A campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve explorar ao máximo a aprovação do fim da escala 6 x 1 com a expectativa de que a medida leve a uma melhora no desempenho do petista nas pesquisas de intenção na reta final da disputa eleitoral contra Flávio Bolsonaro (PL). Além de exaltar o impacto que a redução da jornada terá na vida de trabalhadores, a candidatura do petista tentará mostrar que o adversário era contra a medida e pode revogá-la caso seja eleito. Já Flávio tentará focar em outros assuntos e direcionar o debate público para levar vantagem.
Segundo um auxiliar do presidente, a campanha de Lula deverá focar, principalmente, na defesa do senador da proposta alternativa em que os trabalhadores negociem jornadas flexíveis junto a seus empregadores e a sinalização dele a interlocutores do setor empresarial de que poderá rever pontos da PEC se vencer a disputa presidencial no dia 25. Na quarta-feira, durante a votação da PEC no Senado, governistas passaram a divulgar nas redes sociais imagens do painel de presença que mostrava Flávio Bolsonaro ausente no início da sessão. O senador cumpria agendas no Rio Grande do Sul, e decidiu marcar a presença às 20h30, na reta final da discussão, e votar a favor da PEC. A ideia é reforçar o posicionamento a "contragosto" do adversário e desgastá-lo. Nesse contexto, o PT tentará argumentar que Flávio atua contra os interesses dos trabalhadores. As imagens do registro de ausência foram compartilhadas também em grupos de apoiadores de Lula e perfis vinculados à campanha do petista nas redes. No horário eleitoral da noite de quarta-feira, a campanha de Lula já tratou da redução de jornada. O candidato apareceu conversando com um casal que se beneficiará da mudança e houve ainda ataques a Flávio com acusação de que ele é contra a mudança. Alguns integrantes da campanha, porém, relativizam o impacto eleitoral da aprovação da PEC do fim da 6x1, especialmente pelo alcance limitado da nova regra a trabalhadores com carteira de trabalho assinada, em meio ao grande número de MEIs e pequenos empreendedores pelo país que não serão impactados pela mudança. No Brasil, há atualmente 17 milhões de MEIs ativos. Na avaliação desses interlocutores de Lula, a aprovação da medida pode estar precificada entre o eleitorado e não ter efeito dentro das pesquisas, especialmente por não impactar o eleitor "autônomo". Os levantamentos internos diários da campanha demonstram estabilidade entre o petista e Flávio Bolsonaro, o que demonstra o voto cristalizado entre os dois grupos. A expectativa é de que a participação de Lula nos debates da Band e da Globo operem oscilações positivas para o petista Já Flávio vai tentar tirar o tema do centro da campanha e evitar que a discussão continue provocando desgaste na reta final da disputa. A estratégia é evitar que o assunto ganhe espaço no horário eleitoral e direcionar o discurso para a defesa da liberdade de escolha do trabalhador. Integrantes da campanha dizem que o fim da escala 6x1 pode aparecer na propaganda eleitoral de Flávio, mas não deve receber grande destaque. A intenção é evitar que Flávio tenha de se explicar repetidamente sobre sua posição, o que, na visão de aliados, poderia prolongar a repercussão negativa do episódio. A orientação é sustentar que o senador nunca foi contrário à proposta, mas que defende melhorias no texto. O argumento central será o de que os trabalhadores devem ter liberdade para decidir sobre suas jornadas, dentro das regras trabalhistas. A tentativa de reduzir o espaço dedicado ao tema ocorre depois de Flávio sinalizar a empresários que o fim da escala 6x1 poderá ser reavaliado pelo Congresso em um eventual governo seu. Após anunciar voto favorável à PEC, o senador afirmou a representantes do setor produtivo, em encontro em São Paulo, que pretende acompanhar os efeitos da redução da jornada sobre o emprego e a atividade econômica. Nos bastidores, aliados discutem a possibilidade de propor ajustes nas regras caso sejam identificadas dificuldades para determinados setores. Além da possibilidade de rever as regras após a implementação, Flávio pretende manter na agenda a PEC das horas trabalhadas, proposta pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), segundo o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ). O deputado afirmou nesta quarta-feira que a oposição não pretende abrir mão do texto, que prevê a possibilidade de negociação entre patrões e empregados e de remuneração baseada nas horas trabalhadas. Segundo Sóstenes, a discussão ficará para depois das eleições. Dentre os assuntos que podem ganhar mais espaço estão pautas ligadas à segurança pública e à redução da maioridade penal. A estratégia é retomar temas que já fazem parte do discurso da campanha e evitar que a discussão sobre a jornada de trabalho monopolize a agenda do candidato e de seus apoiadores. A tentativa de mudar o foco ocorre em meio à preocupação da campanha com a repercussão do episódio e com a necessidade de manter a mobilização dos apoiadores na reta final da disputa. A avaliação interna é que o candidato não deve promover uma mudança geral na estratégia eleitoral, mas ajustar a comunicação para reduzir a exposição a um assunto que passou a exigir explicações.
O Globo