Flávio Bolsonaro promete cortar 1,5% do PIB em gastos públicos se vencer o segundo turno de 25 de outubro. Uma análise publicada na terça-feira (20/10) pelo Project Syndicate calcula que o corte apagaria 2,7% do PIB já no primeiro ano, empurraria o país para a recessão e ainda por cima deixaria de resolver o problema da dívida pública, que depende dos juros altos e não do tamanho do Estado. O texto é de Laura Carvalho, professora de economia da Universidade de São Paulo e diretora de Prosperidade Econômica e Climática na Open Society Foundations, e de Joseph Stiglitz, Nobel de Economia em 2001, ex-economista-chefe do Banco Mundial e professor da Universidade Columbia. O Cafezinho reproduz a seguir o artigo na íntegra, em tradução livre da redação, com o link para o original em inglês no fim da página. O Brasil não pode pagar os cortes de gastos de Bolsonaro por Laura Carvalho e Joseph E. Stiglitz · Project Syndicate · 20 de outubro de 2026 · tradução livre do Cafezinho NOVA YORK — O Brasil enfrenta uma escolha dramática em 25 de outubro, quando o candidato da extrema direita Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se enfrentam no segundo turno da eleição presidencial. A economia pesa em qualquer eleição, e aqui os dois candidatos oferecem estratégias muito diferentes. Lula tem um histórico comprovado, e Flávio não; a proposta de Bolsonaro espelha a do pai, o desacreditado ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos de prisão por uma tentativa de golpe. O filho e sua equipe também disseram o suficiente na campanha para dar uma ideia clara de para onde o Brasil iria sob sua liderança. Como economistas que estudam o Brasil há muito tempo, podemos ser inequívocos: sob Bolsonaro, o desemprego será maior, o crescimento vai desacelerar, a pobreza vai aumentar e a classe média ficará em situação pior. Comecemos pela promessa de Bolsonaro de cortar os gastos públicos em 1,5% do PIB. A equipe dele diz que o Bolsa Família, o programa brasileiro de transferência de renda para famílias, permaneceria, mas não especificou o que seria cortado. Como o orçamento do país é dominado por aposentadorias, benefícios vinculados ao salário mínimo, saúde e educação, cortes dessa magnitude não poderiam poupá-los. O estrago não se limitaria a aposentados e beneficiários de programas sociais. Uma redução do gasto social equivalente a 1,5% do PIB provavelmente apagaria 2,7% do PIB no primeiro ano e 3,2% ao longo de dois anos, com base nas estimativas padrão dos multiplicadores fiscais. Isso bastaria para transformar uma desaceleração em recessão. Simulações de cortes muito menores mostraram que a perda de crescimento drena a arrecadação e abre uma espiral descendente de cortes cada vez mais fundos. Os primeiros a sentir o aperto seriam trabalhadores informais, vendedores ambulantes, motoristas de aplicativo e donos de pequenos negócios, cujas vendas dependem de clientes com dinheiro para gastar. Evidências da América do Sul mostram que ajustes fiscais baseados em corte de gastos reduziram historicamente a atividade econômica e ampliaram a desigualdade. Os cortes tampouco resolveriam o problema da dívida do Brasil. Cerca de 53% da dívida pública é corrigida pela taxa básica de juros, a Selic, e os juros altos do país devem muito mais às metas de inflação, a um mercado financeiro disfuncional e à volatilidade cambial do que ao gasto público. O déficit primário (gastos fora os juros, menos a arrecadação) está perto de zero. Bolsonaro parece acreditar que os juros vão cair magicamente e de forma dramática sem que ele enfrente os fatores que os sustentam. Mesmo que a Selic caísse a 9%, o que consideramos improvável com Bolsonaro, a dívida continuaria a subir apesar de superávits primários anuais de 3% do PIB. Os cortes de impostos propostos por Bolsonaro agravam esses problemas. Num país marcado pela desigualdade extrema, onde quem está no topo paga uma fatia menor da própria renda em impostos, as propostas poderiam travar o crescimento de longo prazo e ainda piorar as contas públicas no curto prazo. Bolsonaro parece não se dar conta das consequências macroeconômicas das próprias políticas e, como o presidente da Argentina, Javier Milei, não se importa em corrigir as injustiças tributárias existentes. O dano provável à economia brasileira e a pouca chance de as políticas de Bolsonaro reduzirem o déficit, que pode até crescer se a recessão que elas provocam for severa o bastante, não impediram os mercados de comemorar a vitória dele no primeiro turno. No primeiro pregão depois da votação, o Ibovespa saltou 7,7% e fechou em recorde. Um rali de bolsa, porém, não é o mesmo que uma economia em crescimento, e pode se desfazer depressa numa recessão ou numa crise institucional, o risco que os investidores estrangeiros mais temem. Mas outro futuro é possível. Há três anos, o mercado projetava para a economia brasileira crescimento de pouco mais de 1% ao ano. O PIB cresceu 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024. A inflação, que chegou ao pico de 12,1% em abril de 2022, caiu para 4,22% em agosto. O desemprego recuou a 5,3% em 2026, enquanto a pobreza e a pobreza extrema atingiram os menores níveis já registrados. Até a bolsa de valores foi bem, com alta de cerca de 70% desde janeiro de 2023. Esses números refletem o sucesso das políticas econômicas de Lula. O novo Bolsa Família tirou da pobreza e da miséria cerca de 6,5 milhões de pessoas. Os aumentos reais do salário mínimo, associados a uma fatia maior dos salários na renda nacional, elevaram a renda de trabalhadores e aposentados. A reforma tributária progressiva isentou do imposto de renda as famílias de baixa e média renda e elevou a alíquota mínima para os rendimentos mais altos, ajudando a reduzir a concentração de renda no topo. Ainda assim, os déficits primários encolheram para quase zero. E a inflação teria caído ainda mais não fossem as guerras imprudentes da Rússia e do governo Trump. Ainda há muito por fazer. Não será fácil, mas o Brasil pode abrir espaço fiscal eliminando deduções tributárias que beneficiam sobretudo os 10% mais ricos, contendo as emendas parlamentares e elevando o imposto mínimo efetivo sobre os super-ricos. Esse espaço fiscal deve financiar investimento estratégico em transporte público, moradia e infraestrutura do cuidado. Esses investimentos barateariam a vida cotidiana ao reduzir o custo do deslocamento e da creche, enquanto juros menores reduziriam o custo do crédito para famílias e empreendedores. Nos últimos quatro anos, o Brasil mostrou que crescimento e justiça podem avançar juntos. A escolha que os eleitores enfrentam em 25 de outubro é entre construir sobre esse progresso ou reverter. Texto original em inglês: Brazil Cannot Afford Bolsonaro’s Spending Cuts, por Laura Carvalho e Joseph E. Stiglitz, Project Syndicate
Cortes de gastos de Flávio Bolsonaro empurrariam o Brasil para a recessão
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