Na eleição mais apertada de primeiro turno da história, os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) sobem ao palco do primeiro debate presidencial neste domingo (18), na Band. O embate, porém, deve mudar menos votos do que se imagina: dois especialistas ouvidos pelo Valor dizem que o formato perdeu a força de virar o jogo. Com 100% das urnas apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente, com 47,03%, o equivalente a 56.104.503 votos. Já o petista somou 45,16%, com 53.879.538 votos. Essa foi a menor diferença entre dois candidatos no primeiro turno da história.
Para o segundo turno, o debate não acaba tendo a função de virar votos, tendo em vista que muitos eleitores já estão bem decididos sobre seu candidato, explica Rodolfo Marques, cientista político e professor da Universidade da Amazônia (Unama). Na última Quaest, 91% dos entrevistados afirmaram que a escolha do candidato é definitiva, e 9% ainda podem mudar de ideia. Já no Datafolha, 93% já apontam certeza no voto, enquanto 7% mostraram margem para mudança. "O debate é uma ferramenta importante, mas acredito ser muito difícil uma virada de voto. O que eventualmente pode acontecer é um eleitor indeciso que esteja acompanhando o debate, de repente tomar a sua decisão por um ou por outro candidato pelo mau desempenho de um deles", afirmou Marques. "Mas uma virada de voto clássica, que é você trocar a sua preferência, historicamente a gente tem visto isso como algo residual, muito pequeno." Ele explica ainda que o potencial do debate é mais de tirar do que de virar votos, o que também acaba sendo mais efetivo no primeiro do que no segundo turno. "Virar votos é quando um candidato consegue retirar voto do outro, numa campanha ou mesmo no debate, o que é muito difícil. Já um candidato que faça uma declaração equivocada num debate e tenha uma postura ruim, ele pode perder votos, mas ainda assim eu acho que hoje em dia isso é muito residual. E aí, eventualmente, pode ter um prejuízo do ponto de vista eleitoral" O cientista político Rogério Baptistini, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas do Mackenzie, tem uma visão diferente. Para ele, o debate no seu formato clássico pode ter perdido relevância, mas as redes sociais podem dar outra dinâmica ao confronto. "Hoje, no tempo das redes sociais, um debate televisivo, por maior que seja a penetração do canal de televisão, vai concorrer com os canais de YouTube, Instagram e TikTok. Pouca gente, proporcionalmente ao conjunto dos eleitorados, assiste ao debate. Na verdade, o debate vai gerar cortes e isso, sim, pode influenciar a opinião do eleitor [ao ser divulgado nas redes sociais]. Mas nesse segundo turno, e nesta eleição em particular, eu creio que já há uma consolidação das posições dos eleitores", explica Baptistini.
Os especialistas ressaltam, porém, que os debates são fundamentais para que o eleitor conheça as propostas, as informações e as posturas dos candidatos sobre temas relevantes para o país. Contraponto O cientista político Marco Teixeira, da FGV EAESP, afirmou que, apesar de o debate não ter o mesmo peso de outrora, o embate entre os candidatos ainda é uma ferramenta que pode virar o voto dos eleitores. "Hoje, as campanhas, da forma que estão, não são mais propositivas, e sim muito mais uma estratégia para um candidato colocar o outro na defensiva. O eleitor hoje está percebendo que o horário eleitoral gratuito e as inserções de rádio e TV acrescentam um pouco ao processo decisório. Porém, no programa eleitoral, é um monólogo, cada um fala o que quer e não tem contraponto. Então, o contraponto é o grande valor que se tem no debate, e isso [virar voto] já teve", explica Teixeira. Ele ressalta ainda que o debate se torna mais importante em eleições polarizadas, como a deste ano, pois "qualquer diferença faz a diferença no resultado final". "As pessoas que se abstiveram também podem encontrar no debate algum ponto capaz de motivá-las a votar." *Estagiária sob supervisão de Diogo Max
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