A expansão dos investimentos em inteligência artificial está impulsionando o comércio internacional e ampliando a demanda por produtos tecnológicos, como semicondutores e servidores. A Organização Mundial do Comércio (OMC) elevou de 1,9% para 3,9% a projeção de crescimento do volume global de mercadorias em 2026. Nesse cenário, a capacidade de organizar cadeias de suprimentos, controlar custos e antecipar riscos logísticos ganha importância para a competitividade das empresas.
No primeiro semestre de 2026, produtos relacionados à inteligência artificial responderam por 47% do crescimento do comércio mundial em valor, com avanço de 67% nas transações desses bens em comparação com o mesmo período de 2025, segundo os dados citados no levantamento da OMC.
Para Luiz Policarpo, fundador e CEO da Einship, empresa brasileira de tecnologia especializada em inteligência de dados e gestão de operações de comércio exterior, o movimento transforma tanto a demanda por mercadorias quanto a maneira como as empresas precisam administrar suas operações internacionais.
“Não basta existir uma oportunidade de importação ou exportação. As empresas precisam identificar onde estão os melhores fornecedores, quais rotas oferecem maior confiabilidade, como os custos estão se comportando e quais riscos podem comprometer a operação”, afirmou o executivo.
Apesar do crescimento, os benefícios da expansão do comércio de produtos associados à inteligência artificial estão distribuídos de forma desigual entre os países. Segundo os dados apresentados no material, as dez maiores economias participantes desse segmento concentraram, em 2025, aproximadamente 85% das exportações e 80% das importações mundiais desses produtos.
A concentração da produção tecnológica, especialmente na Ásia, representa um desafio para países como o Brasil. Além de buscar oportunidades para integrar cadeias internacionais de maior valor agregado, as empresas brasileiras precisam acompanhar os efeitos da demanda global sobre preços, disponibilidade de mercadorias, transporte e prazos de entrega.
Na avaliação de Policarpo, importadores devem considerar os riscos de fornecimento e a diversificação de fornecedores, enquanto exportadores precisam acompanhar as mudanças na demanda internacional para identificar novos mercados.
“O Brasil não precisa necessariamente ser um grande fabricante de semicondutores para sentir os efeitos desse ciclo. Quando investimentos bilionários alteram a demanda global por equipamentos e componentes, eles também modificam fluxos comerciais, disponibilidade de transporte e estratégias de abastecimento”, explica.
Decisões logísticas A fragmentação das informações é um dos obstáculos à eficiência do comércio exterior. Dados sobre fornecedores, preços internacionais, fretes e andamento de embarques frequentemente ficam distribuídos entre diferentes sistemas, planilhas e prestadores de serviços, dificultando a avaliação dos custos totais e a resposta a mudanças no mercado.
Nesse contexto, a inteligência artificial pode ajudar a integrar informações comerciais e logísticas, permitindo comparar fornecedores, avaliar riscos operacionais, identificar variações nos custos de transporte e planejar compras e embarques com maior previsibilidade.
À frente da Einship, que desenvolve uma plataforma baseada em inteligência artificial para integrar análise de mercado e gestão operacional, Policarpo avalia que a tecnologia representa uma nova etapa na digitalização do comércio exterior.
“Durante muito tempo, digitalizar o comércio exterior significou substituir processos manuais por sistemas. Esse avanço foi importante, mas não resolveu um problema central: as informações continuam fragmentadas e muitas decisões são tomadas sem uma visão completa da operação”, afirma.
Segundo o executivo, a tecnologia pode transformar dados operacionais em informações estratégicas para apoiar decisões, sem substituir a avaliação humana.
Logística A capacidade de reorganizar cadeias de suprimentos também é relevante diante de conflitos e interrupções nas rotas comerciais. Conforme os dados citados no material, a movimentação global de contêineres cresceu 3,9% no acumulado até julho de 2026, apesar das interrupções provocadas pelo conflito no Oriente Médio.
Para Policarpo, o cenário reforça a necessidade de avaliar a eficiência logística para além do preço do frete. A análise de custos, prazos, riscos e alternativas de transporte pode ajudar as empresas a reduzir impactos de imprevistos e proteger suas margens.
“O comércio internacional está entrando em uma fase na qual crescimento e imprevisibilidade caminham juntos. A IA pode ampliar a demanda global, mas isso não significa que todas as empresas conseguirão capturar essas oportunidades. A diferença estará na capacidade de transformar informação em planejamento e planejamento em execução”, conclui.
Folha de Pernambuco