Uma rede de contrabando leva memória de alta largura de banda da Coreia do Sul para a China montada em pacotes de processadores de servidor, uma rota que dribla o controle de exportações dos Estados Unidos. A Huawei avisou clientes que boa parte da memória de seu próximo chip de inteligência artificial, o Ascend 960DT, virá da Samsung Electronics e da SK Hynix, segundo o portal Finance.
A reportagem é do site americano The Information, publicada na segunda-feira, 2 de novembro de 2026. O truque está na classificação aduaneira.
A memória exportada sozinha é barrada pelas regras americanas, mas o pacote com processador de servidor entra na China declarado como processador. As regras dos EUA calculam o poder de computação do conjunto pelo processador, não pela memória.
Os EUA restringem a venda de chips e de memória de alta performance para empresas chinesas desde 2020. As regras foram apertadas nos anos seguintes e atingem diretamente a Huawei.
O calor que abre o caminho Dentro da China, os pacotes são desmontados.
Técnicos aquecem a solda, destacam a pilha de memória e descartam o processador de servidor. A operação é delicada e tem taxa de falha alta.
Calor rápido demais ou tempo longo demais empena ou trinca a memória. O risco compensa porque a margem é grande.
A HBM obtida assim é vendida principalmente para clientes da Huawei. A empresa chinesa informou parte dos compradores que o Ascend 960DT terá desempenho duas vezes maior que os produtos atuais e será um dos processadores mais poderosos que a China consegue fabricar sozinha.
A afirmação é da Huawei, não uma medição independente. O gargalo que virou mercado paralelo
Sem a memória, o chip de IA mais avançado não funciona. A HBM transmite dados em altíssima velocidade e permite ao processador treinar e rodar modelos grandes.
A HBM é um tipo de memória empilhada que fica ao lado do processador. A velocidade é muito maior que a da memória comum.
Treinar modelos de inteligência artificial exige combinar essa memória com processadores potentes, como os da Nvidia. A Samsung e a SK Hynix detêm mais de 80% desse mercado.
A produção chinesa do componente é muito pequena. A Huawei também orientou clientes que encomendaram seus chips de IA a comprar a memória por conta própria.
Gigantes tecnológicas chinesas passaram a depender da HBM sul-coreana para tocar projetos de inteligência artificial. As empresas chinesas de inteligência artificial DeepSeek e Moonshot enfrentam limite para treinar e implantar modelos de larga escala sem memória suficiente.
A Huawei tenta manter a produção de chips de IA mesmo sem acesso direto à memória sul-coreana. O Ascend 960DT é apresentado como a aposta da empresa para atender clientes que treinam modelos como o DeepSeek.
O preço alimenta o contrabando. Um corretor chinês disse ao The Information que uma única HBM3E era negociada na China por algumas centenas de dólares há um ano.
Agora sai por cerca de US$ 4.000, o equivalente a mais de R$ 20 mil. Um pacote de chip de IA precisa de seis a oito unidades.
Só de memória, o custo sobe de US$ 24 mil a US$ 32 mil por pacote, sem contar o processador, os servidores e a energia. O cálculo ajuda a explicar por que o contrabando cresce.
A diferença entre o preço de um ano atrás e o de agora sustenta a operação. O risco que chega à porta das fabricantes
O esquema é um problema para Samsung e SK Hynix. Se chips de IA chineses com memória das duas forem descobertos, as empresas podem cair na mira do governo americano.
Em 2024, a fabricante taiwanesa TSMC foi investigada depois que chips seus apareceram em produtos da Huawei. Os EUA ordenaram então que a TSMC interrompesse todas as exportações de chips de IA para a China.
A SK Hynix disse que cumpre rigorosamente as leis e os regulamentos aplicáveis, incluindo as regras de controle de exportação dos EUA e da Coreia do Sul. A empresa afirmou que não fornece produtos à Huawei desde que as restrições americanas entraram em vigor, em 2020.
O controle de exportações americano, desenhado para estrangular o acesso chinês à memória de alta performance, não fechou a porta. Criou uma rota clandestina que aquece solda, destaca memória e transforma processadores de servidor em fachada.
A HBM que deveria faltar na China chega por pacotes declarados como outra coisa. O mercado paralelo movimenta milhares de dólares por pacote e envolve as duas maiores fabricantes do setor.
O contrabando obriga Washington a escolher entre apertar a fiscalização ou aceitar que a cadeia de suprimentos aprendeu a contornar o papel.
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