de comunicação fazem de suas redes a uma autorização de acesso irrestrito a todo o conteúdo produzido por eles para o treinamento e a alimentação da sua inteligência artificial. Essas condições permitiriam à empresa utilizar programas automatizados para acessar, copiar, armazenar e analisar reportagens, fotografias, vídeos e outros conteúdos publicados pelos sites dos veículos.

A regra foi estabelecida pela empresa americana em alteração feita em seus termos comerciais e tem vigência prevista para 20 de novembro. Conforme a decisão, a Meta fica obrigada a manter as contas, as páginas e as ferramentas dos veículos em pleno funcionamento, sem bloqueios, restrições ou punições pela recusa das condições impostas pela empresa.

A Justiça fixou multa diária de R$ 1 milhão em caso de descumprimento, limitada a R$ 100 milhões. Concorrência

Para parlamentares, a ordem judicial também reforça a necessidade de votação de outro projeto, o que trata da concorrência nos mercados digitais. Integrantes de diferentes bancadas na Câmara, como as do União Brasil, do Republicanos e do PP, defendem que o Congresso analise a proposta ainda neste ano.

— Essa decisão judicial pode ser um motivo impulsionador, sim. O momento é propício — afirmou o líder do PDT na Câmara, Mário Heringer (MG).

O líder do PSB na Casa, Jonas Donizette (SP), também entende que as recentes polêmicas envolvendo a Meta dão novo impulso à discussão de propostas sobre o tema no Congresso. Segundo o parlamentar, é possível que o tema das notícias seja incorporado a algum dos projetos em tramitação na Casa.

Além da decisão judicial, parlamentares citam a atuação da empresa americana durante as eleições. Na campanha presidencial, a Meta reconheceu falhas técnicas que afetaram contas e a distribuição de conteúdos ligados à campanha de Lula, mas negou qualquer interferência destinada a beneficiar Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O projeto relatado pelo deputado Aliel Machado estabelece novas regras de concorrência para os mercados de big techs e amplia os instrumentos de atuação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O texto já teve a urgência aprovada pela Câmara, o que permite sua votação diretamente no plenário, sem passar pelas comissões temáticas.

O deputado afirma que a proposta permite que o Cade atue quando identificar práticas que prejudiquem a concorrência, inclusive as que envolvam o uso de informações produzidas por veículos de comunicação. Segundo ele, um dos pontos que podem ser analisados pelo órgão é o uso de conteúdos produzidos por terceiros para gerar receitas.

— Pode haver uma definição pelo Cade, por exemplo, de que é um equívoco uma plataforma utilizar, por exemplo, suas ferramentas para ganhar dinheiro com um trabalho realizado pelos outros — disse o relator. — Se elas (as big techs) estão lucrando com notícias, é uma medida anticoncorrencial.

Machado pretende se reunir com bancadas na próxima semana e solicitar a inclusão da proposta na pauta. O parlamentar disse também que espera conseguir aprovar o texto ainda neste ano.

— A nossa expectativa é de aprovar. Ele é superimportante para o Brasil, principalmente para a área econômica — disse.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →