Em disputa pela conversão de votos na reta final do segundo turno, apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) têm criado e acessado sites que compilam estratégias para a militância, reúnem conteúdos de campanha e permitem a comparação do engajamento de aliados dos dois candidatos nas redes sociais. A plataformas têm sido usadas em paralelo aos canais no WhatsApp, idealizados inicialmente sem vinculação direta com as campanhas, mas registrados como meios de comunicação oficial após disputas na Justiça Eleitoral. Entre os sites desenvolvidos por apoiadores de Lula, está, por exemplo, o "Onde dá para conversar", que mapeia os locais de votação por abstenções e por quantitativos de votos brancos, nulos ou na terceira via, indicando as regiões em que grupos devem se concentrar para tentar atrair apoio para o petista. A plataforma foi visitada mais de 2,4 milhões de vezes desde o dia 4 de outubro e reúne orientações direcionadas para o convencimento de diferentes segmentos de eleitores.
Onde dá para conversar Reprodução As instruções vão desde perguntar os motivos que os levaram a não votar no primeiro turno até a listagem de propostas em comum entre Lula e os presidenciáveis da direita que saíram derrotados. Segundo a descrição disponível no site, os dados foram obtidos a partir do cruzamento dos boletins de urna e compilados por uma iniciativa "independente e voluntária", sem vínculos à campanha conduzida pelo PT.
Uma segunda ferramenta criada por lulistas foi o "Radar da Virada", que monitora tendências e menções ao petista e a Flávio nas redes sociais e no Google. O site também exibe "temas que viram voto" e lista falas passadas do candidato do PL e de integrantes de sua campanha contra discussões como o fim da escala 6x1, aprovada no Senado nesta quarta-feira. A página também funciona como repositório de vídeos publicados pelo presidente e por famosos em apoio ao petista e sugere que os conteúdos sejam baixados e compartilhados no Instagram, TikTok, WhatsApp, X e Facebook. Flaviômetro Reprodução Já entre bolsonaristas, foi criado o "Flaviômetro", divulgado pelo deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO). O site monitora ao vivo o nível de engajamento on-line de governadores, prefeitos, senadores e deputados eleitos na campanha presidencial do PL. A ferramenta também faz um ranking diário dos aliados que mais falaram ou pediram voto para Flávio em suas publicações.
Até o fechamento desta reportagem, apareciam na frente na plataforma os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG), reeleito, e o eleito Jeffrey Chiquini (PL-PR), além de Eduarda Campopiano (PL-SP), alçada à Assembleia Legislativa de São Paulo. O portal também marca como "ausentes" nomes como o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) e de integrantes de partidos aliados que não fizeram posts em apoio ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nos últimos dias.
Ao longo da campanha, também foi ao ar um site denominado "Brasil 22 Token", usado para a distribuição de criptoativos para usuários que comprovavam posts favoráveis a Flávio. A plataforma, no entanto, foi derrubada por determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após uma representação apresentada pelo coordenador jurídico da campanha de Lula, o advogado Angelo Ferraro.
Disputas judiciais e guerra entre 'fandoms' A Corte também tem deliberado sobre o "Exército de Lula", canal de WhatsApp criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) que exibia mensagens de incentivo à militância, áudios, vídeos e tutoriais sobre como ampliar o alcance de postagens a favor da campanha de reeleição do petista. No final de semana, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do grupo a pedido da campanha de Flávio, que alegou comportamento inautêntico dos integrantes do canal, difusão de boatos e "missões" de compartilhamento em massa.
A decisão, no entanto, foi derrubada pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, relator escolhido para a ação na Corte, na segunda-feira. No dia seguinte, Nunes Marques também autorizou o funcionamento da ferramenta, desde que a campanha de Lula registrasse, em até 48 horas, o grupo como um endereço oficial de comunicação. Até a noite desta quarta-feira, o grupo não havia voltado a funcionar. Em paralelo, aliados do senador, como Nikolas e o ex-coach Pablo Marçal (PRTB), organizaram o canal de WhatsApp "Tropa do Flávio", também usado para a divulgação de conteúdos de campanha. Em meio à controvérsia judicial envolvendo o grupo a favor de Lula, o PL decidiu registrar nesta semana a ferramenta como meio oficial de comunicação. Nos últimos dias, apoiadores do senador também atuaram para levantar a hashtag "FandomscomFlávio" a partir de posts com imagens das cantoras americanas Taylor Swift e Ariana Grande e de montagens de personagens de animes. As publicações antagonizam com o movimento de fã-clubes de artistas como Anitta e Beyoncé, que ofereceram seus perfis nas redes para a campanha petista após os resultados do primeiro turno. A ofensiva digital converge com a mudança da estratégia on-line do presidente, que passou a gravar vídeos no formato "selfie" e trouxe para perto jovens eleitos para a Câmara com atuação forte nas redes sociais. Próximo ao segundo turno, o mandatário também passou a comparecer e incentivar manifestações de apoiadores, nos moldes dos atos realizados no final de semana na Avenida Paulista, em São Paulo, e na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Flávio também tem planejado comícios e caminhadas ao lado dos apoiadores, renomeados como "bloquinhos do 22", marcados para os próximos dias e organizados por Nikolas Ferreira.
O Globo