Uma mulher sai de casa com um nome e volta com outro registrado na certidão de nascimento. Outra finge ter deficiência física por 15 anos para não pagar passagem de ônibus. Há ainda a história de uma mãe que perdeu a filha durante um desfile da Mangueira na Marquês de Sapucaí. Entre episódios inusitados, momentos de humor e lembranças dolorosas, as experiências de moradoras do Morro da Mangueira mostram que a vida na favela não cabe em uma única narrativa. Fila na calçada e sabores de família: festival concorre a prêmio internacional e coloca a Maré no roteiro gastronômico Fé, devoção e cultura: Festa da Penha no Rio tem missas, shows e programação gratuita nos domingos de outubro Os relatos fazem parte de “As mangueirenses”, livro recém-lançado que reúne 30 contos inspirados nas memórias de 13 moradoras da comunidade. A iniciativa é da Associação Meninas e Mulheres do Morro (AMMM), organização com 30 anos de atuação na Mangueira, e foi viabilizada por um edital de Produção Literária da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (Secec-RJ). A ideia surgiu da convivência de Kely Louzada, fundadora e coordenadora-geral da associação, com as moradoras. Convidado para escrever a obra, o escritor Yke Leon passou dois meses em encontros semanais com as participantes, ouvindo suas experiências e transformando as lembranças em contos. Entre elas está a que deu origem ao conto “A receita que Deus me ensinou”. Muito religiosa e sem experiência na cozinha, a moradora Sueli Lourenço preparou um bolo ruim para uma festa e passou a noite rezando para aprender a cozinhar. Depois, tornou-se profissional da área e chegou a preparar cinco mil salgados para o aniversário da filha. Para Leon, os episódios mostram como experiências cotidianas podem esconder narrativas surpreendentes, que nem mesmo um roteirista conseguiria imaginar facilmente. O trabalho, porém, não consistia apenas em encontrar histórias curiosas, mas em criar condições para que as mulheres se sentissem seguras para compartilhar lembranças, inclusive as dolorosas — A gente foi conseguindo construir um ambiente seguro o suficiente para que essas mulheres revirassem a própria memória, revirassem a própria história e fossem lembrando, fossem dividindo — conta. Ao organizar o material, o escritor percebeu que havia catalogado mais de cem histórias. Apenas 30 entraram no livro, selecionadas durante o processo de escrita. As participantes foram consultadas sobre a inclusão de seus relatos, em um cuidado para preservar suas memórias e respeitar suas experiências. A repercussão também chegou às famílias. Algumas mulheres contaram ao escritor que filhos e netos haviam lido a obra. Uma delas se emocionou ao pensar que o neto encontraria a história da avó em um livro. — “Você está me eternizando” — recorda Leon, ao reproduzir a reação da participante. Para o escritor, a obra busca mostrar que a Mangueira existe para além da escola de samba e que as histórias de seus moradores merecem espaço nas páginas culturais, não apenas nas policiais. A violência e as desigualdades fazem parte da realidade das favelas, diz, mas não resumem a vida de quem vive nesses territórios. — É muito cansativo firmar essa narrativa de pobreza, de miserabilidade, de escassez. Isso está posto, mas não é a coisa mais importante sobre essas pessoas — diz. Os contos abordam afetos, conflitos, perdas e sonhos, revelando experiências que podem aproximar mulheres de diferentes realidades sociais. — A mulher da Mangueira ama igual à mulher do Leblon. Ela chora igual, sofre igual, deseja igual, tem sonho igual — diz Leon. Feito em parceria com a Editora Albatroz, o livro traz prefácios de Guanayra Firmino, presidenta da Estação Primeira de Mangueira, e da cantora Alcione. O projeto também deu origem ao documentário, dirigido por Guilherme Quadrado, “As mangueirenses”. A primeira edição foi financiada pelo edital estadual, tem tiragem limitada e não pode ser comercializada. Segundo Leon, a equipe trabalha para lançar uma segunda edição comercial até o fim do ano, com venda em plataformas digitais. A intenção é ampliar o projeto para outras linguagens, como teatro e audiovisual, e há a possibilidade de editar novos volumes.
De identidade trocada a segredo de 15 anos: livro revela histórias curiosas de mulheres da Mangueira
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O Globo
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