Há mais de cinco décadas, corre à boca miúda, no meio do samba, que “Argumento”, de Paulinho da Viola, seria uma provocação a Benito Di Paula. O portelense já desmentiu a futrica algumas vezes (“Nunca faria isso com um colega”, asseverou, certa vez). Verdade ou invenção, a fofoca tem lá suas razões para ganhar asas. Na composição de 1975, Paulinho pede que não lhe alterem o samba tanto assim e avisa que a rapaziada está sentindo a falta de um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim. Detalhe: àquela época, Benito era quem orquestrava um baita sacolejo no gênero musical — com seu piano mais do que peculiar. 50 anos de U2: Bono e The Edge falam de política, fé e fake news: ‘Estamos na era da pós-verdade’ Primavera Sound: Organização anuncia shows pré-festival no Cine Joia e na Audio, em São Paulo; veja line-up Pois bem, com ou sem cavacos, pandeiros e tamborins, Benito fez o samba rodar. E o estilo musical deu tantas e tantas voltas nas mãos do artista que acabou saindo do eixo. O cantor, compositor e pianista — que morreu neste domingo (18), aos 84 anos, em decorrência de um câncer — deixa como principal legado uma obra marcada pela liberdade. Natural de Nova Friburgo, na Região Serrana Fluminense, ele se notabilizou por amalgamar referências que nem sempre pareceram destinadas ao mesmo espaço no pentagrama. Dava protagonismo ao piano enquanto ecoava notas de bolero, baladas românticas e música de concerto. Tudo isso sem deixar de lado, jamais, o balanço do samba. Tornou-se, assim, incompreendido por parte da crítica, que via com reservas tamanha ousadia. — Benito foi um grande inventor, um cara que estilizou o samba. Pôs piano e otras cositas más no gênero. Algumas obras parecem adágios de compositores clássicos. Não foi, então, muito entendido. Nos anos 1970, havia ainda certo purismo na música brasileira, e o surgimento dele impactou a cena — observa Zeca Baleiro, que participou do último show do colega, em julho deste ano, em São Paulo. — Ele era um cantorzão, um arranjador maravilhoso. Melodias inspiradas, letras bem-feitas... Foi brilhante. As invencionices, bem, encontraram ressonância entre os ouvintes. Ao embaralhar as fronteiras entre o samba tradicional, a canção romântica, o brega e a música popular de apelo comercial — e o que mais? —, Benito pariu um som muitíssimo particular. Meio sem querer, pavimentou o trilho (e a trilha) de artistas que, anos mais tarde, fariam do pagode romântico um dos gêneros mais consumidos no país. — Se você ouvir Paulinho da Viola e Raça Negra, achará que não existe conexão nenhuma entre um e outro. Mas, se escutar Benito no meio do caminho, encontrará essa estrada — compara Thiago França, saxofonista, compositor e arranjador do grupo Metá Metá, que participou de projetos recentes do artista. — Benito é o elo perdido entre o samba tradicional e o pagode dos anos 1990. Ele tinha o samba no DNA, mas uma roupagem que conversava com a música popular, brega, romântica. É um cara único porque conseguia ser sofisticado e popular. Thiago fala com o conhecimento de quem imergiu no universo musical de Benito. Ele participou das gravações de “O infalível zen” — álbum de canções inéditas realizado com Rodrigo Vellozo, filho do artista — e voltou a trabalhar com seu repertório no disco de releituras “Benito 85”, lançado neste ano (na mesma ocasião que contou com participação de Zeca Baleiro). Em estúdio, o instrumentista testemunhou o requinte por trás das melodias que pareciam nascer prontas para ganhar as ruas. — Ele tinha uma profundidade melódica e harmônica, mas também uma comunicação imediata — analisa. — Sabia, muito bem, fazer aquela música que você ouve pela primeira vez e parece que conhece a vida inteira. Acho que essa é a qualidade mais incrível que um compositor pode ter: sintetizar um sentimento de um jeito que a canção flua facilmente na boca do povo. O cantor Benito Di Paula Edilson Dantas/Agência O Globo/16-11-2021 E haja música. O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o Ecad, contabiliza 216 obras musicais e 417 gravações cadastradas em nome de Benito. A lista dos maiores sucessos é de fazer inveja a qualquer compositor: “Retalhos de cetim” (aquela do refrão “Mas chegooou o carnavaaal”), “Do jeito que a vida quer”, “Charlie Brown”, “Mulher brasileira”, “Como dizia o mestre”, “Vai ficar na saudade”... Quem aí não sabe entoar pelo menos um trechinho dessas pérolas? As cinco primeiras, aliás, lideram, nesta ordem, o ranking das composições de sua autoria mais executadas no Brasil, de 2021 pra cá, segundo levantamento do órgão. Sinal de que, mesmo passado mais de meio século de seus primeiros sucessos, a obra continua encontrando novos e novos ouvidos. Fernanda Takai é uma das artistas que revigoraram esse repertório. A cantora conta que cresceu ouvindo as letras de Benito nas fitas que o pai tocava durante viagens de carro. Em 2014, decidiu regravar “Como dizia o mestre” e... Está aí, até hoje, uma das faixas de destaque em suas turnês. — Queria uma música que não tivesse tantas regravações. Essa tem um texto maravilhoso para ser cantado justamente por uma mulher — explica ela, que dividiu o estúdio com o compositor em “Deixa isso pra lá”, de Jair Rodrigues. — Além de ser um artista completo, era um cavalheiro. Apesar de tantas canções entranhadas no imaginário coletivo, Benito nunca pareceu interessado em tocá-las da mesma maneira. Ao contrário. O músico e arranjador Luís Filipe de Lima, responsável pelo violão de sete cordas na gravação do DVD “Ao vivo”, de 2009, lembra que os ensaios se estenderam por nove dias. Era preciso estar preparado para as “surpresas” do pianista, que reinventava introduções, harmonias, contracantos e finais diante de composições interpretadas (e cristalizadas) havia várias décadas. — Eram arranjos praticamente novos a cada passada de música, sempre com soluções originais e de muito bom gosto. A ideia era ficar de olho nele, ganhar familiaridade com todas aquelas possibilidades e alcançar reflexos rápidos para acompanhá-lo na hora, com segurança. Um aprendizado — recorda Luís Filipe. A inventividade vinha de longe. Na meninice, o artista — que, aos 17 anos, se mudou para o Morro da Formiga, na capital fluminense, a fim de cumprir o serviço militar no Exército —, via o pai promover rodas de choro, amiúde, na casa da família. O contato com o gênero, sempre embalado por improviso, deu abertura aos ouvidos. E ele passou a gostar mais e mais de destampar outras orelhas. No último show de Benito, em julho, na Casa Natura Musical, em São Paulo, Thiago França se assustou, de início, com as variações repentinas nas músicas. Fisicamente fragilizado, o veterano começou a cantar ao piano de maneira lenta, espaçando os acordes, até que uma passagem deixou o saxofonista desconfiado, e agora?, de que ele havia ficado sem rumo. — Pensei: “Será que ele se perdeu?”. Mas aí veio outro acorde, mais outro, e tudo caiu exatamente no lugar. Ele estava brincando de rearmonizar as músicas no meio delas e fazendo todo mundo cantar no tempo dele. Foi muito especial ver aquilo — lembra Thiago, emocionado também com a entrega da plateia. Para Pretinho da Serrinha, percussionista, compositor e produtor musical, a primazia dada ao piano foi decisiva para a construção da identidade artística do cantor. — Seu jeito particular de fazer samba, dando protagonismo ao piano, trouxe uma riqueza melódica e harmônica ao gênero. Suas composições têm lágrimas e fazem parte do repertório de vários sambistas tradicionais. Eu me incluo nessa lista — afirma. A admiração atravessa gerações. Vai de Mumuzinho a Teresa Cristina, de Belo a Maria Rita. O bamba Xande de Pilares, que entoou o samba-enredo em sua homenagem no desfile da Águia de Ouro, no carnaval paulista de 2025, emociona-se ao falar do ídolo: — Benito é parte da minha influência, e seu legado fica aqui para a gente, para quem quiser usufruir — diz.
De Fernanda Takai a Xande de Pilares, fãs de Benito di Paula destacam sua inventividade e a forma como abriu caminho para novas vertentes do samba
Fonte da notícia:
O Globo
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