Com trégua à mesa em 'pacto de não agressão', cansaço e posições consolidadas reduzem brigas em famílias 'rachadas'

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A família da pesquisadora Maynara Sales tem o hábito de se sentar à mesa para jantar com a TV ligada. As notícias do Jornal Nacional, da TV Globo, sempre serviram de pano de fundo ou tema para conversas familiares, até que, em 2018, detonaram uma espécie de “chá revelação”: os pais eram de direita, e as filhas, de esquerda. A reunião cotidiana virou “um caos”, conta Maynara, que certa vez chegou a deixar a sala chorando para se trancar no quarto. Os embates se repetiram em 2022. Agora, num momento em que os dois grupos políticos mais proeminentes do país voltam a protagonizar uma disputa polarizada nas urnas, os Sales “cansaram” de brigar. A paz — ou quase isso — voltou a reinar no lar da família, em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio. Ainda indeciso para governador e senador? Faça o teste do GLOBO com candidatos de Rio, São Paulo e Minas Onde votar nas eleições 2026: veja como consultar local de votação no TSE — São vários anos de confusão, de clima ruim dentro de casa. O pai às vezes ainda fala alguma coisa, e eu ignoro. Sei que eu não vou mudar a cabeça dele, e ele não vai mudar a minha — diz a pesquisadora. A família é uma das várias que adotaram, nas eleições deste ano, uma espécie de “pacto de não agressão”. Por cansaço, descrença na política ou mesmo por um acordo voltado à preservação dos vínculos, parentes têm priorizado a boa convivência e desviado de assuntos relacionados à política, para evitar brigas como as dos pleitos passados. A gota d’água, para Maynara, foram as revelações do escândalo do Banco Master, que envolvem figuras de diferentes espectros da política nacional: — A gente entendeu que fica brigando, desfazendo laços que são importantes para o nosso desenvolvimento, enquanto boa parte deles, os políticos, estão lá com o Daniel Vorcaro. Não vale o desgaste.

Veto do ‘Moraes’ do clã O pai, o administrador Fredymark Sales, concorda que o convívio familiar hoje é melhor, apesar da divergência de ideais. A cólera e os “lapsos de desrespeito” deram lugar a um clima mais saudável, ele conta. Pais e filhas seguem em lados opostos, desta vez em uma “batalha de rejeições”: votam em Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) para barrar o antagonista. Cada um com suas escolhas. Verão a apuração juntos? Também não é para tanto. — Não queria que minhas filhas tivessem essa vertente política, mas elas têm o direito de fazer escolhas. Houve também um processo de empatia e amadurecimento — diz o pai. Pesquisa Quaest feita com exclusividade para O GLOBO mostra que, comparando com as eleições de 2022, 40% dos entrevistados se sentem mais à vontade para falar sobre o seu voto para presidente; aquelas que não se sentem nem mais nem menos à vontade são 33%; e 23% estão menos à vontade. Quatro anos atrás, o embate entre Lula e Jair Bolsonaro “acalorou os ânimos” da família da servidora Emelin Sousa, em Belém. Os homens, mais conservadores, entraram em rota de colisão com as mulheres, mais progressistas. Foi então que um tio, administrador do grupo de WhatsApp dos parentes, proibiu mensagens de política e impôs multa de R$ 2 a cada comentário. Ele foi até chamado, em tom bem-humorado, de “Alexandre de Moraes” do clã. Em 2026, a polarização familiar permanece, mas o veto ao tema também. — Percebemos que não tem como “virar o voto”. Tenho meu candidato e converso com pessoas do mesmo viés político. Perde o debate, mas ganha a paz mental. Agora só enviamos (no grupo de WhatsApp) corrente de oração, encarnamos quando o Remo ou o Paysandu perdem. São assuntos mais tranquilos. Ou não — brinca Emelin. Família de Emelin Sousa restringiu mensagens de política no grupo do WhatsApp Acervo pessoal Apesar de a divisão eleitoral conformar identidades sociais e forjar rejeições, um outro levantamento da Quaest aponta que a polarização não contamina tanto assim a vida social. Os dados revelam que 59% dos brasileiros dizem morar com pessoas de posições políticas “muito parecidas” com as suas. Esse índice chega a 66% entre lulistas e 75% entre bolsonaristas. No quadro geral, 16% têm posições “pouco parecidas” com as dos coabitantes, e 18%, “nada parecidas”. Outros 3% não costumam falar sobre isso em casa. Na mesma linha, o estudo “A cara da democracia”, iniciativa de pesquisadores de várias universidades, aponta que a maioria dos brasileiros (55%) não sente incômodo com a possibilidade de namorar alguém de posição política oposta. Só 18% ficariam “muito incomodados”. A tolerância é ainda maior para amizades e relacionamentos dos filhos (58%). Coordenador da pesquisa, o professor da UFMG Leonardo Avritzer ressalta que as redes sociais são mais polarizadas que a sociedade: — Existe uma certa fadiga aos candidatos, à eleição. O país está polarizado durante um período muito longo. A pessoa, para polarizar, tem que se informar, se engajar, e isso tem um alto custo de tempo e de investimento psicológico. ‘Tiozão do zap’ não resiste Na família mineira do oceanógrafo Bruno Monti, parte dos 14 tios deixou de se falar depois que bate-bocas homéricos motivados por política descambaram para ofensas em 2018 e 2022. Até festa de Natal foi boicotada. De lá para cá, os encontros casuais minguaram, e as reuniões familiares se restringiram a celebrações como casamentos e datas católicas, sempre sob tensão. — Houve rusgas que não amenizaram com o tempo. As festas cada vez têm menos pessoas, grupos divididos. O pessoal tenta descobrir quem vai, para ver se evita, se dá só “uma passadinha”. Aí, as pessoas bebem um pouco, perdem a inibição, falam, e quase escalona. Mas, em geral, todos tentam botar panos quentes — conta. Marcio Claudino não apoia mais a família Bolsonaro, mas mantém, de Belfast, na Irlanda do Norte, uma troca esporádica de “cutucadas” com os irmãos e as cunhadas lulistas em São Paulo. Os parentes dizem: “avisamos que eles tentariam o golpe”, em referência às investigações da trama golpista. Ele rebate: “E eu avisei que, se tentassem, não conseguiriam”. Os sobrinhos, agora na faculdade, também “tretam” com o tio virtualmente. — A bolha deles é de esquerda. Para eles, sou o “tiozão do zap”. Só ignoro. Nem sei o que pensam sobre o Supremo. Melhor não cutucar o vespeiro — afirma Claudino. Para o contador Leandro da Cunha, de Ibirité (MG), dizer que as relações com os primos de esquerda estão mais “calmas” é forte demais. Este ano, porém, os parentes firmaram um “acordo de cavalheiros”: em respeito à avó, não criticam o candidato alheio para evitar brigas. De direita, ele se diz disposto a ouvir amigos “de mente aberta”, para escutar “o outro lado”, mas lamenta a quebra de vínculos dos primos com a igreja evangélica. — Concordo que fé e política não deveriam se misturar, mas você não precisa ser extremo, abandonar sua fé, a sua comunidade — diz o mineiro, que vê menos animosidade quando o tema é Supremo e Master — Amigos que votam no oposto e eu falamos: o trem está estranho... Cobertura do 1º turno Para facilitar e enriquecer a cobertura da apuração das eleições 2026, neste domingo (4), a partir das 17h, o GLOBO desenvolveu um ambiente especial com um menu que contempla os cinco cargos em disputa (presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual) e pode ser acessado pelo site e pelo aplicativo do jornal. No mapa, o leitor vê quem está liderando, quem foi eleito ou quem irá para o segundo turno em cada um dos 26 estados, no Distrito federal e nos 5.569 municípios. Também é possível conferir a votação nas zonas eleitorais, a nova divisão partidária do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas e a composição do Senado. *Estagiário sob supervisão de Fernanda Freitas

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