247 – A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma revisão significativa das projeções de inflação do mercado financeiro para os próximos dois anos. Levantamento da corretora BGC Liquidez, realizado após o segundo turno das eleições presidenciais, mostra que analistas passaram a estimar uma alta de 5,3% nos preços em 2027 e de 4,3% em 2028, em meio a preocupações com a política fiscal, a valorização do dólar e a trajetória dos juros.
Segundo a Folha de São Paulo, as projeções constam em uma pesquisa realizada pela BGC Liquidez com aproximadamente 30 participantes do mercado financeiro, entre gestores de recursos e profissionais de tesourarias de bancos. Os resultados representam uma deterioração das expectativas em comparação com o último boletim Focus do Banco Central, elaborado antes da votação, que apontava inflação de 4,34% para 2027 e de 3,75% para 2028.
A revisão corresponde a uma elevação de 0,96 ponto percentual na estimativa para 2027 e de 0,55 ponto percentual para 2028. No primeiro caso, a projeção ultrapassa o limite superior da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
A pesquisa da BGC reúne profissionais que costumam atualizar suas projeções com maior rapidez diante de mudanças econômicas e políticas. Historicamente, seus resultados antecipam em cerca de duas semanas os movimentos registrados no boletim Focus, que consulta um universo mais amplo de instituições.
A próxima edição do levantamento do Banco Central está prevista para terça-feira (3). Segundo a corretora, 11% dos participantes da pesquisa realizada nesta semana projetam uma inflação superior a 6% em dezembro de 2027, indicando que parte dos analistas considera possível uma deterioração ainda mais acentuada do cenário de preços.
Dólar e política fiscal pressionam projeções O economista de inflação e commodities da BGC Liquidez, Carlos Thadeu, atribui a revisão das expectativas principalmente à percepção de ausência de uma âncora fiscal capaz de assegurar o controle das despesas públicas e à valorização do dólar após a eleição.
A moeda estadunidense passou de R$ 4,99, no encerramento da semana anterior à votação, para R$ 5,44 na sexta-feira (30). A alta do câmbio amplia os custos de produtos importados e de mercadorias cujos preços são influenciados pelo mercado internacional.
Na avaliação de Thadeu, parte das expectativas anteriores refletia a possibilidade de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), associada por participantes do mercado à perspectiva de contenção de despesas e redução mais rápida dos juros. “O mercado estava disposto a dar o benefício da dúvida para o Flávio Bolsonaro, com a expectativa de cortes de gastos e Selic [a taxa básica de juros] mais baixa.
Com a reeleição do Lula, essa precificação foi devolvida”, afirmou o economista. O especialista identifica os preços administrados como uma das principais fontes de pressão inflacionária para 2027.
Entre os itens mais sensíveis estão os combustíveis, especialmente gasolina e diesel, que podem sofrer reajustes em decorrência da desvalorização do real. “O preço dos combustíveis é dado no mercado internacional, e o Brasil importa 30% do seu diesel.
Sem os riscos fiscais, o câmbio de equilíbrio seria algo próximo de R$ 4,50, até abaixo disso”, avaliou Thadeu. Fim da escala 6×1 também entra nas projeções
Outro fator mencionado pelo economista é a aprovação do fim da escala de trabalho 6×1. Segundo ele, a alteração da jornada pode elevar a necessidade de contratação de trabalhadores e, consequentemente, os custos das empresas, com possíveis reflexos sobre os preços ao consumidor.
“Você mudar a escala 5×2 significa precisar de pelo menos 10% a mais de mão de obra”, estimou. Mercado vê necessidade de ajuste fiscal de R$ 250 bilhões
A trajetória das contas públicas aparece como uma das principais preocupações dos economistas consultados. Conforme levantamento citado pela Folha, o Brasil precisaria realizar um ajuste fiscal de pelo menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos para enfrentar o desequilíbrio das contas públicas.
A dívida bruta brasileira já se aproxima de 83% do Produto Interno Bruto (PIB), maior patamar registrado em cinco anos. Para 2026, o governo Lula prevê déficit de R$ 67,3 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB, resultado que contribui para a continuidade do crescimento do endividamento público.
Na avaliação de economistas ouvidos pelo jornal, seria necessário alcançar um resultado fiscal positivo entre 2% e 2,5% do PIB até 2030, sem depender de mecanismos extraordinários ou descontos contábeis para cumprir as metas. Os analistas, contudo, ainda não identificam uma sinalização suficientemente clara de que a política fiscal do próximo mandato caminhará nessa direção.
Essa incerteza contribui para a revisão das expectativas de inflação e para o aumento das taxas negociadas no mercado futuro de juros. Mercado reduz apostas em corte da Selic
A mudança no cenário econômico também alterou as projeções para a política monetária. Segundo Carlos Thadeu, investidores passaram a considerar pouco provável uma redução da taxa básica de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para quarta-feira (4).
Atualmente, a Selic está em 13,75% ao ano. Antes do segundo turno, a expectativa predominante era de que o Banco Central realizasse um corte de 0,5 ponto percentual, levando os juros a 13,25% até o encerramento de 2026.
Após o resultado eleitoral e a valorização do dólar, a curva de juros futuros passou a indicar maior probabilidade de manutenção da taxa no patamar atual. De acordo com o economista da BGC, os preços negociados no mercado atribuem agora apenas 20% de probabilidade a uma redução de 0,25 ponto percentual na próxima reunião.
Para 2027, o movimento é ainda mais expressivo: a curva de juros futuros já incorpora uma elevação acumulada de 1,5 ponto percentual na Selic, refletindo a preocupação dos investidores com a persistência das pressões inflacionárias.
Brasil 247