A deterioração das relações entre os presidentes da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliou a pressão sobre a União Europeia (UE) para sustentar Kiev na guerra contra a Rússia, que já se estende por mais de quatro anos. Durante uma cúpula em Bruxelas nesta sexta-feira, o líder ucraniano pediu aos aliados pelo menos € 70 bilhões (R$ 399 bilhões) adicionais para 2027, apesar de o bloco já ter aprovado, em 2025, um empréstimo de € 90 bilhões (R$ 513 bi) para financiar o país neste e no próximo ano.
‘Esta é a minha resposta’: Zelensky sorri e mantém silêncio ao ser perguntado se Trump o usa como ‘bode expiatório’ Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Guia interativo reúne informações sobre 36 países — A guerra custará € 155 bilhões (R$ 883 bilhões) no próximo ano. E precisamos de pelo menos mais € 70 bilhões de vocês, para defesa, armamentos e nossa capacidade de resistência — disse Zelensky. — Este é um valor realista. E peço que encontrem uma forma de garantir esse apoio. Isso nos ajudará a conter a Rússia. O novo pedido ocorre após Washington flexibilizar sanções ao diesel russo, provocando críticas de Zelensky e de governos europeus, e reacende discussões sobre novos empréstimos ao país. Em agosto, o ucraniano já havia revelado um déficit inesperado de € 24 bilhões em suas necessidades de defesa até o fim deste ano, incluindo compra de armamentos, salários de militares e pagamentos às famílias de soldados mortos em combate. Agora, o pedido de € 70 bilhões mira as necessidades financeiras previstas para 2027.
Os anúncios foram feitos apesar do bloco europeu ter anunciado, em dezembro, um pacote de € 90 bilhões a ser dividido entre este e o próximo ano. A Ucrânia, no entanto, agora afirma que o dinheiro não será suficiente para atender às demandas crescentes do conflito, especialmente diante da intensificação dos ataques russos, da maior demanda por drones e sistemas de defesa e da expansão do Exército.
Em desafio a Trump: Zelensky ordena retomada de ataques a refinarias russas enquanto Musk pede sua renúncia Ao mesmo tempo, bombardeios russos contra instalações industriais, portos e rotas de exportação de grãos também prejudicaram a arrecadação do governo da Ucrânia. Segundo Roksolana Pidlasa, presidente da comissão de Orçamento do Parlamento ucraniano, as despesas militares do país cresceram mais de 17% nos primeiros oito meses de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. — Esses déficits surgem porque a guerra simplesmente fica cada vez mais cara a cada ano — disse Pidlasa. — Precisamos levar em conta que as táticas russas mudam, e isso torna a situação ainda pior para a Ucrânia. Antes mesmo de anunciar o novo pedido de recursos, porém, autoridades europeias já tinham começado a questionar, em conversas reservadas, se os recursos estavam sendo utilizados de maneira eficiente ou se as necessidades financeiras haviam sido superestimadas. Zelensky atribuiu parte do problema à utilização antecipada de verbas durante a gestão do ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, que nega.
Contexto: Zelensky agradece apoio de ‘líderes de verdade’na Europa, e Trump o classifica como ‘mais difícil de lidar’ que Putin Desde então, líderes europeus vêm analisando os dados orçamentários com Kiev para determinar a dimensão das necessidades. Europa busca alternativas Diante do novo pedido, autoridades da UE instruíram a Comissão Europeia a apresentar, até o fim de novembro, alternativas para cobrir o déficit previsto para 2027, segundo duas fontes ouvidas pela agência Reuters. Entre as possibilidades estão a contratação de um novo empréstimo, a antecipação de recursos já comprometidos e a utilização de ativos russos congelados, apesar da resistência de Bruxelas.
— Quais necessidades financeiras adicionais poderemos ter [para a Ucrânia] ficará claro nas próximas semanas — disse o chanceler alemão, Friedrich Merz, acrescentando que o assunto deverá voltar à pauta das reuniões de líderes europeus em novembro e dezembro e que ainda está “em aberto” a possibilidade de o bloco contrair novas dívidas para financiar outro empréstimo semelhante ao pacote de € 90 bilhões. Autoridades reagem com deboche: Kiev ganha primeiro abrigo antiaéreo, depois de mais de 4 anos de guerra e ataques russos O primeiro-ministro da Estônia, Kristen Michal, no entanto, afirmou à Reuters que a concessão de um novo empréstimo é a solução mais provável. Segundo ele, a UE precisa manter o apoio financeiro à Ucrânia em uma guerra de desgaste e deveria tomar uma decisão antes do fim do ano, antecipando-se ao período eleitoral de diversos países europeus. — A assistência financeira em uma guerra de desgaste é o princípio e o fim de tudo. É preciso mantê-la. E ela precisa vir da UE. Encontraremos uma solução, porque a Europa geralmente encontra uma saída.
Ativos russos congelados Outra alternativa, discutida tanto para ampliar o apoio a Kiev quanto para evitar novos gastos dos governos europeus, é utilizar aproximadamente € 210 bilhões em ativos soberanos russos congelados na União Europeia, a maior parte mantida na Euroclear, instituição financeira sediada na Bélgica. Suécia e Letônia defendem a medida, mas a proposta enfrenta resistência do governo belga, que alerta para riscos jurídicos e financeiros associados ao confisco de ativos de outro país. Disputa: Drones a jato da Rússia impulsionam corrida armamentista e busca por interceptadores eficazes na Ucrânia A Bélgica teme que a medida provoque uma crise de confiança e leve investidores estrangeiros a retirar recursos de instituições financeiras europeias. Zelensky afirmou ter discutido o assunto com o premier belga, Bart De Wever, e defendeu que Moscou não volte a ter acesso ao dinheiro. De Wever reconheceu que as necessidades ucranianas precisam ser atendidas e que grande parte da solução deverá vir da Europa. — O principal é que a Rússia não tenha a oportunidade de influenciar, posteriormente, o destino desses ativos. Porque sabemos muito bem que eles querem recuperar esses recursos — afirmou Zelensky. Crise com Trump As discussões financeiras ocorrem em meio a uma nova crise entre Zelensky e Trump, que reduziu a pressão econômica sobre Moscou para tentar conter a disparada dos preços dos combustíveis. O governo americano anunciou a suspensão temporária de sanções ao diesel russo, estuda aliviar restrições contra petroleiros da chamada “frota fantasma” e chegou a cogitar o descongelamento de ativos russos, medidas que provocaram críticas de Kiev e de governos europeus. Entenda: Ucrânia acusa EUA de ajudar a Rússia enquanto sofre restrições ao Starlink e ataques que deixam 600 mil sem luz A alta dos preços da energia, impulsionada pela guerra dos EUA contra o Irã, tornou-se uma preocupação central para Trump às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro. O presidente americano responsabilizou os ataques ucranianos contra refinarias russas pelo encarecimento dos combustíveis e classificou essas operações como uma “vergonha”, afirmando que era mais fácil lidar com o presidente russo, Vladimir Putin, do que com Zelensky. O desentendimento se intensificou após o fracasso de um suposto “cessar-fogo energético” anunciado por Trump no domingo. O americano disse que Moscou e Kiev tinham concordado em interromper os ataques contra instalações energéticas, embora Zelensky tenha dito que foi surpreendido pelo anúncio. Depois que Moscou continuou bombardeando a infraestrutura ucraniana, Kiev declarou que abandonaria a trégua e retomou os ataques. — E agora podemos ver como o dinheiro começará a voltar a fluir para a Rússia por meio do acordo sobre o diesel — afirmou Zelensky. — Esse acordo nunca será suficiente para compensar o impacto do Estreito de Ormuz sobre os mercados globais. Mas colocará mais dinheiro diretamente no bolso de Putin para financiar esta guerra. Resistência interna na Europa Em Bruxelas, os líderes europeus procuraram demonstrar unidade com Zelensky, com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, defendendo a manutenção da assistência à Ucrânia e das sanções contra Moscou, enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen anunciou que o bloco prepara seu 22º pacote de restrições contra a Rússia desde o início da guerra. Ofensiva: Ataques russos atingem ‘infraestruturas críticas’ e deixam 600 mil sem energia na Ucrânia Nos bastidores, porém, cresce o desgaste político em relação aos custos do conflito. Na Alemanha, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou uma vitória expressiva nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, defendendo o fim da assistência à Ucrânia e os laços com Moscou. Na França, Marine Le Pen, líder na disputa presidencial de 2027, diz que reduziria a ajuda a Kiev. As divergências também atingem o próprio orçamento europeu. O primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, afirmou nesta sexta que os Estados-membros estão “incrivelmente distantes” de um acordo sobre as contas do bloco. Ao mesmo tempo, os governos enfrentam pressões internas para conter os preços da energia e o custo de vida, que aumentaram desde o início da guerra contra o Irã.
Reservadamente, autoridades europeias admitem que talvez não consigam atender a todas as necessidades ucranianas.
— O inverno passado já foi um inferno — disse o primeiro-ministro estoniano, Kristen Michal, ao defender a continuidade do financiamento europeu à Ucrânia. — E este será novamente como um inferno.
(Com AFP)
O Globo