De Rolex a Patek Philippe: relógios de luxo alimentam rede de roubos e receptação entre Rio e São Paulo

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Relógios que podem custar mais de R$ 400 mil e são cobiçados por colecionadores e consumidores de alto poder aquisitivo também movimentam um mercado clandestino alimentado por roubos nas ruas no Rio e em São Paulo. Modelos icônicos da Rolex, frequentemente vistos nos pulsos de empresários, artistas e outras personalidades, também estão na mira de quadrilhas especializadas em roubos de relógios de luxo conhecida como 'Gangue do Rolex'.

Por trás dos assaltos, muitas vezes executados em poucos segundos por criminosos em motocicletas, existe uma estrutura de receptação que pode envolver intermediários, comerciantes clandestinos e até compradores no exterior. Um Daytona, por exemplo, pode ultrapassar R$ 400 mil, assim como um Patek Philippe pode ser avaliado em R$50 mil podendo custar até R$ 200 mil; já um Submariner é avaliado entre R$ 65 mil e R$ 160 mil, enquanto um Rolex GMT-Master pode custar até R$ 220 mil.

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A atuação de criminosos que circulam entre estados ficou evidente em um dos casos recentes no Rio. O homem preso em flagrante após uma tentativa de roubo na Lagoa, na Zona Sul, nesta quinta-feira, já havia sido condenado por assaltar um relógio Rolex em São Paulo.

Lucas Gustavo de Jesus foi condenado pelo roubo de um Submariner, avaliado em R$ 70 mil, cometido com o uso de uma arma de fogo, em setembro de 2022. O suspeito abordou o carro do empresário Júnior Bauru, de 34 anos, dono da rede de restaurantes Bauru.

Ele dirigia um Porsche e seguia para Copacabana, onde pretendia visitar um imóvel para a abertura de uma nova unidade da rede, quando foi abordado. O criminoso bateu no vidro do veículo, apontou uma arma e exigiu que entregasse o relógio e o telefone.

Tentativa de roubo a Porsche na Lagoa: suspeito foi baleado por segurança De acordo com a denúncia do Ministério Público de São Paulo, Lucas repetiu o mesmo modus operandi em São Paulo, em 2022, quando abordou a vítima quando ela chegava em casa.

Pilotando uma motocicleta, emparelhou com o veículo, apontou uma arma para a cabeça do motorista e levou o relógio. A dinâmica do crime tem semelhanças com a tentativa de assalto na Lagoa, na qual Lucas acabou baleado.

Segundo informações de investigações policiais, os criminosos podem receber orientações para reconhecer marcas, referências e valores de mercado de relógios de alto padrão. Catálogos e treinamentos visuais são utilizados para facilitar a identificação de peças que podem valer dezenas ou centenas de milhares de reais.

O objetivo é selecionar produtos com boa aceitação no mercado ilegal e que possam ser revendidos rapidamente. Suspeito baleado na Zona Sul do Rio foi condenado por roubo de relógio de R$ 70 mil em São Paulo

Reprodução O valor recebido pelo assaltante, no entanto, costuma ser muito inferior ao preço original da peça.

De acordo com informações da polícia do Rio e de São Paulo, relógios roubados podem ser repassados a intermediários por quantias fixas entre R$ 20 mil e R$ 30 mil, independentemente de seu valor de mercado. A partir daí, entram em uma cadeia de receptação que pode envolver centros de adulteração, joalherias clandestinas, canais de comercialização ocultos na internet e compradores de má-fé.

Estimativas policiais apontam que entre 30% e 40% dos relógios roubados podem ser enviados para outros países. De Caxias para os EUA: Brasileiro eleito deputado na Flórida ganhará menos que parlamentares da Alerj; veja a diferença salarial

'Gangue do Rolex' A chamada Gangue do Rolex, como é conhecida nacionalmente, segundo investigadores, é uma expressão utilizada para descrever esse tipo de atuação criminosa, caracterizada muito mais pela especialização no roubo de artigos de luxo, ou seja, o modus operandi, do que por uma quadrilha unificada.

O modelo de atuação, que surgiu originalmente na Europa, tem se espalhado pelo país. Após protestos, obra de eletroposto no Aterro do Flamengo é demolida, mas prefeitura planeja nova concessão da área; entenda

Para a socióloga Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF), a especialização nesse tipo de crime está diretamente relacionada à existência de um mercado de receptação capaz de absorver os produtos roubados. — Nas práticas de roubo à mão armada, as quadrilhas não são necessariamente muito grandes e, muitas vezes, têm alguma ligação com facções.

Mas existem grupos menores especializados em roubos. O tipo de produto levado depende do mercado de receptação.

Um Rolex, por exemplo, é um bem muito valorizado e tem, sim, um mercado. Muitas artistas, músicos e empresários usam esses relógios, cujo valor não se deprecia com o tempo.

Pelo contrário: alguns modelos podem se tornar ainda mais valiosos. Mesmo que sejam vendidos por um preço muito inferior ao de uma loja, continuam sendo bens cobiçados — explica.

Receptadores são especialistas no objeto de luxo Segundo a pesquisadora, o conhecimento mais aprofundado sobre os relógios costuma estar concentrado nos receptadores, responsáveis por encontrar compradores e estabelecer os canais de comercialização.

Os assaltantes, por sua vez, podem ter apenas noções suficientes para identificar objetos de valor e alimentar essa rede. Relógios Rolex GMT-Master II expostos na vitrine de uma joalheria Wempe na Quinta Avenida, em Nova York

Bing Guan/Bloomberg — Os especialistas, em geral, são os receptadores, não o assaltante.

Este passa a entender de determinado objeto de luxo para alimentar a rede. Nem sempre os criminosos que executam os roubos são grandes conhecedores de relógios.

Eles podem identificar a riqueza da vítima por outros sinais, como o fato de ela estar dirigindo um carro de luxo. Muitas vezes, levam tudo o que encontram e fazem uma triagem depois, para verificar o que tem valor de revenda e se a peça é original.

As quadrilhas mais especializadas, por outro lado, conhecem muito bem as marcas — afirma Carolina. A dimensão internacional da cadeia de receptação também não é descartada pela pesquisadora.

Segundo ela, a comercialização de objetos de alto valor pode exigir uma estrutura que ultrapassa o mercado local, especialmente quando se trata de peças raras e exclusivas. — Existem investigações que apontam para redes internacionais de receptação de ouro, por exemplo.

Esse tipo de mercado demanda, de certa forma, uma internacionalização. No caso dos relógios mais raros e exclusivos, é perfeitamente possível que as redes de receptação também tenham uma dimensão internacional.

São essas redes que detêm os contatos para revender objetos de alto valor, abastecendo tanto as elites do crime no Brasil quanto consumidores de alto poder aquisitivo no exterior — diz. Após acidentes: MPF estuda abrir inquérito e pedir o fechamento da rampa de saltos de voo livre da Pedra Bonita

Quadrilhas de São Paulo alugavam armas em favela do Rio A ligação entre criminosos dos dois estados já havia sido identificada em investigações anteriores.

Em julho de 2024, a 10ª DP (Botafogo) desarticulou um esquema que reunia traficantes cariocas e assaltantes paulistas para roubos de relógios de luxo. Segundo o então titular da delegacia, Alan Luxardo, integrantes da chamada Gangue do Rolex viajavam de São Paulo para o Rio e alugavam armas no Morro de São Carlos, no Estácio, na Zona Norte, para executar os assaltos.

Os criminosos chegavam de ônibus, uma vez por mês, e se hospedavam na própria comunidade, de acordo com as investigações da Polícia Civil. O aluguel do armamento era uma forma de viabilizar os roubos sem que precisassem transportar armas entre os estados.

Na Zona Sul, os principais alvos eram bairros como Leblon, Ipanema e Botafogo, especialmente nas proximidades de shoppings, polos gastronômicos e centros médicos. Em Botafogo, os assaltantes também atuavam nos arredores da Cobal do Humaitá.

Na ocasião, foram identificados Marco Antônio de Oliveira, de 35 anos, e Matheus Domingues Goulart, de 25. Um terceiro suspeito, Edson de Moura Sousa, de 33 anos, conseguiu fugir.

Os investigados responderiam por organização criminosa, roubo e porte ilegal de arma de fogo. Chuva no Rio: veja onde mais choveu durante a madrugada e a previsão do tempo para esta quinta-feira

A atuação de quadrilhas especializadas no Rio, porém, não é recente. Em 2020, a Polícia Civil prendeu seis integrantes de um grupo suspeito de praticar roubos de relógios Rolex, principalmente na Zona Sul da capital.

A investigação relacionou a quadrilha à tentativa de assalto a um delegado e seus familiares na saída de um restaurante no Jardim Botânico. Os suspeitos foram presos na Taquara, na Zona Oeste.

Entre os identificados havia três pessoas de São Paulo, uma de Minas Gerais e duas do Rio. Em São Paulo, a recorrência dos crimes também mobilizou forças de segurança.

Em julho de 2025, Gabriel Pedroza, de 25 anos, foi preso enquanto fazia compras em uma farmácia na Zona Sul da capital paulista. Ele era procurado havia meses pelo roubo de um Rolex do deputado estadual Delegado Olim (PP), na Vila Olímpia, na Zona Oeste da cidade.

O assalto ocorreu em 2024 e durou cerca de 20 segundos. O parlamentar já havia baleado e matado, em 2022, um homem suspeito de tentar roubar outro relógio seu.

Mesmo assim, Gabriel abordou o deputado, retirou o objeto de seu pulso e fugiu. Turista: Paulista que morreu durante viagem para o Rio foi atingido por tiro enquanto dormia no banco do carona do carro

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Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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