Em 1624, Christian IV, rei da Dinamarca, baixou um decreto estabelecendo as primeiras rotas fixas de correspondências da nação e criando a pedra fundamental do correio dinamarquês, um dos mais antigos do mundo. Em janeiro de 2026, aos 402 anos, a PostNord, companhia que hoje atende a Dinamarca e a Suécia, encerrou o serviço de correspondência no mercado dinamarquês, onde a troca de cartas já caiu mais de 90% desde 2000.
Não há previsão de mudança na Suécia. As 1 500 caixas de correio que ainda existiam na Dinamarca foram retiradas ao longo de 2025 e a responsabilidade pelas correspondências foi repassada a uma empresa privada, a Dao.
O braço dinamarquês da PostNord, por sua vez, que vem de anos de resultados no vermelho, parte agora para se dedicar exclusivamente à entrega de pacotes e outros serviços logísticos. USPS, o correio americano: para evitar a quebra, 15 bilhões de dólares emprestados pelo governoAllison Joyce/Bloomberg/Getty Images
O caso da Dinamarca é certamente o mais pitoresco, mas está longe de ser isolado. As histórias de operadoras postais nacionais com o modelo de negócios ruindo se replicam pelo mundo e repetem um enredo comum: a dificuldade em manter a missão de atender todo o território nacional em um século em que a sua grande fonte de renda — as cartas — passou a flertar com a extinção.
“De um lado, elas enfrentam o declínio nas receitas com as correspondências e, do outro, têm uma competição ferrenha de empresas privadas nas entregas do comércio eletrônico”, resume Mindaugas Cerpickis, sócio e responsável pela área de correios da Copenhagen Economics, consultoria sediada na Dinamarca.
Os concorrentes são gigantes globais como Amazon, FedEx ou Mercado Livre, no geral mais eficientes e com atuação apenas nos centros mais densos e lucrativos. “O subsídio cruzado que poderia ocorrer entre a atividade comercial e a obrigação universal acaba não sendo significativo”, adiciona Cerpickis.
Um relatório publicado em outubro pela União Postal Universal (UPU), braço das Nações Unidas que reúne os operadores de 190 países, dá uma dimensão do desafio. Em 2024, as receitas globais do setor tiveram o terceiro ano seguido de queda, algo que nunca tinha ocorrido desde 1997, quando começou a série.
Saíram de 606 bilhões de dólares, no pico de 2021, para 563 bilhões ao fim de 2024. Os números da UPU consideram apenas os resultados das chamadas operadoras universais, isto é, a empresa de cada país, estatal ou não, delegada a cumprir a cobertura nacional e cuidar das correspondências, uma grande categoria que inclui desde as cartas pessoais até boletos, documentos, anúncios, jornais ou revistas.
É um setor em que a maioria dessas empresas sempre teve o monopólio, mas que, nos anos recentes, passou a valer pouco. No conjunto desses países, o volume das correspondências recuou 34% em dez anos desde 2015 para 215 bilhões de unidades em 2024.
De outro lado, o crescimento de pacotes do comércio eletrônico explodiu, mas, nessa frente, não há o benefício da exclusividade, e as entregadoras de cartas acabaram ficando com um pedaço pequeno. Segundo a UPU, elas têm no mundo hoje 74% do mercado de mensageria, mas apenas 27% das encomendas.
“As operadoras designadas são dominantes onde o volume está desaparecendo e marginais onde ele cresce”, atesta a entidade. Continua após a publicidade
<span class="hidden">–</span>./. Os focos de crise são muitos e cruzam países desenvolvidos e emergentes.
A companhia pública espanhola só ficou no azul em dois dos últimos dez anos, e, na África do Sul, a estatal local entrou em recuperação judicial em 2023. Na Alemanha, a DHL, dona do Deutsche Post, privatizado nos anos 1990, anunciou no ano passado um corte de 8 000 dos 190 000 funcionários.
O Reino Unido, que privatizou a Royal Mail em 2013, conseguiu em 2025 o primeiro lucro em três anos após deixar as entregas de cartas aos fins de semana. E há os que tiveram a privatização frustrada, caso da Argentina, onde o presidente Javier Milei chegou a abrir o mercado à concorrência e cortar agências e funcionários do Correo Argentino para poder vendê-lo, mas o processo, por ora, segue emperrado.
Continua após a publicidade Central da Amazon: entregas crescentes para o comércio eletrônicoMichael Nagle/Bloomberg/Getty Images
Nos Estados Unidos, 2026 se encaminha para ser o vigésimo ano seguido de prejuízo da estatal US Postal Service (USPS). A companhia só não quebrou ainda porque recebeu 15 bilhões de dólares em empréstimos do Tesouro americano e porque, para pagá-los, suspendeu em junho as contribuições previdenciárias de seus pensionistas.
“Estamos basicamente pegando dinheiro emprestado dos nossos aposentados para financiar operações correntes”, disse o diretor-geral da USPS, David Steiner, em audiência no Congresso. “Ninguém está confortável com essa situação e é por isso que precisamos discutir como consertar esse modelo quebrado.”
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As grandes soluções, no geral, estão ainda sendo tateadas. A Comissão Europeia prepara uma completa reforma das leis que desde 1997 organizam os serviços postais do bloco.
A previsão é apresentar o projeto no início de 2027. Entre as principais mudanças em debate estão mais flexibilidade nos reajustes de preços, troca de entregas porta a porta por pontos de retirada e redução da chamada obrigação universal, isto é, a necessidade, nos termos das leis europeias, de manter o serviço funcionando em seis dos sete dias da semana.
Continua após a publicidade Agência de correio na África do Sul: crise em países desenvolvidos e emergentesLeon Sadiki/Bloomberg/Getty Images
Nos Estados Unidos, com a provedora à beira do colapso, a percepção dos especialistas é de que a discussão deve seguir a mesma direção. “Os serviços postais são uma infraestrutura pública cara, mas que acabava sendo paga pelo monopólio que tinham”, diz Elena Patel, que estuda os sistemas postais no Centro de Política Tributária do instituto de pesquisas Brookings, em Washington.
“Era um almoço grátis, mas que agora começa a ruir, e por isso se tornou inevitável discutir como financiá-los ou no que é possível reduzi-los para evitar custos maiores ao contribuinte.” As revisões podem ajudar a modernizar o negócio e dar um respiro às empresas. Daí em diante, cabe a cada uma diagnosticar as próprias ineficiências e melhorar as operações.
Continua após a publicidade Publicado em VEJA, outubro de 2026, edição VEJA Negócios nº 31
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