Condenado à morte aos 16 anos por um assassinato, o americano Gary Tyler sempre afirmou ser inocente, mas passou mais de quatro décadas atrás das grades até ser libertado aos 58. Hoje, aos 68, o artista têxtil transforma a experiência vivida na prisão em obras que retratam pessoas encarceradas e acaba de ganhar sua primeira exposição individual no Grand Rapids Art Museum, em Michigan, nos Estados Unidos. Ela foi batizada de "Gary Tyler: Rebirth" ("Gary Tyler: Renascimento") e fica em cartaz até 3 de janeiro. Uma de suas colchas, inclusive, foi adquirida pelo complexo de museus Smithsonian. Ele também lançou um livro sobre a sua história.
Veja também: Personalidades defendem Sally Rooney após veto à distribuição de seus livros no Reino Unido por apoio a grupo pró-Palestina E mais: Irmã de Lua Blanco, de 'Rebelde', revela como foi último dia de vida da atriz: 'Fazia piadas e caretas' Segundo informações publicadas reportagem do site NPR, a história de Tyler começou em 1974, quando ele era um adolescente que vivia na Louisiana. Em uma manhã de aula, vestiu uma camisa justa, um suéter, luvas sem dedos e uma bandana. Naquele mesmo dia, um adolescente branco de 13 anos foi morto a tiros durante episódios de violência relacionados à integração racial nas escolas. Tyler foi colocado em um carro da polícia após uma discussão e, pouco depois, acabou preso e acusado pelo assassinato. Um mês depois, seu irmão fotografou Tyler ainda usando as mesmas roupas do dia em que foi detido. A imagem acabou servindo de inspiração para uma de suas colchas.
— Você está olhando para a inocência de um jovem, de um adolescente, que não sabe o que definitivamente o espera — disse o artista ao relembrar a fotografia. Gary Tyler com um de suas colchas Divulgação / Robin Fong O processo foi marcado por problemas. Tyler recebeu uma defesa considerada incompetente, enquanto quatro amigos testemunharam contra ele e posteriormente retiraram seus depoimentos. Um juiz orientou um júri formado exclusivamente por pessoas brancas a considerar que o adolescente tinha intenção de matar várias pessoas. Tyler foi condenado à morte e se tornou, à época, a pessoa mais jovem no corredor da morte dos Estados Unidos.
Segundo a Anistia Internacional, Gary Tyler foi acusado do tiroteio com base principalmente no depoimento de um estudante e na suposta arma do crime que a polícia encontrou no assento onde ele estava sentado no ônibus, depois de não conseguir encontrar a arma durante uma busca anterior. Enviado para a Penitenciária Estadual da Louisiana, conhecida como Angola, Tyler passou parte do período em uma forma de confinamento solitário. Enquanto estava preso, testemunhou a morte de outros detentos e, no fim dos anos 1980, ajudou a criar um programa de cuidados paliativos para homens com doenças terminais. Para arrecadar dinheiro para os cuidados e os funerais, os presos começaram a produzir e vender colchas. Foi assim que Tyler aprendeu a técnica. Gary Tyler em seu estúdio de trabalho Divulgação / Robin Fong Uma de suas primeiras obras, The Tree of Life, arrecadou US$ 30 mil em um sorteio realizado durante o rodeio da prisão de Angola. A peça, que reúne nomes e representações de pessoas, hoje faz parte do acervo de um museu da Louisiana. O trabalho também ajudou a transformar uma atividade criada para financiar o programa de cuidados paliativos em uma forma de expressão artística para Tyler. Durante décadas, Tyler tentou obter sua liberdade. O Conselho de Perdões e o Comitê de Liberdade Condicional da Louisiana recomendaram que ele fosse perdoado três vezes, mas os governadores do estado rejeitaram os pedidos. Em 2016, uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que estados deveriam rever as sentenças de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional aplicadas a pessoas que eram menores de idade quando cometeram os crimes. Algumas das colchas de Gary Tyler em exposição coletiva no ano passado Reprodução / Instagram Com base na decisão, o promotor do condado de St. Charles propôs que Tyler fosse novamente sentenciado, desta vez por homicídio culposo. Desesperado para deixar Angola, ele aceitou o acordo e foi libertado pouco depois. Para o artista, porém, a saída não apagou a injustiça que marcou sua vida.
— O sistema é administrado de maneira injusta, especialmente para pessoas negras e pobres nos Estados Unidos. Existem maneiras melhores de julgar ou punir uma pessoa na prisão de forma humana — afirmou. Uma das colchas de Gary Tyler Reprodução / Instagram Depois de recuperar a liberdade, Tyler passou a usar sua arte para homenagear os homens e mulheres que conheceu atrás das grades. Suas colchas incluem retratos de pessoas como Sandra Stall, Trinidad, Big Toe, Mary e Bertha. Apenas Mary e Bertha foram libertadas.
— Essa é a minha maneira de demonstrar apoio moral e espiritual — explicou. Agora, a trajetória do artista é apresentada em Gary Tyler: Rebirth, sua primeira exposição individual. A mostra está em cartaz no Grand Rapids Art Museum, em Michigan, e reúne trabalhos que refletem tanto a experiência do encarceramento quanto a busca por esperança e reconstrução. A exposição ficará aberta ao público até 3 de janeiro.
O Globo