247 – O Programa Mundial de Alimentos (PMA), órgão vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), comunicou que enfrentará limitações financeiras e será forçado a cortar suas atividades de socorro na Faixa de Gaza, privando mensalmente meio milhão de palestinos do acesso à comida. A medida drástica atinge um cenário em que cerca de 1,4 milhão de habitantes — o equivalente a dois terços da população local — permanecem sob severa insegurança alimentar, enquanto 200 mil enfrentam emergência crítica, nível imediatamente anterior ao de fome generalizada. As reduções nas operações colocam em risco os progressos obtidos desde a assinatura do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, firmado há mais de um ano.
Em declarações concedidas nos escritórios da entidade em Beit Hanina, na porção oriental de Jerusalém, Shaun Hughes, diretor do PMA para os territórios palestinos, enfatizou o dilema enfrentado pela agência. “São decisões que precisamos tomar para garantir que nossos recursos durem o maior tempo possível”, disse à AFP. O dirigente complementou que “não é o momento de desviar o olhar do que acontece em Gaza”.
A severidade da crise humanitária no enclave persiste desde o início das ações militares israelenses, desencadeadas após as investidas do Hamas em 7 de outubro de 2023. Embora haja um acordo de trégua mediado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, as obras de reconstrução prometidas à população ainda não tiveram início, a oferta de postos de trabalho é mínima e a maioria expressiva dos moradores depende inteiramente do amparo internacional para sobreviver. Estatísticas da ONU indicam que a taxa de desemprego na região atingiu a marca de aproximadamente 80%.
Em agosto de 2025, o mecanismo internacional de Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC) declarou estado de fome em Gaza — veredicto contestado pelo governo de Israel, que o classificou como falso. Posteriormente, em dezembro daquele ano, a ONU retirou o enclave do status formal de fome generalizada em decorrência do aumento no fluxo de suprimentos e da trégua iniciada dois meses antes.
A partir desse abrandamento, o PMA expandiu sua cobertura assistencial para atender entre 1,5 milhão e 1,8 milhão de cidadãos por mês, alcançando 1,6 milhão de palestinos em 2026. No entanto, o volume de doações financeiras caiu mais da metade em relação ao patamar registrado em 2025, forçando o órgão a teto máximo de 1,1 milhão de beneficiários mensais desde outubro.
“Isso tem sido uma tábua de salvação. Mas agora, em vez de podermos manter e ampliar a ajuda, nos vemos obrigados a reduzi-la”, afirmou Hughes, acrescentando que a medida decorre exclusivamente da escassez de verbas, e não de bloqueios ao acesso logístico para a entrega dos mantimentos.
Além do encolhimento no contingente de pessoas assistidas, as cestas de alimentos entregues às famílias serão cortadas pela metade: cada grupo familiar receberá apenas uma unidade mensal em vez de duas, juntamente com uma porção reduzida de farinha de trigo. Nas cozinhas comunitárias, o total diário de refeições preparadas cairá de 250 mil para 150 mil. O repasse financeiro direto, voltado à compra de itens alimentícios por 75 mil famílias, passará de 1.250 shekels (R$ 2 mil) para 750 shekels (R$ 1,2 mil) a cada mês.
Sustentado por governos e doações do setor privado, o PMA sofreu forte retração de caixa com as medidas da administração Trump, que desmantelou estruturas da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e cortou repasses a órgãos da ONU e programas de auxílio bilateral. Paralelamente, outros países reduziram seus aportes humanitários devido a instabilidades econômicas internas e à elevação do custo de vida.
Para os próximos seis meses, a agência calcula a necessidade de obter quase US$ 450 milhões (aproximadamente R$ 2,2 bilhões) para manter ou reativar suas atividades na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Contudo, ao longo de 2026, a captação de recursos para os territórios palestinos atingiu apenas 50% do volume histórico. Em setembro, a entidade já havia cortado em 50% o público atendido na Cisjordânia, reduzindo de 400 mil para 200 mil o número de assistidos na região ocupada por Israel desde 1967.
A fragilidade da conjuntura foi reiterada por Hughes. Atualmente, cerca de dois terços dos habitantes de Gaza encontram-se na fase três da escala IPC (insegurança alimentar crítica), enquanto 200 mil vivenciam a fase quatro (emergência), na qual a intervenção imediata é indispensável para conter mortes por desnutrição.
“Esses avanços são muito frágeis, podem ser facilmente revertidos, e a situação continua brutal”, disse Hughes ao Guardian.
Mulheres e crianças figuram entre as parcelas mais afetadas. Pesquisa recente conduzida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revela que uma em cada oito crianças em Gaza sofre de desnutrição crônica ou apresenta déficit de crescimento, havendo o risco de sequelas permanentes em decorrência da privação prolongada de nutrientes.
Historicamente autossuficiente no cultivo de hortaliças e frutas, o território teve a maior parte de suas áreas agrícolas tomadas por forças de Israel, com estufas e sistemas de irrigação destruídos. A atividade pesqueira, outra importante fonte proteica, segue severamente limitada por restrições de navegação impostas pela Marinha israelense ao longo da costa.
“Precisamos investir na recuperação. Essa operação humanitária não é financeiramente viável nem sustentável no longo prazo”, disse Hughes. “No fim das contas, é isso também que todos em Gaza estão nos dizendo. Eles realmente não querem depender dessas distribuições de alimentos, não querem ficar na fila das refeições quentes todos os dias. Querem ter alguma possibilidade de estabilidade e recuperação”.
Brasil 247