Quando uma cobertura de concreto desabou na entrada de uma estação ferroviária na Sérvia, em novembro de 2024, matando 16 pessoas, um grupo de estudantes foi às ruas para exigir justiça. O que começou como uma mobilização contra a corrupção e a negligência das autoridades, porém, rapidamente ganhou dimensão nacional, atraiu diferentes setores da sociedade e, dois anos depois, conseguiu o que a oposição não havia alcançado em mais de uma década: derrotar nas urnas o partido de Aleksandar Vucic, que dominava a política sérvia desde 2012.
Nas eleições legislativas antecipadas de domingo, a Lista Estudantil conquistou 52,7% dos votos, contra 39,2% do Partido Progressista Sérvio (SNS). Contexto: Fortalecido nas ruas, movimento estudantil ameaça poder de Vučić nas eleições sérvias
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A vitória levou multidões às ruas de Belgrado, Novi Sad e outras cidades sérvias, onde manifestantes dançaram, soltaram fogos de artifício e comemoraram o resultado ao som de buzinas e gritos de “vitória”, com estudantes declarando, em publicações nas redes sociais, que “a Sérvia está livre”.
No Parque dos Pioneiros, em frente ao Parlamento, manifestantes derrubaram as cercas de metal da chamada Caciland, acampamento de apoiadores de Vucic instalado havia 18 meses, enquanto gritavam que o presidente estava indo embora. O movimento, porém, começou em 1º de novembro de 2024, quando uma cobertura de concreto desabou na entrada da estação ferroviária de Novi Sad, a segunda maior cidade do país, matando 16 pessoas.
A tragédia passou a ser vista como um símbolo da corrupção generalizada na Sérvia, e críticos associaram as falhas na reforma da estação ao governo do líder populista, que havia vinculado sua imagem ao projeto. O episódio desencadeou manifestações que logo passaram a questionar a atuação das autoridades.
— Quando a cobertura desabou, foi a gota d’água — disse Helena Ivanov, do centro de estudos Henry Jackson Society, à BBC. Entenda: Presidente da Sérvia renuncia em manobra para tentar concorrer ao cargo de premier
A tragédia, disse, provocou à comoção que deu origem a uma campanha nacional de marchas e manifestações, conquistando apoio da população de maneira sem precedentes. Os protestos, inicialmente organizados semanalmente em universidades e ruas das cidades, logo passaram a reunir agricultores, atores, juízes e representantes de outros setores.
Em vez de depender de uma liderança centralizada, os estudantes se organizaram por meio de assembleias, conhecidas como plenums, que se tornaram parte fundamental do movimento. Em pouco tempo, a mobilização abalou o governo: em uma tentativa de “reduzir as tensões”, o então premier Milos Vucevic renunciou ao cargo ainda em janeiro de 2025.
Dois meses depois, porém, Belgrado foi palco do maior protesto antigoverno da história da Sérvia — e os estudantes passaram a organizar a mobilização. Quando Vucic convocou eleições antecipadas, no mês passado, o movimento já havia construído uma estrutura para participar da disputa.
— Eles conseguiram transformar aquele impulso emocional em uma organização de verdade e ensinar as pessoas a proteger a lisura do processo nas seções eleitorais — explicou Ivanov. Estratégia eleitoral
A estratégia também foi diferente. Embora tenha sido criado e conduzido por estudantes, o movimento não apresentou nenhum universitário como candidato ao Parlamento.
Em vez disso, formou a “Lista Estudantil - Estudantes Vencem”, com representantes de diferentes áreas da sociedade, incluindo médicos, professores, atores, atletas e acadêmicos. A decisão considerava que os eleitores provavelmente não apoiariam uma lista de jovens com pouca experiência.
Ao todo, o grupo apresentou candidatos às 250 cadeiras do Legislativo. Ratko Mladić: Funeral de general condenado pelo Massacre de Srbrenica atrai multidão na Sérvia e provoca indignação na UE
Entre os nomes escolhidos estavam o cardiologista Ilija Srdanovic, principal candidato da lista, o ex-astro do basquete Dejan Bodiroga, o ator Tihomir Stanic, o cantor de ópera Nikola Mikic e o ex-presidente do Banco Nacional da Sérvia Dejan Soskic. Segundo uma projeção dos institutos independentes CeSID e Ipsos, 140 integrantes do movimento conquistaram cadeiras no Parlamento, mas ainda não estava claro quem assumirá o cargo de primeiro-ministro.
— A energia é imparável. Oferecemos aos nossos cidadãos os valores fundamentais de uma sociedade civilizada, que este regime anterior retirou de nossos cidadãos pela última vez — disse à BBC Srdanovic, professor de cardiologia em Novi Sad.
A campanha foi construída em torno de um programa de 11 pontos, com propostas para combater a corrupção e reformar instituições públicas. Entre as medidas estão a criação de uma unidade policial encarregada de prender responsáveis por práticas corruptas, o afastamento de funcionários do Ministério do Interior envolvidos em irregularidades na repressão aos protestos ou ligados ao crime organizado, a reforma do setor de comunicação e o fim do controle político sobre a emissora pública.
O movimento também pretende impedir a nomeação de aliados partidários para a direção de empresas estatais. Adivinhe quem vem para jantar: Entenda por que a Sérvia é importante para a família Trump
Para Gordana Delic, diretora do programa para os Bálcãs do German Marshall Fund dos EUA, a votação representou, na prática, um referendo sobre o futuro político da Sérvia. A mensagem central dos estudantes, avaliou, era a defesa do Estado de Direito, em oposição ao uso da legislação como instrumento de dominação, uma proposta que atraiu eleitores contrários ao governo de diferentes posições políticas.
Mudança de tom Inicialmente, Vucic tentou adotar um tom conciliador em relação aos manifestantes, classificando-os como “bem-intencionados”.
Com a aproximação das eleições, porém, passou a acusá-los de tentar “derrubar” a Sérvia. O presidente e seu partido negaram repetidamente as acusações de corrupção e de tentativas de influenciar a imprensa, e, mesmo após reconhecer a derrota no domingo, ele afirmou, sem apresentar provas, que os estudantes tinham recebido apoio de países europeus e do “Estado profundo americano”.
O presidente, que já havia exercido dois mandatos e não poderia disputar um terceiro, liderava a campanha do SNS com o objetivo de retornar ao cargo de primeiro-ministro, que ocupou até 2017. Durante a disputa, prometeu aumentar aposentadorias e salários do funcionalismo público, além de ampliar os investimentos na saúde estatal.
Na política externa, Vucic apoiava a candidatura da Sérvia à União Europeia (UE), mas se recusava a impor sanções à Rússia pela invasão da Ucrânia. A derrota foi reconhecida pelo presidente na sede do SNS, em Belgrado.
Com 97% das seções eleitorais apuradas, a comissão eleitoral informou que a Lista Estudantil havia recebido 2,25 milhões de votos, contra 1,67 milhão do partido governista. O resultado foi celebrado como uma transformação histórica por integrantes do movimento e especialistas, após quase dois anos de mobilização contínua contra o governo.
Novos desafios Ainda assim, o movimento enfrenta agora o desafio de transformar as promessas feitas nas ruas em políticas públicas.
Como os estudantes não concorreram às eleições, a responsabilidade de executar o programa caberá aos representantes escolhidos por eles. Em uma declaração, os universitários afirmaram que os candidatos receberam a missão de levar para as instituições parte da luta travada nas ruas ao longo do último ano.
A escolha do futuro primeiro-ministro será uma das primeiras decisões da nova maioria parlamentar. Vucic, por sua vez, não sinalizou que pretende abandonar a disputa política.
Em seu discurso, afirmou a apoiadores que os estudantes haviam destruído dois anos da vida na Sérvia e que seriam derrotados “mais rápido do que imaginam”. As próximas eleições presidenciais estão previstas para dezembro, enquanto a presidente do Parlamento, Ana Brnabic, ocupa interinamente a Presidência da República.
Em Novi Sad, onde a tragédia ferroviária deu início ao movimento, o clima entre os manifestantes era de esperança. — Esta não é uma vitória eleitoral comum — disse Nebojsa Vladisavljevic, professor de ciência política da Universidade de Belgrado, à BBC Sérvia.
— É uma avalanche que varreu um regime autoritário e todo o cenário político. (Com AFP)
O Globo