247 – O ex-presidente da Sérvia Aleksandar Vucic sofreu uma expressiva derrota nas eleições parlamentares antecipadas realizadas neste domingo (25), após quase 14 anos de domínio político de seu partido. A oposição liderada por estudantes conquistou a maioria dos votos apurados e abriu caminho para uma mudança de governo em Belgrado.
Diante do resultado, Vucic acusou países europeus e setores do chamado “Estado profundo” dos Estados Unidos de interferirem no processo eleitoral para enfraquecer a soberania sérvia. Segundo informações divulgadas pela RT, com base nos resultados preliminares da Comissão Eleitoral da República da Sérvia (RIK), a Lista Estudantil alcançou 51,84% dos votos, contra 39,77% da coalizão Sérvia Unida, vinculada a Vucic, quando quase 93% das seções eleitorais haviam sido apuradas.
A diferença superior a 12 pontos percentuais confirmou a tendência apontada pelas projeções eleitorais divulgadas na noite de domingo. Os institutos Ipsos e CeSID já haviam projetado uma vitória da oposição, com 52,9% dos votos, enquanto a coalizão governista aparecia com 38,8%.
A estimativa de comparecimento às urnas foi de 69,3%, indicando uma participação expressiva do eleitorado em meio à prolongada crise política enfrentada pelo país. Vucic acusa potências estrangeiras de organizar sua derrota
Em pronunciamento realizado na noite da eleição, Aleksandar Vucic afirmou que o resultado representava a consolidação de um movimento político organizado com apoio externo. O ex-presidente descreveu a votação como a “verificação de uma revolução” e responsabilizou “vários países europeus e o Estado profundo americano” por uma suposta operação destinada a retirar seu grupo político do poder.
Segundo Vucic, os setores estadunidenses envolvidos na alegada interferência seriam adversários do presidente Donald Trump. “Eu os parabenizo, embora sejam meramente os executores, os executores de um trabalho sujo arquitetado por outra pessoa para derrubar um país soberano”, declarou Vucic, referindo-se aos integrantes da oposição estudantil.
Em seguida, dirigiu um novo recado aos adversários políticos: “Vocês tiveram sucesso por enquanto. Por quanto tempo? Veremos”.
As acusações foram apresentadas pelo ex-presidente sem que a reportagem da RT trouxesse provas de uma operação estrangeira para manipular o resultado eleitoral. Vucic também não identificou nominalmente os países europeus que, segundo ele, teriam participado da suposta interferência.
Apesar das denúncias, o ex-presidente reconheceu o resultado preliminar e afirmou que não pretende impedir a formação de um novo governo. Segundo ele, a maioria parlamentar poderá estabelecer uma administração dentro de dez a 15 dias.
Vucic também rejeitou especulações de que deixaria o território sérvio após a derrota. “Eu amo a Sérvia.
Nunca deixarei a Sérvia”, declarou, prometendo continuar sua atuação política na oposição. União Europeia comemora vitória da oposição estudantil
A provável mudança de governo recebeu uma reação imediata das principais autoridades da União Europeia. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, parabenizaram a Lista Estudantil antes mesmo da conclusão da apuração oficial.
Em publicações praticamente idênticas na rede social X, os dois dirigentes destacaram a elevada participação eleitoral e manifestaram disposição para colaborar com a futura administração sérvia. “Estamos prontos para apoiar reformas no que diz respeito ao Estado de Direito, à liberdade de imprensa, ao combate à corrupção e a instituições democráticas fortes”, afirmaram os representantes europeus.
As manifestações também enfatizaram o apoio de Bruxelas à aproximação da Sérvia com a União Europeia, processo que permanece condicionado a reformas institucionais e políticas. A rapidez dos pronunciamentos europeus ganhou relevância diante das acusações feitas por Vucic.
Embora os dirigentes do bloco tenham celebrado a perspectiva de alternância política, suas declarações não demonstram, por si só, participação externa na organização ou manipulação das eleições. O primeiro-ministro da Hungria, Péter Magyar, também cumprimentou os representantes da oposição sérvia.
Magyar chegou ao poder após derrotar Viktor Orbán nas eleições parlamentares húngaras de abril de 2026, encerrando um período de 16 anos de governo de seu antecessor. “Acabei de falar por telefone com os líderes da Lista Estudantil”, escreveu Magyar, ao relatar que havia manifestado apoio aos vencedores da eleição.
“Fiquei muito feliz em saber quanta força nossa vitória em abril lhes deu durante essa luta difícil”, acrescentou. Relações com Rússia e China entram no centro da disputa
Uma das principais preocupações manifestadas por Vucic envolve a possibilidade de alteração da política externa sérvia, especialmente nas relações com a Rússia. O ex-presidente advertiu que um novo governo poderia adotar sanções contra Moscou já em março ou abril de 2027, abandonando a posição mantida por Belgrado durante os últimos anos.
A Sérvia preservou relações políticas e econômicas com a Rússia mesmo diante das pressões europeias para aderir às medidas restritivas impostas em razão da guerra na Ucrânia. Representantes da Lista Estudantil, entretanto, afirmaram que não pretendem modificar a política sérvia em relação a Moscou.
A divergência entre as declarações da oposição e as previsões de Vucic indica que a orientação diplomática do próximo governo deverá ocupar lugar central no debate político. A candidata Marina Ragus, integrante do Partido Progressista Sérvio (SNS), também relacionou a derrota eleitoral às disputas internacionais envolvendo o país.
“Bruxelas venceu”, afirmou Ragus, ao questionar as possíveis consequências do resultado para a recusa sérvia em sancionar a Rússia e para a cooperação econômica com a China. A posição reflete a preocupação de setores do antigo governo com uma eventual reorientação geopolítica de Belgrado, historicamente empenhada em manter relações com diferentes centros de poder.
Partido de Vucic reconhece resultado e prepara atuação na oposição Apesar da derrota, o Partido Progressista Sérvio pretende preservar sua influência no Parlamento e reorganizar sua atuação política.
Em entrevista à agência Tanjug, Marina Ragus afirmou que a legenda respeitará a decisão dos eleitores e continuará participando da vida institucional do país. “A voz do povo é a voz de Deus.
E só podemos respeitar isso”, declarou. A dirigente afirmou esperar que o SNS conquiste mais de 105 cadeiras parlamentares, número que, caso confirmado, permitirá ao partido manter uma bancada relevante mesmo depois de perder a liderança do governo.
Ragus também sugeriu que a passagem para a oposição poderá oferecer uma oportunidade para revisar políticas, reorganizar quadros partidários e preparar uma futura disputa pelo poder. Outro resultado relevante foi o desempenho da coalizão socialista liderada por Ivica Dacic.
Segundo as projeções da Ipsos e do CeSID, o grupo recebeu aproximadamente 2,2% dos votos, abaixo da cláusula de barreira parlamentar de 3%. Manifestantes comemoram nas ruas de Belgrado
A vantagem da Lista Estudantil provocou manifestações de comemoração na capital sérvia durante a madrugada desta segunda-feira (26). Multidões se concentraram diante da Assembleia Nacional, no centro de Belgrado, para celebrar a provável vitória da oposição.
Imagens divulgadas nas redes sociais mostraram apoiadores ocupando as ruas próximas ao Parlamento. Também foram registrados episódios de tensão nas proximidades de um acampamento de simpatizantes de Vucic instalado no Parque dos Pioneiros.
Segundo relatos da imprensa local e da Associated Press, manifestantes derrubaram cercas metálicas e desmontaram barracas do acampamento conhecido como “Caciland”, que havia permanecido no local por mais de 18 meses. Pelo menos uma barraca foi incendiada.
O veículo sérvio Vreme também informou que dois automóveis pegaram fogo durante os tumultos. O acampamento havia se tornado um dos símbolos da resistência dos apoiadores do antigo governo às mobilizações estudantis que se espalharam pelo país.
Tragédia ferroviária desencadeou crise política A derrota de Vucic ocorreu após quase dois anos de protestos iniciados em novembro de 2024, quando o desabamento de uma cobertura na estação ferroviária de Novi Sad provocou a morte de 16 pessoas.
A tragédia desencadeou manifestações contra o governo, impulsionadas por denúncias de corrupção, problemas na fiscalização de obras públicas e falhas nos mecanismos de segurança. Estudantes universitários assumiram papel central na organização dos protestos, que posteriormente receberam apoio de outros setores da sociedade sérvia.
As mobilizações transformaram o episódio de Novi Sad em um símbolo da insatisfação com a administração pública e com a concentração de poder político no país. A crise culminou na convocação de eleições parlamentares antecipadas.
Em 27 de setembro de 2026, Vucic renunciou à Presidência para participar diretamente da disputa eleitoral. O resultado preliminar de domingo representa uma mudança significativa no cenário político sérvio, com a ascensão de um movimento estudantil que conseguiu transformar manifestações de rua em uma força eleitoral majoritária.
A confirmação definitiva da composição parlamentar ainda depende da conclusão da apuração e da divulgação dos resultados oficiais pela comissão eleitoral.s
Brasil 247