Crise climática e ambiental é ignorada nos planos de governo de quase todos candidatos ao Planalto, aponta Observatório

Crise climática e ambiental é ignorada nos planos de governo de quase todos candidatos ao Planalto, aponta Observatório - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Apesar das mortes de brasileiros por enchentes, deslizamentos e ventanias e da degradação do meio ambiente, a urgência climática e ambiental foi ignorada por quase todos os planos de governo dos principais candidatos à presidência. Dentre os seis candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, apenas Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresenta propostas robustas para o clima e meio ambiente, segundo relatório divulgado hoje pelo Observatório do Clima (OC).

'Ataque a sobrevivência: DiCaprio denuncia devastação e contaminação de rios pelo garimpo ilegal no Xingu Extremo: Imagens registram seca completa de trecho do Rio da Prata em quatro dias no MS No papel, o programa de governo do atual mandatário é considerado o mais “verde” pela instituição. O plano dedica um capítulo exclusivo ao meio ambiente e apresenta uma agenda consistente no campo, sendo o único a citar o Acordo de Paris, um tratado internacional sobre mudanças climáticas, adotado em 2015. Por outro lado, repete contradições criticadas por ambientalistas ao longo da última gestão, como o aumento de investimentos na exploração de petróleo. Dos planos analisados, apenas Flávio Bolsonaro (PL) não reconhece a emergência climática. Outros candidatos admitem o fenômeno mas trazem propostas vagas, sem metas climáticas ou metas de desmatamento. Desses, Ronaldo Caiado (PSD) tem o melhor desempenho segundo a OC, com propostas em adaptação, recuperação de áreas degradadas e combate a crimes ambientais. A avaliação partiu de oito eixos: mudanças climáticas, energia, desmatamento, proteção de povos e comunidades tradicionais, agronegócio sustentável, mineração e infraestrutura, governança ambiental e climática, oceano e zona costeira. — Desde a última eleição, a agenda de clima ficou mais evidente no país, principalmente depois das cheias no Rio Grande do Sul e da seca na Amazônia. Eventos como estes, que afetaram a vida de milhares de brasileiros, infelizmente tendem a se repetir. Assim, é lamentável ver como alguns candidatos simplesmente ignoram o assunto em seus planos de governo ou, pior, chegam até mesmo a negar a existência das mudanças climáticas — afirma Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.

Lula traz metas climáticas, mas exalta petróleo O plano de Lula deste ano defende, por um lado, o aumento da participação das fontes renováveis, a eletrificação do transporte público, a substituição progressiva dos combustíveis fósseis por biocombustíveis e a participação do Brasil no debate internacional sobre um mapa do caminho para longe dos combustíveis fósseis. Entretanto, exalta os recordes de produção de petróleo e gás. Quanto ao desmatamento, o petista promete zerar o desmatamento líquido até 2030. Apesar de avanços na agenda durante os 4 anos de mandato do petista, como a elaboração do Plano Clima, que passou a orientar a política climática brasileira com estratégias de mitigação e adaptação, a queda do desmatamento na Amazônia (de 12,7 km² em 2022 para 5,3 km² em 2025) e a redução de 32% do desmatamento no cerrado, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Lula derrapou, especialmente, no tema de energia, de acordo com o Observatório. Retrocessos No ano passado, a exploração de petróleo na Margem Equatorial foi autorizada, abrindo caminho para perfuração em alto-mar para descoberta de novas reservas de óleo e gás natural no litoral norte e nordeste. Na ocasião, o Observatório do Clima entrou na justiça e contestou o licenciamento do projeto, apontando que dados sobre hipóteses de vazamentos não foram devidamente analisados.

Também em 2025, a aprovação do novo Licenciamento Ambiental, com o objetivo de acelerar as autorizações para grandes obras, foi considerado um retrocesso histórico por entidades ambientalistas. Na época, houve críticas sobre falta de empenho do governo e suposta falta de interesse da Casa Civil em articular para barrar a proposta. Lula chegou a reverter os pontos mais polêmicos, mas o Congresso derrubou a maior parte dos vetos. Flávio Bolsonaro tem uma proposta positiva, e sete negativas, aponta OC Empatado com Lula na última pesquisa Quaest, Flávio Bolsonaro apresenta um plano que não reconhece a existência de uma crise climática e se alinha aos princípios que nortearam o governo do pai, Jair Bolsonaro (PL). Segundo a análise do OC, o seu plano de governo tem uma proposta positiva no tema (universalização do saneamento básico), contra sete negativas. Flávio pretende ampliar a infraestrutura de petróleo e gás, modernizar o refino, expandir o escoamento do gás do pré-sal, apostando no combustível fóssil para geração de energia.

Flávio traz ainda a possibilidade da exploração de óleo e gás em fontes não convencionais por meio da técnica conhecida como fraturamento hidráulico, ou fracking. O método é contestado por possíveis riscos para o meio ambiente, especialmente para os recursos hídricos. A possibilidade, impossibilidade ou condições deste tipo de exploração está em discussão no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Quanto ao combate ao desmatamento, o candidato pelo Patido Liberal promete zerar o desmatamento ilegal até 2029 e, na agricultura sustentável, propõe consolidar o Cadastro Ambiental Rural e articular o Plano Safra a incentivos à produção de biomassa. Não há menção, porém, de elementos relacionados à redução das emissões da agropecuária e de políticas específicas para a agricultura de baixo carbono. Outros candidatos trazem propostas vagas Já o plano de Augusto Cury (Avante),apesar de reconhecer as mudanças climáticas, não apresenta uma política estruturada de enfrentamento. Não há menção de metas para redução de emissões, neutralidade climática, justiça climática ou racismo ambiental.

Cury aposta em propostas de adaptação, como infraestrutura preparada para eventos extremos, drenagem e prevenção de enchentes nas comunidades, seguro rural e modelagem climática no “Projeto Floresta Viva”. Na matriz energética, o candidato quer colocar o país entre os três maiores exportadores de hidrogênio verde até 2035 e alcançar uma matriz energética 90% limpa até 2040. Renan Santos não traz políticas específicas para a crise climática e sequer menciona a agenda de clima. Também ficaram de fora a meta climática brasileira, o Acordo de Paris, a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) ou o Plano Clima.

O fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) afirma valorizar a matriz elétrica renovável e propõe ampliar a transmissão de energia, além de explorar o hidrogênio verde e retomar Angra 3, visando a energia nuclear. Apesar da vasta atuação junto à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), conhecida como “bancada do boi”, Ronaldo Caiado (PSD) reconhece que as mudanças climáticas provocam eventos extremos e perdas agrícolas e propõe medidas de adaptação e prevenção de desastres. O plano não contém propostas de redução de emissões. O candidato também propõe incentivar a produção de biocombustíveis e a eletrificação do transporte público, enquanto denomina o petróleo como "pilar da matriz" e o gás natural como "motor da indústria". Assim, aposta em combustíveis fósseis para geração de energia. Quanto a Romeu Zema (NOVO), apesar de reconhecer que o país é afetado por eventos extremos, não fica claro quais serão os meios de implementação de ações de monitoramento e resposta a desastres.

Zema propõe a atração de investimentos privados para infraestrutura de contenção e sistemas de monitoramento climático e resposta à desastres, mas não deixa claro como fará isto. O candidato ainda promete o combate à grilagem e o desmatamento ilegal, com integração de forças de segurança, órgãos ambientais e sistemas de justiça. Afirma também que haverá monitoramento por satélite, com punição dos infratores, mas não apresenta detalhes deste objetivo. Nenhum demonstra preocupação com o El Niño A partir da análise do Observatório do Clima, não foi identificado nenhum plano de governo específico para lidar com o fenômeno climático El Niño. Dentre os 28 temas destacados pelo relatório, apenas este tópico não é abordado por nenhum candidato. Emergência: Ministra britânica pede que população faça estoque de comida por causa do Super El Niño Os efeitos do fenômeno já são observados em alguns estados do país e deverá ser "muito forte" nos próximos meses, quase certo que dure até fevereiro, já alertou a agência climática das Nações Unidas neste mês. O fenômeno climático natural aumenta as temperaturas da superfície no Pacífico equatorial central e oriental, o que tem o poder de desencadear mudanças nos padrões de vento, pressão e chuva em todo o mundo.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo