De Ayrton Senna à inteligência artificial: o lendário fotógrafo que registrou 657 GPs e viu a Fórmula 1 se transformar

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Fonte da notícia: Epoca Negócios Epoca Negócios

Há mais de quatro décadas, quando ainda estudava fotografia em Manchester, na Inglaterra, Mark Sutton recebeu do irmão, Keith, uma missão aparentemente simples: registrar uma corrida de Fórmula 3 no circuito de Oulton Park. Era 1983, e um jovem brasileiro chamado Ayrton Senna disputava posições com o britânico Martin Brundle.

Sutton, que nunca havia fotografado carros de corrida, posicionou-se em uma curva, enquanto o irmão ficou responsável por outra parte da pista. Quando os dois pilotos apareceram lado a lado, ele apertou o disparador.

Senna avançou por dentro, os carros se tocaram e aconteceu o que qualquer fotógrafo de automobilismo gostaria de registrar. Mas havia um problema: sua câmera não tinha avanço automático do filme.

Entre uma fotografia e outra, era preciso movimentar manualmente uma alavanca. Ayrton Senna sob as lentes de Mark Sutton

Sutton Images O resultado foi uma sequência de apenas duas imagens: na primeira, os carros apareciam lado a lado; na seguinte, o veículo de Senna já estava sobre o de Brundle.

O instante exato da colisão havia escapado enquanto Sutton avançava o filme. Ainda assim, as fotografias circularam pelo mundo.

Ayrton Senna em corrida da Fórmula 3 -- uma das primeiras fotos de Sutton Sutton Images

Quarenta e três anos depois, aquele estudante se tornou um dos veteranos da fotografia automobilística. Aos 61, acumula 657 Grandes Prêmios de Fórmula 1, trabalha para a Getty Images e para a própria categoria e acompanhou gerações de pilotos, transformações nos carros e uma revolução na ferramenta que utiliza diariamente.

Hoje, suas câmeras são capazes de produzir dezenas de imagens por segundo, identificar e acompanhar objetos em movimento com precisão e transmitir fotografias praticamente em tempo real para editores do outro lado do planeta. "Passei por tudo, desde fotografar em filme, revelar e digitalizar as imagens, até a chegada da internet", conta Sutton, em entrevista à Época NEGÓCIOS, diretamente de Interlagos, onde acompanha o Grande Prêmio de São Paulo neste fim de semana.

Ayrton Senna celebra vitória em 1991 Sutton Images

A conexão com a família Senna permanece viva. Por uma coincidência, na manhã do mesmo dia da entrevista, eu havia acompanhado uma palestra de Bruno Senna, sobrinho de Ayrton.

Ao ouvir a história, Sutton imediatamente recordou a relação construída com o piloto brasileiro e, posteriormente, com a geração seguinte da família. Seu irmão Keith foi fotógrafo de Ayrton, e Mark acompanhou de perto os primeiros passos do brasileiro na Europa.

Fotografou testes do piloto com equipes de Fórmula 1 e, anos depois, participou da cobertura da carreira de Bruno. Mas não é apenas a nostalgia que o mantém nas pistas.

"Tenho 61 anos, mas continuo com uma paixão enorme por esse esporte. Toda vez que chego a um circuito, ainda sinto aquela empolgação", afirma.

Das câmeras analógicas aos satélites A transformação tecnológica vivida por Sutton pode ser medida tanto pela velocidade dos carros quanto pela rapidez com que suas fotografias chegam ao público.

No início da carreira, a rotina envolvia fotografar durante o dia, revelar os filmes e examinar os negativos. Muitas vezes, o profissional só descobria horas depois se havia conseguido registrar o momento desejado.

Foi assim que surgiu uma das imagens mais marcantes de sua carreira: uma fotografia de Mika Häkkinen com o carro suspenso no ar após passar por uma zebra, em 1993. Sutton conta que nem sequer sabia que havia conseguido aquele registro.

Ao examinar o material, seu irmão encontrou a imagem e gritou, atraindo outros fotógrafos para a mesa de luz. A fotografia, que ganhou o nome de Flying Finn (ou “Finlandês Voador”), se tornaria uma de suas favoritas.

The Flyint Finn, foto clássica de Mika Hakkinen tirada por Sutton em 1993 Sutton Images

Com a chegada das primeiras câmeras digitais profissionais, no fim dos anos 1990, a rotina começou a mudar. A qualidade inicial, porém, ainda era limitada.

Durante alguns anos, os profissionais precisaram trabalhar simultaneamente com equipamentos analógicos e digitais: os primeiros garantiam imagens de maior resolução, enquanto os segundos permitiam abastecer jornais e sites com mais agilidade. A evolução seguinte aconteceu na transmissão.

Sutton passou pelos modems, pelas redes móveis e, mais recentemente, pela comunicação via satélite. Atualmente, a Getty Images distribui pontos de conexão Starlink em diferentes trechos dos circuitos.

Os fotógrafos podem conectar seus equipamentos e enviar arquivos diretamente aos editores. A solução responde a um desafio curioso: a própria popularidade da Fórmula 1.

Com dezenas de milhares de espectadores produzindo vídeos, selfies e publicações nas redes sociais, as redes móveis dos autódromos ficam sobrecarregadas. "Temos cem mil pessoas tentando compartilhar suas experiências.

Elas estão filmando, publicando no YouTube, no TikTok. Não há nada de errado nisso, mas nós também precisamos enviar nossas fotografias", diz.

Grand Prix da Holanda de 2026 Sutton Images

O equipamento também mudou. Sutton utiliza atualmente uma Nikon Z9, capaz de realizar disparos em alta velocidade e acompanhar objetos em movimento com sistemas avançados de foco automático.

Para quem começou fotografando carros com foco manual e precisando avançar o filme entre os disparos, a diferença é monumental. Ainda assim, ele acredita que a essência do trabalho permaneceu intacta.

"Somos artistas que produzem imagens individuais capazes de capturar momentos. É isso que estamos procurando."

A transformação não aconteceu apenas nas câmeras. O próprio objeto de trabalho de Sutton mudou.

A Fórmula 1 se tornou um espetáculo global que vai além das disputas na pista. Para o fotógrafo, que hoje registra também celebridades, torcedores e os rostos dos pilotos, parte das imagens mais valiosas de um Grande Prêmio acontece antes da largada ou depois da bandeirada.

Ele cita, por exemplo, uma fotografia exclusiva de Kim Kardashian e Lewis Hamilton durante o GP dos Estados Unidos, em Austin, que, segundo Sutton, esteve entre as imagens comercialmente mais importantes daquele fim de semana. Também observa a mudança no perfil dos fãs, com maior presença de mulheres e jovens, movimento que associa, em parte, à popularidade da série Drive to Survive, da Netflix.

"É um esporte que está mudando, com certeza", afirma. Kim Kardashian e Lewis Hamilton durante o GP dos Estados Unidos

Sutton Images O entusiasmo com essas transformações ajuda a explicar por que Sutton continua viajando pelo mundo para acompanhar corridas, mesmo depois de tantos anos.

Mas a chegada de uma nova tecnologia começa a levantar questões diferentes sobre o futuro de sua profissão. E quando a inteligência artificial entrar em cena?

Sutton acompanha com curiosidade os avanços da inteligência artificial e da robótica. Durante a entrevista, lembra uma experiência recente com um veículo autônomo em Austin, nos Estados Unidos, e se mostra impressionado com a velocidade das mudanças.

Na fotografia, porém, defende uma distinção fundamental entre registrar e fabricar uma imagem. Ele conta como a Getty Images mantém uma política de não aceitar imagens geradas por inteligência artificial em sua cobertura editorial, embora permita ajustes tradicionais de edição, como correções de cor e nitidez.

"Está ficando difícil saber o que é real e o que não é", afirma. Sutton reconhece que ferramentas de IA são capazes de remover elementos indesejados de uma fotografia e produzir composições visualmente mais limpas.

Mas ressalta que, no jornalismo, preservar a autenticidade do registro é uma preocupação central. Isso não significa que ele rejeite as novas tecnologias.

Pelo contrário: sua carreira foi construída justamente pela capacidade de acompanhar mudanças sucessivas, da fotografia analógica às transmissões por satélite. O limite, ao menos por enquanto, parece estar na possibilidade de substituir o olhar humano.

"Vamos ter robôs trabalhando como fotógrafos?", questiona, ao refletir sobre os avanços da automação. Perguntado se a possibilidade o entusiasma ou assusta, responde com uma risada: "Acho que é aí que chega a hora de me aposentar".

Grand Prix do México de 2026 Sutton Images

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