Como a IA pode ajudar a supervisão bancária

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Fonte da notícia: Valor Valor

As análises pós-colapso do Silicon Valley Bank (SVB) levaram a uma nova reflexão sobre como os bancos americanos devem ser supervisionados, visando reduzir o risco de quebras semelhantes. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) divulgou, neste mês, planos para uma reformulação do sistema de supervisão dos EUA.

Michelle Bowman, vice-presidente de supervisão do Fed, merece reconhecimento por investigar a fundo as causas da queda do SVB e de outros bancos regionais, ao solicitar uma revisão independente. A turbulência poderia, potencialmente, ter evoluído para uma crise de proporções muito maiores.

O ponto central das conclusões dessa revisão é que os supervisores já tinham conhecimento de diversos problemas desde 2022 - especificamente, que o SVB e outros bancos estavam expostos a um risco significativo de variação nas taxas de juros e possuíam uma parcela substancial de depositantes sem cobertura de seguro.

Isso significava que uma elevação nas taxas de juros reduziria o valor dos ativos bancários, aumentando o risco de uma corrida bancária. Contudo, os supervisores do Fed não adotaram medidas corretivas suficientes, e os riscos mostraram-se, de fato, reais.

Portanto, o colapso de 2023 não decorreu tanto de uma falta de informações, mas sim de uma questão de vontade e coragem, por parte da supervisão, para tomar decisões difíceis. A supervisão constitui uma linha de defesa fundamental - ao lado do capital - na regulação de instituições financeiras que captam depósitos e operam com alta alavancagem.

No entanto, nas últimas décadas, o foco tem recaído, majoritariamente, sobre as normas de capital, a exemplo dos padrões globais conhecidos como Basileia III. As mudanças planejadas por Bowman concentram-se em definir com maior clareza as linhas de responsabilidade e em garantir que o Fed direcione sua atenção para riscos materiais relevantes.

A proposta defende o fornecimento de ferramentas aos supervisores que lhes permitam identificar problemas com maior antecedência. Propõe-se, também, reduzir as camadas de diversos comitês de supervisão e adotar uma estrutura com cinco líderes regionais de supervisão, o que poderia agilizar a tomada de decisões em casos que envolvam incertezas.

Paralelamente, dois outros órgãos reguladores - o Escritório do Controlador de Moeda (OCC) e a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) - propuseram facilitar o compartilhamento, por parte dos bancos, de determinadas informações de supervisão. Tal divulgação pode proporcionar uma disciplina adicional quanto ao momento de agir.

Uma leitura rápida do relatório atual pode sugerir que ele contradiz a análise anterior do Fed realizada em 2023. Afinal, o relatório atual aponta a complexidade regulatória como um dos fatores para a lentidão da supervisão durante a corrida bancária ao SVB, enquanto a análise anterior enfatizava requisitos regulatórios mais brandos e um ônus da prova mais elevado para a adoção de medidas de supervisão mais rigorosas.

Ambos os relatórios, contudo, concordam que os supervisores demoraram demais para agir em relação ao SVB. Além disso, ambos identificam uma questão mais fundamental: a presença de vieses culturais e incentivos que favorecem a inação.

A supervisão envolve, por natureza, a tomada de decisões em cenários de incerteza, com base em informações coletadas por examinadores durante inspeções bancárias e na análise de dados como demonstrações de resultados e balanços patrimoniais. Como nenhuma informação é perfeita, os supervisores precisam decidir entre agir ou aguardar.

Contudo, os resultados dessas escolhas são assimétricos. Por um lado, se os supervisores agirem e se mostrarem equivocados, podem arcar com custos pessoais significativos e tornar-se alvo de críticas por parte de políticos e da administração dos bancos.

Por outro lado, se optarem por aguardar, o problema ou risco que os preocupa pode acabar desaparecendo. Também é possível que o problema só surja muito mais tarde, momento em que a atribuição de responsabilidades se torna mais complexa.

Essa assimetria gera um viés em favor da tolerância excessiva ou da inação; o estigma e o prejuízo à carreira decorrentes de uma falha são, simplesmente, elevados demais. Embora o relatório de Bowman reconheça, em certa medida, a existência desse problema, as reformas propostas não o abordam diretamente.

Algumas mudanças adicionais poderiam ser úteis. A inteligência artificial (IA) poderia ser empregada para alterar o cenário padrão, tornando a inação mais evidente.

A tecnologia não deveria substituir o valioso julgamento dos supervisores, mas poderia analisar todas as informações coletadas pela equipe de supervisão e sinalizar eventuais deteriorações significativas nos riscos. Caso os supervisores optem por aguardar, teriam, então, a obrigação de justificar sua decisão.

Isso tornaria a inação uma decisão pela qual alguém teria de responder. Também seria necessária uma mudança cultural.

Se o Fed deseja que os supervisores tenham firmeza para agir, ele precisa estar disposto a aceitar que, por vezes, alguns cometerão erros. Os supervisores que tomarem decisões razoáveis devem ser protegidos.

À medida que entramos em uma era em que bancos e outras instituições utilizam a IA para descobrir formas de contornar a regulação, é hora de os órgãos de supervisão também adotarem a IA, fortalecendo a disposição de supervisores e reguladores para agir. Amit Seru é professor de finanças na Stanford Graduate School of Business e pesquisador sênior na Hoover Institution

Publicação Original Valor valor.globo.com
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