A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a ApexBrasil, comanda uma delegação de 36 empresas e cooperativas na Exposição Internacional de Importações da China, aberta na quinta-feira, 5 de novembro, em Xangai. A agência projeta fechar US$ 280 milhões em novos negócios até o encerramento do evento, na terça-feira, 10.
O pavilhão brasileiro ocupa o Centro Nacional de Exposições e Convenções, na maior feira do mundo dedicada exclusivamente à importação. A China criou o encontro em 2018 para abrir o mercado interno a fornecedores estrangeiros, e esta é a nona edição.
A lista de expositores mistura marcas pequenas e grupos consolidados do agronegócio. Vinícola Salton, ApisBrasil, CONAP, Cachaça Pernambucana, Bela Iaca e Açaí Super Fruta levam vinhos para restaurantes, mel, própolis, destilado artesanal e polpa de fruta ao mesmo espaço ocupado pela proteína animal.
A Associação Brasileira de Proteína Animal, a ABPA, e a Aurora Coop respondem pelos cortes suínos e avícolas com certificação sanitária. A União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária, a Unicafes, representa as cooperativas de menor porte que tentam entrar no comércio internacional.
O comércio bilateral sustenta o discurso da comitiva. Em 2025, a corrente entre Brasil e China somou US$ 171 bilhões, recorde histórico, e os chineses seguem como maiores parceiros comerciais do país desde 2009.
As vendas brasileiras ao mercado chinês chegaram a US$ 100 bilhões no ano passado. O saldo bilateral passou de US$ 29 bilhões.
O superávit na relação com a China dura 17 anos seguidos, e a base continua sendo o produto em bruto. A carne bovina rendeu US$ 8,8 bilhões aos exportadores brasileiros.
O café não torrado somou US$ 459 milhões. É grão verde, a mesma matéria-prima que a política de diversificação quer empacotar e vender com marca.
A montanha de dólares mostra o tamanho real da aposta em Xangai. Os US$ 280 milhões projetados equivalem a menos de três décimos por cento do que o Brasil vendeu à China em 2025, e o valor é expectativa de acordo, não contrato fechado.
Pedro Netto, gerente de Agronegócios da ApexBrasil, coordena a comitiva. Duas empresas de comércio exterior, a Atlântica e a DCDF Trading, completam a estrutura com logística global e intermediação financeira para os contratos que saírem dos estandes.
Para atrair o importador chinês, o estande aposta em demonstração ao vivo. Um robô chamado XBOT serve sorvete de açaí preparado na hora, em parceria da Açaí Amazonas com a Ecofood.
A rede de cafeterias Luckin Coffee ocupa o pavilhão com grãos brasileiros de origem única. A empresa prepara bebidas adaptadas ao paladar chinês, e o café entra na vitrine como produto de marca, não como saca anônima.
A ofensiva de alimentos processados tem lógica de mercado. Nas faixas de renda mais alta da China cresce a procura por origem controlada e rastreabilidade, e é nesse terreno que a agência aposta para avançar.
O problema que a feira tenta atacar é antigo. Soja, minério de ferro e petróleo ainda concentram a maior parte das exportações brasileiras à China e são justamente os itens mais expostos à queda de preço internacional.
A própria agência trata a dependência de commodities brutas como o modelo que a política de diversificação veio reduzir. A feira é o teste prático dessa promessa, com marcas de agricultura familiar dividindo o pavilhão com gigantes do agronegócio.
A lógica declarada é que produto com marca e embalagem carrega mais renda por quilo embarcado do que a matéria-prima bruta. Essa diferença fica no país na forma de emprego, indústria de alimentos e reputação de origem.
Vender marca muda a natureza do ganho. O preço deixa de ser formado apenas na cotação internacional da commodity e passa a depender de rótulo, certificação e posicionamento na gôndola chinesa.
O limite da operação está na conversão. O valor divulgado é projeção de negócios esperados, e não balanço de contratos assinados, e a distância entre intenção de compra registrada em estande e embarque efetivo costuma consumir meses de negociação.
Os primeiros embarques ligados a acordos fechados em Xangai devem aparecer nos dados de exportação dos próximos meses. A feira termina antes de qualquer balanço oficial, e a comparação com anos anteriores só será possível quando esses volumes entrarem nas estatísticas de comércio exterior.
O que a vitrine de Xangai entrega de concreto até terça-feira é a lista de acordos fechados em estande. É esse número, e não a projeção, que dirá se a pauta brasileira começou de fato a sair da tonelada bruta.
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