Coronelismo em tempos de extrema-direita

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

A liberdade do voto passa a depender também da proteção contra a dispensa discriminatória e da regulação das plataformas Em Coronelismo, Enxada e Voto, de 1949, Victor Nunes Leal demonstrou que o coronelismo não decorria apenas do poder dos grandes proprietários rurais, mas de um sistema de compromissos entre o poder privado dos chefes locais, já em declínio, e um poder público em expansão, mas que dependia destes para obter legitimidade.

Sustentado pela concentração fundiária e pela dependência econômica de boa parte da população, esse sistema permitia às elites converter o controle da sobrevivência dos trabalhadores em dominação política, materializada no voto de cabresto. A resposta institucional veio com o Código Eleitoral de 1932, que instituiu o voto secreto.

Quase um século depois, a dependência econômica segue servindo à coerção eleitoral. O Ministério Público do Trabalho recebeu 212 denúncias de assédio eleitoral em 2018 e 2.749 em 2022, aumento de 1.197%.

Em 2026, em números ainda parciais, foram 3.396, alta de 23,5%, das quais 1.459, ou 43%, foram registradas após o resultado do segundo turno. O assédio, que antes buscava garantir o voto, pela oferta de benefícios, antes das eleições, agora ameaça punir o voto dado aos adversários.

Chama atenção a participação de agentes públicos nesse processo. Em áudio revelado pelo ICL Notícias, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, incentiva servidores comissionados a adesivar veículos e mobilizar eleitores para ato de Flávio Bolsonaro na Paulista.

Relatos feitos ao MPT citam ameaças de perda de cargos e recolhimento de celulares. Em 23 de outubro, uma liminar da Justiça do Trabalho proibiu a prefeitura de pressionar servidores e terceirizados, sob multa diária de 50 mil reais.

Para quem depende da renovação de um contrato, não tem vínculo estável ou ocupa cargo de livre nomeação, o apoio pedido por um superior dificilmente é tão livre quanto o de quem não arrisca perder de imediato sua renda. Derrotado, Flávio Bolsonaro disse ser impossível reconhecer o resultado e anunciou que pediria a anulação do pleito.

Nesse ambiente, circularam campanhas para que empresários identificassem e demitissem empregados eleitores de Lula. Índia Armelau (PL), deputada estadual mais votada do Rio, publicou no Instagram: “Empresário, olha a rede social do teu funcionário aí e confere se ele fez ‘L’”.

No Paraná, Jessica Ramos Moreno (PL), deputada estadual eleita foi mais direta: “Tem um funcionário que é petista? DEMITA!”. Surgiram também listas de apoiadores de Lula a boicotar; em Cruzeiro do Sul (AC), uma delas, com papelarias, bares, restaurantes e profissionais de saúde, motivou representação do Ministério Público Federal.

Ainda na campanha, circulou em grupos da comunidade judaica uma “Lista de judias e judeus para não se fazer negócios ou contratá-los”, com os 1.306 signatários de um manifesto pró-Lula. A dimensão digital dessas iniciativas levou o MPT a ajuizar, em 29 de outubro, ação civil pública contra a Meta (Instagram e Facebook), pedindo a remoção de publicações discriminatórias e 50 milhões de reais por danos morais coletivos.

Segundo os procuradores, quatro publicações de um único perfil, com 3,8 milhões de seguidores, somavam mais de dois milhões de curtidas. Como o voto é secreto, puni-lo exige descobri-lo, e a vigilância das redes passou a cumprir a função que, na Primeira República, cabia aos olhos do coronel e de seus cabos eleitorais.

Esses fatos exigem também rever o uso do conceito de polarização, invocado para explicar qualquer conflito. Posições divergentes não implicam comportamentos equivalentes.

Parte da imprensa comercial alimenta a confusão ao atribuir listas de boicote e ameaças de demissão a uma polarização que persistiria após o pleito. Equipara, assim, o boicote defendido por setores progressistas a empresas e empresários condenados ou denunciados por trabalho escravo, mão de obra infantil ou danos ambientais ao boicote a empresas e profissionais liberais e à demissão de eleitores de Lula, defendidos por bolsonaristas.

A busca de equilíbrio entre posições antagônicas produz falsa simetria, que relega circunstâncias, motivações e consequências a segundo plano. A objetividade jornalística não depende de dividir responsabilidades proporcionalmente entre grupos políticos, mas de investigar os fatos com rigor e identificar os direitos eventualmente violados.

A comparação ignora a variável que Leal ensinou a observar: quem depende de quem. Recusar produtos de empresas denunciadas por trabalho análogo à escravidão, danos ambientais ou maus-tratos a animais difere, em seus fundamentos, de campanhas para prejudicar estabelecimentos e profissionais por seu voto.

Mesmo o boicote a grandes empresários por suas posições políticas é exercido por consumidores contra quem detém poder econômico. A demissão pelo voto faz o caminho inverso: quem controla a fonte de renda pune quem dela depende, e a lista que expõe uma papelaria atinge quem não pode absorver o prejuízo.

Leal segue relevante para compreender os limites de uma democracia marcada por profundas desigualdades sociais. José Murilo de Carvalho advertiu que o coronelismo foi um sistema datado, restrito à Primeira República, e que o termo não deve abarcar qualquer forma de mandonismo ou clientelismo.

A ressalva procede: as práticas atuais não reproduzem aquele sistema, mas revelam a persistência de mecanismos que convertem dependência econômica em subordinação política. Se o voto secreto respondeu ao cabresto, a punição pós-eleitoral o contorna pela exposição nas redes e pela precariedade dos vínculos de trabalho.

A liberdade do voto passa a depender também da proteção contra a dispensa discriminatória e da regulação das plataformas, temas raramente vistos como parte do sistema eleitoral. Quando o emprego, os contratos e a sobrevivência de uma atividade econômica ficam condicionados à preferência política, a igualdade formal do voto convive com formas de dominação que o País conhece há muito tempo.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital. Thiago Esteves Professor Titular de Sociologia da Universidade Federal de Ciência e Inovação do Rio de Janeiro (UFCI/RJ).

Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) e do Mestrado Profissional em Sociologia (ProfSocio) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo.

Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global. Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Publicação Original Carta Capital cartacapital.com.br
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