Quatro meses separaram o pior momento da carreira de Fernando Muslera de uma de suas noites mais gloriosas. Aos 40 anos, o goleiro uruguaio que saiu da Copa do Mundo como um dos principais responsáveis pela eliminação precoce de sua seleção foi o herói da classificação do Estudiantes à final da Libertadores.
Nesta quinta-feira, no Maracanã, defendeu três pênaltis, cobrados por Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique, e garantiu a vitória argentina por 3 a 2 nas cobranças, após dois empates sem gols contra o Flamengo. Mais do que uma classificação, a atuação coroou um processo de reconstrução que o próprio jogador descreveu como uma cura.
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A história começou em junho, quando Muslera chegou à sua quinta Copa do Mundo, aos 40 anos, como titular do Uruguai de Marcelo Bielsa. Falhou nos três jogos da seleção, contra Arábia Saudita, Cabo Verde e Espanha.
Na partida decisiva, deixou passar um chute de Álex Baena que determinou a derrota por 1 a 0 e a eliminação ainda na fase de grupos. No intervalo, pediu para ser substituído.
Bielsa revelaria posteriormente que o goleiro reconheceu não estar em condições psicológicas de continuar e preferiu entregar o lugar a Sergio Rochet. Uma decisão que expôs a dimensão do abalo.
Fernando Muslera contra a Espanha: falha custou a eliminação CARL DE SOUZA / AFP
Não era a primeira vez que Muslera carregava o peso de uma eliminação. Na Copa de 2018, falhara ao tentar defender um chute de Antoine Griezmann nas quartas de final contra a França.
Em 2010, cometera erros na derrota para a Alemanha na disputa do terceiro lugar. Mas nada parece ter sido tão devastador quanto 2026.
Depois da eliminação, pediu desculpas aos companheiros e aos uruguaios. Disse jamais ter imaginado sofrer tanto pelo futebol, sobretudo depois de todo o trabalho de preparação.
O veterano que acumulara títulos e reconhecimento internacional parecia ter perdido aquilo que mais importa a um goleiro: a confiança. A recuperação começou em um lugar improvável.
Quando voltou ao Estudiantes, no fim de julho, Muslera encontrou uma torcida que, em vez de cobrar pelos erros, cantava seu nome ainda no aquecimento. Nem mesmo o retorno foi tranquilo.
Na derrota por 2 a 0 para o Independiente, envolveu-se em uma falha de comunicação com o zagueiro Ramiro Funes Mori que terminou em gol adversário. Mas o apoio continuou.
Emocionado, o goleiro disse sentir uma mistura de dor e alegria com a recepção e as mensagens que recebera dos companheiros. O clube argentino oferecia aquilo que ele não encontrara nas semanas anteriores: espaço para errar sem ser condenado.
O episódio mais revelador veio em agosto, na vitória por 3 a 0 sobre o Defensa y Justicia. Muslera espalmou mal uma bola e só não sofreu o gol porque Gastón Benedetti apareceu para salvar.
Depois da partida, contou ter dito ao companheiro que, sem aquela intervenção, poderia entrar novamente em um poço do qual talvez não conseguisse sair. Admitiu que ainda vivia um "processo de cura" pelo que acontecera no Mundial.
Na mesma partida, porém, defendeu um pênalti de David Barbona e foi ovacionado. Tiago Palacios resumiu o sentimento do elenco: Muslera precisava daquele reconhecimento depois de tudo o que sofrera na Copa.
Havia, afinal, uma carreira inteira por trás daquele momento de fragilidade. Nascido em Buenos Aires, mas formado no futebol uruguaio, Muslera passou pela Lazio antes de se transformar em ídolo do Galatasaray, onde atuou por 14 temporadas e conquistou oito campeonatos turcos.
Pela seleção, foi titular na conquista da Copa América de 2011 e na campanha do quarto lugar no Mundial de 2010. Chegara ao Estudiantes em 2025 e já participara da conquista de dois títulos argentinos, incluindo o Clausura, decidido nos pênaltis contra o Racing com uma defesa sua.
A trajetória não havia sido apagada por três partidas ruins, embora recuperar essa convicção fosse mais difícil do que simplesmente recordá-la. A Libertadores serviu como termômetro dessa recuperação.
Nas oitavas de final, diante da Universidad Católica, Muslera voltou a fazer intervenções importantes e saiu sem sofrer gols na partida decisiva. Nas quartas, contra o Corinthians, fez uma defesa difícil em finalização de Matheus Bidu e ajudou a sustentar a classificação do Estudiantes.
A cada jogo, o goleiro recuperava a segurança que parecia ter desaparecido na Copa. O apoio da torcida de La Plata, a confiança dos companheiros e a sequência de atuações consistentes foram reconstruindo, aos poucos, um jogador acostumado a enfrentar grandes decisões.
No Maracanã, essa reconstrução encontrou seu ponto mais alto. Mesmo com um jogador a menos desde os primeiros minutos do segundo tempo, o Estudiantes resistiu ao Flamengo.
Muslera fez defesas importantes durante a partida e, na disputa por pênaltis, foi decisivo três vezes. O homem que pedira para deixar o campo no intervalo de uma partida da Copa agora permanecia até o último chute para conduzir seu clube à final continental.
Há ainda uma coincidência especial no destino: a decisão contra o Palmeiras será em 28 de novembro, no Estádio Centenário, em Montevidéu. Quatro meses depois de deixar o Mundial sob críticas dos próprios compatriotas, Muslera terá a oportunidade de disputar o maior título de clubes de sua carreira justamente em seu país.
O Globo