Um tribunal do Quênia deve anunciar a sentença de Paul Mackenzie, pregador acusado de liderar uma seita que incentivava seguidores a jejuar até a morte sob a promessa de que encontrariam Jesus. Ele e outros 29 integrantes do grupo respondem pelo assassinato de 191 pessoas, das quais 190 eram crianças. Mais de 400 corpos foram encontrados em covas rasas na floresta de Shakahola, perto da costa queniana, onde o pastor estabeleceu uma comunidade religiosa. Eleito com o sonho de revitalizar a França: Macron vê mandato terminar em crise sistêmica e com protestos pelo país Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Esta será a primeira decisão judicial contra Mackenzie pelas acusações mais graves de assassinato. Todos os réus se declararam inocentes e afirmam que ninguém foi obrigado a morrer. O pregador e outros líderes também enfrentam processos por terrorismo, radicalização e privação do direito à educação de crianças. Enos Amanya Ngala, ex-chefe de segurança de Mackenzie, chegou a ser acusado no caso, mas posteriormente firmou um acordo judicial e passou a testemunhar em favor da acusação. Documentos judiciais de 298 páginas detalham as acusações e descrevem mortes por fome, estrangulamento e espancamentos. Muitos dos corpos ainda não foram identificados devido ao avançado estado de decomposição. A responsabilidade criminal de cada réu dependerá da decisão judicial. Membros da seita teriam feito jejum até morrer Reprodução Mais de 400 corpos foram encontrados na floresta As autoridades localizaram mais de 400 corpos durante escavações na floresta de Shakahola. Trabalhadores contratados na cidade vizinha recebiam aproximadamente US$ 8 por dia para retirar os restos mortais das covas. James, um dos trabalhadores, relatou à BBC a dimensão do que encontrou durante o serviço. — Todas as covas que encontramos tinham pelo menos três corpos. Alguns dos restos mortais eram de crianças com apenas algumas semanas de vida — contou James. Em uma das escavações, os trabalhadores encontraram 12 crianças enterradas na mesma cova. — Certa vez, encontramos 12 corpos de crianças enfileirados dentro de uma cova. Era algo enorme, os corpos estavam organizados como roupas. Um em cima do outro — relatou. Os trabalhadores também encontraram restos mortais de crianças com mãos e pernas amarradas e corpos envoltos em lençóis. Salim Karisa, outro coveiro contratado para o trabalho, afirmou que alguns integrantes da comunidade transportavam pessoas de moto para dentro da floresta, mas o sigilo em torno das atividades impedia que os moradores soubessem o que acontecia no local. — Às vezes, levávamos pessoas de moto para dentro da floresta — contou Karisa: — Mas tudo era tão planejado e secreto que ninguém conseguia saber o que acontecia lá dentro. Embora muitos seguidores viessem de outras regiões do Quênia, alguns eram conhecidos pelos moradores das proximidades. Integrantes da seita frequentavam a cidade vizinha de Shakahola para comprar suprimentos e buscar água no rio Galana. Pai perdeu os seis filhos para a seita Stephen Mwiti, de 48 anos, afirma que todos os seus seis filhos morreram na floresta. Ele contou que foi confrontar Mackenzie e encontrou mulheres com a cabeça raspada e dezenas de crianças na casa do pregador. A ex-mulher de Mwiti também está entre as pessoas acusadas no processo. — Todos os meus seis filhos morreram na floresta de Shakahola — afirmou Mwiti, que conseguiu recuperar e enterrar apenas os restos mortais de um deles, Samuel. Em sua casa, na cidade costeira de Malindi, a cerca de 70 quilômetros da floresta, Mwiti apontou para uma televisão e um aparelho de TV a cabo empoeirados. Foi por meio da televisão que ele conheceu as mensagens religiosas de Mackenzie. Diante da perda dos filhos, expressou revolta ao falar sobre o pastor: — Se eu encontrasse o pastor Mackenzie hoje, um de nós teria que morrer. Como Mackenzie atraiu seguidores Mackenzie fundou a Good News International Ministries em 2003. Ao longo dos 16 anos seguintes, a igreja conquistou milhares de seguidores e abriu filiais em diferentes partes do Quênia. A instituição também mantinha uma emissora de televisão, a Times TV, que transmitia os sermões do pastor a partir de sua igreja em Malindi. As pregações abordavam o fim dos tempos e incluíam teorias conspiratórias e restrições à vida cotidiana dos fiéis. A educação era descrita como algo “maligno”, os serviços de saúde eram considerados contrários à doutrina religiosa e os documentos digitais de identidade eram associados à “marca do diabo”. Mackenzie também proibia maquiagem e determinados penteados, além de orientar as mulheres a raspar os cabelos ou deixá-los despenteados. Segundo Dan Mackenzie, filho do pregador, que trabalhou como cinegrafista na igreja, as crianças ficavam na parte de trás do salão, enquanto os adultos se sentavam no meio. Os fiéis cantavam músicas religiosas durante a manhã, antes de o pastor iniciar os sermões ao meio-dia. Algumas pregações incluíam sessões para expulsar demônios. A igreja principal fechou em 2019. Depois disso, Mackenzie se estabeleceu na floresta de Shakahola e incentivou seus seguidores a acompanhá-lo. Proibição de medicamentos agravou doenças Peter Shukrani, hoje com 23 anos, começou a frequentar a igreja de Mackenzie aos oito anos. Em 2019, mudou-se para Shakahola com a mãe e passou a viver na comunidade, onde os medicamentos eram proibidos pela doutrina religiosa. Shukrani adoeceu e teve seu estado de saúde agravado pela falta de tratamento. — Minha mãe jogava fora todos os remédios que eu deveria tomar porque acreditava que somente Deus poderia me curar — afirmou. A comunidade vivia em casas de barro espalhadas pela floresta. Segundo Shukrani, os seguidores alternavam períodos de jejum com pequenas refeições. — Vivíamos uma vida tranquila e normal, jejuando por alguns dias e depois fazendo uma pequena refeição — relatou. Quando os primeiros restos mortais foram encontrados, em março de 2023, centenas de pessoas já haviam morrido. Karisa afirmou que algumas vítimas estavam tão debilitadas que não resistiam sequer ao transporte para fora da floresta. — Levávamos alguém para fora da floresta, mas a pessoa estava tão debilitada que morria em nossos braços — contou. Shukrani foi resgatado naquele mês, depois de passar semanas doente e acamado. Ele acredita que teria morrido caso permanecesse no local. — Eu teria morrido se não tivesse sido resgatado da floresta de Shakahola. Apesar da experiência e das mortes entre os seguidores, o jovem continua defendendo Mackenzie e afirma que o pastor não obrigou ninguém a jejuar. — Mackenzie não obrigou ninguém a jejuar. As pessoas fizeram essas escolhas por conta própria, por causa de suas crenças. Ainda o amo, e ele continua sendo meu pastor — declarou Shukrani. Dan Mackenzie, filho do pastor, avalia que o pai deve ser responsabilizado pelas mortes. Ao contrário de Shukrani, que continua a considerá-lo uma pessoa boa, Dan argumenta que a posição de liderança religiosa torna o pregador responsável pelo que aconteceu com seus seguidores. — Ele era o líder, era alguém que eles admiravam e em quem se espelhavam. Portanto, ele é um assassino em massa — afirmou.
'Seita do jejum': Quênia julga pastor acusado de levar fiéis à morte por fome, entre eles 190 crianças; relembre o caso
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