A crescente demanda por tecnologia e modernização dos processos industriais tem aberto espaço para novos empreendedores em Goiás. Em um mercado que exige profissionais cada vez mais qualificados, a formação técnica em automação se tornou não apenas uma porta de entrada para o emprego, mas também uma oportunidade para a criação de empresas especializadas em soluções tecnológicas.
Foi nesse cenário que Ricardo Silva de Menezes encontrou o caminho para empreender. Interessado em matemática e tecnologia desde o ensino médio, ele ingressou no curso de automação e mecatrônica em 2006 e, três anos depois, fundou a própria empresa.
A trajetória do ex-aluno do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) mostra como o conhecimento adquirido em sala de aula, combinado à experiência prática, pode se transformar em negócio. O primeiro contato de Ricardo com o mercado de trabalho ocorreu ainda no início da formação.
Antes mesmo de completar o primeiro mês de faculdade, conseguiu uma oportunidade em uma empresa de serviços de automação, por indicação de colegas. Ao longo do curso, conciliou os estudos, o emprego e atividades de monitoria, acumulando experiências que seriam fundamentais para a decisão de empreender.
Em outubro de 2009, poucos meses após concluir a graduação, Ricardo abriu uma empresa de distribuição e prestação de serviços de automação industrial. O negócio passou a oferecer projetos, programação e modernização de equipamentos, atendendo a demandas de setores como agronegócio, metalmecânica e construção civil.
A decisão de empreender também teve influência familiar. O pai de Ricardo mantém uma pequena fábrica de calçados, e o objetivo de construir uma empresa própria acompanhava o empresário desde o início da carreira.
Antes de abrir o negócio, ele trabalhou em uma prestadora de serviços de automação, onde encontrou apoio do então empregador para iniciar a própria atividade. “Quando eu fui para o mercado, não sabia nada ainda.
Isso foi conversado com meu patrão, que tinha uma empresa pequena e falou: ‘Não tem problema, a gente vai aprendendo junto’. Foi muito interessante, porque algumas coisas eu aprendi primeiro na prática e depois vi na teoria.
Em outras situações, aconteceu o contrário”, relatou ao Jornal Opção. Para Ricardo, a formação no Senai foi importante não apenas pelo conhecimento técnico, mas também pelas oportunidades de contato com empresas e profissionais.
Durante o curso, ele visitou indústrias, conheceu diferentes processos produtivos e discutiu problemas reais com professores e colegas. Operação da empresa de Ricardo | Foto: Heber Gomes / Jornal Opção
A relação com a instituição continuou depois da graduação. Cerca de dez anos mais tarde, o empresário voltou ao Senai para fazer uma pós-graduação em desenvolvimento e programação.
“O Senai abre muitas portas. Você pode voltar e, se tiver alguma dificuldade, a instituição te direciona de novo.
Inclusive, voltei depois e fiz uma pós-graduação”, afirmou. A formação que contribuiu para a trajetória de Ricardo também alcança milhares de estudantes em Goiás.
Dados do Senai mostram que a instituição registrou 126.223 matrículas em educação profissional em 2025, crescimento de 23,5% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 102.217. Somente entre janeiro e setembro de 2026, o número chegou a 109.915 matrículas.
A experiência do empresário acompanha uma tendência observada no mercado regional. Segundo Marlon Petri de Lima, professor do curso de Engenharia de Controle e Automação do Instituto Federal de Goiás (IFG), a expansão da demanda por serviços especializados tem criado oportunidades para que profissionais formados abram empresas próprias.
O professor afirma ter acompanhado, no último ano, o surgimento de três a quatro empresas entre alunos que ingressaram no mercado de automação. Em muitos casos, os profissionais começam trabalhando em empresas integradoras, que desenvolvem e implementam soluções para indústrias, e posteriormente identificam oportunidades para atender clientes por conta própria.
“É muito comum que os alunos comecem a empreender e abrir suas empresas para atender clientes aos quais estavam atendendo quando trabalhavam nessas empresas. A quantidade de oportunidades está dando a possibilidade de empreender para esses alunos, e isso aumenta a competitividade local”, explicou.
Operação da empresa de Ricardo | Foto: Heber Gomes / Jornal Opção Demanda industrial favorece novos negócios
A automação, antes concentrada em grandes indústrias, tornou-se mais acessível a empresas de pequeno e médio porte. A redução dos custos de equipamentos, a entrada de novos fornecedores e o avanço de tecnologias como a Internet das Coisas (IoT) e a inteligência artificial ampliaram o mercado para prestadores de serviços especializados.
Marlon afirma que a procura por profissionais cresceu a ponto de empresas integradoras enfrentarem dificuldades para encontrar trabalhadores. Entre as organizações que atuam no segmento, ele cita TSE, Volga e Flex Automação.
“Hoje, o IFG não encontra aluno suficiente para indicar para as empresas integradoras que precisam desses profissionais. Está tendo uma altíssima demanda, e a gente está tendo que correr atrás para poder fornecer esses alunos”, disse.
Marlon Petri de Lima é professor do curso de Engenharia de Controle e Automação do IFG | Foto: Arquivo Pessoal A necessidade de modernização industrial também cria oportunidades para empresas que oferecem soluções de manutenção preditiva, coleta de dados e melhoria de processos.
Segundo o professor, mesmo ganhos de produtividade de 1% ou 2% podem representar resultados expressivos para organizações de grande porte e ajudar empresas menores a superar barreiras de competitividade. Inteligência artificial entra no negócio
A incorporação de novas tecnologias também faz parte dos planos de expansão da empresa de Ricardo. O empresário afirma que já utiliza inteligência artificial, ainda de forma experimental e supervisionada, para apoiar o desenvolvimento de projetos de automação.
“Com a IA, a gente tem conseguido ganhar muito tempo e identificar alguns erros antes”, afirmou. A expectativa é que o avanço dessas ferramentas contribua para melhorar a produtividade e facilitar o trabalho em diferentes segmentos industriais.
Ricardo destaca, porém, que a adaptação tecnológica precisa caminhar junto com a capacidade de acompanhar as mudanças do mercado. Além dos serviços de automação, a empresa mantém uma atividade de distribuição de equipamentos.
Nesse segmento, o empresário aponta como desafio a concorrência com lojas virtuais e plataformas de comércio eletrônico, que exigem atualização constante e competitividade nos preços. Educação profissional e empreendedorismo
Diretor do Senai e superintendente do Sesi, Claudemir José Bonatto | Foto: Reprodução Para o diretor do Senai e superintendente do Sesi, Claudemir José Bonatto, a educação profissional pode estimular o empreendedorismo ao combinar competências técnicas e comportamentais.
Além do domínio de conhecimentos em programação, mecânica e eletricidade, os cursos desenvolvem habilidades como criatividade, pensamento crítico, trabalho em equipe e resolução de problemas. “Você pode ser empreendedor não somente sendo dono do negócio.
Pode ser um empreendedor sendo um trabalhador, um colaborador altamente produtivo. É o intraempreendedorismo, que desenvolve a capacidade de olhar para oportunidades dentro e fora da empresa e gerar melhores condições de negócio”, explicou ao Jornal Opção.
Bonatto explicou que a formação do Senai é estruturada a partir das demandas da indústria, com participação de profissionais do setor, pesquisas de mercado e consultas aos sindicatos patronais. A instituição também tem ampliado a oferta de cursos relacionados à inteligência artificial, à robótica e à automação.
Na avaliação de Marlon, o papel dos educadores vai além de transmitir conhecimento técnico. Professores também orientam os estudantes sobre caminhos profissionais, ferramentas necessárias e oportunidades para abrir negócios.
“Quando eles vão empreender, já tive a oportunidade de orientar quais caminhos seguir, que tipo de postura adotar e onde encontrar oportunidades. A gente acaba fazendo quase um processo de mentoria com alguns desses alunos”, disse.
Para Ricardo, o futuro da empresa depende justamente da capacidade de acompanhar as transformações tecnológicas e identificar novas demandas. Em um mercado que exige atualização permanente, a formação profissional e a experiência prática seguem como elementos centrais para transformar conhecimento em negócio.
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