Com petróleo acima de US$ 110, manutenção de subsídios e preço do diesel da Petrobras preocupam

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O governo que sai das urnas terá que enfrentar um grave problema que não estava no radar quando teve início o calendário eleitoral, em janeiro. A guerra no Oriente Médio, que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que terminaria em questão de semanas, agora parece destinada a se intensificar ao entrar em seu nono mês, pressionando as cotações do petróleo, os preços dos combustíveis e a estabilidade econômica em vários países.

Na última sexta-feira, o óleo tipo Brent chegou a US$ 117, o maior nível desde maio. No acumulado do ano, a disparada é de cerca de 80%.

Os efeitos do conflito no Oriente Médio não devem terminar no curto prazo, e o governo brasileiro tem que enfrentar o dilema de manter os subsídios para conter uma alta acentuada do diesel e da gasolina nas bombas em meio a pressões fiscais. A subvenção ao diesel, prorrogada em setembro até a data de hoje, deve se estender por pelo menos mais 30 dias.

A política de preços da Petrobras também está em xeque. Em entrevista ao GLOBO, a presidente da estatal, Magda Chambriard, afirmou que “ninguém imaginou que nós íamos ter um final de outubro com o barril a US$ 116”.

Desde o início da guerra no Oriente Médio e da disparada do petróleo e dos combustíveis, o custo do óleo diesel da Petrobras para as distribuidoras permaneceu praticamente inalterado, e a gasolina subiu menos do que os preços internacionais, por causa das subvenções e das desonerações tributárias adotados pelo governo.

A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) calcula que a defasagem no preço do diesel praticado pela Petrobras em relação às cotações internacionais já gira e torno de 100%. Em relatório, analistas do Goldman Sachs avaliam que essa diferença poderia resultar em um forte reajuste do combustível após o segundo turno.

Os economistas do banco apontam em relatório que o preço realizado do diesel pela Petrobras (incluindo subsídios do governo) esteja 21% abaixo da paridade internacional do diesel, mas sob uma assimetria de subsídios que atualmente favorece o óleo importado em relação ao refinados internamente.

Na avaliação de Marcos Praça, diretor de Análise da Zero Markets, a nova alta do petróleo pode colocar os preços dos combustíveis no centro das preocupações dos formuladores de política econômica após as eleições. Segundo ele, o governo terá que tomar “uma difícil decisão”: manter o subsídio e absorver grande parte do impacto dos conflitos no Oriente Médio, mesmo que seja necessário algum tipo de “malabarismo econômico”, ou enfrentar o “descontentamento da população” com um salto nos preços dos combustíveis.

Em relatório publicado na sexta-feira, economistas da XP avaliam que o governo esteja gastando cerca de R$ 9 bilhões por mês com subvenções ao diesel e à gasolina, mas ponderam: “Como o Brasil é um importante produtor de petróleo, parte do custo dessa política é compensada pelo aumento das receitas governamentais decorrente dos preços mais elevados do petróleo.

Com preços acima de US$ 105 por barril, o impacto fiscal líquido torna-se positivo, criando espaço para ampliar os gastos com subvenções a fim de mitigar o impacto inflacionário”. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que, se o petróleo continuar com preço alto e as receitas extraordinárias ligadas à commodity seguirem crescendo, o governo pode continuar a política de subsídios aos combustíveis para atenuar o impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços na bomba.

Atualmente, está em vigor um entendimento que permite uma flexibilização temporária da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para permitir a compensação de renúncia de receita com a arrecadação extra relativa ao petróleo, devido ao conflito no Oriente Médio. Mas só vale para 2026.

— Se o Brent continuar em patamar muito elevado e a gente seguir percebendo que vai ter recurso adicional, é sim possível, e acho que essa deve ser a proposta do presidente, manter essa ajuda para suavizar. Não é para tabelar preço, congelar preço, mas para evitar que a inflação estoure e prejudicar o prato de comida — disse Durigan em entrevista ao UOL.

Durigan afirmou ainda que a manutenção do imposto de exportação sobre óleo cru, criado também no âmbito da guerra, terá de ser avaliado a partir do cenário sobre o abastecimento. Segundo ele, o tributo é regulatório, para direcionar a produção para as refinarias domésticas, mas tem um efeito fiscal secundário.

Balança do petróleo A alta do petróleo favorece as contas externas do Brasil e aa ações da Petrobras.

Os papéis preferenciais da estatal subiram nada menos que 110% este ano, e o superávit comercial da balança de petróleo e derivados do país atingiu US$ 31,22 bilhões de janeiro a setembro, 40% a mais que em 2025 e recorde de toda a série para o período. Com a guerra no Golfo Pérsico e as dificuldades de passagem pelo Estreito de Ormuz, o Brasil ultrapassou a Arábia Saudita como o segundo maior fornecedor de petróleo bruto para a China nos primeiros nove meses de 2026, segundo dados alfandegários chineses divulgados na semana passada.

A China importou 44,29 milhões de toneladas de petróleo bruto do Brasil durante o período, em comparação com 43,12 milhões de toneladas da Arábia Saudita. As importações de petróleo da Rússia, que é a principal fornecedora do produto à China, totalizaram 9,94 milhões de toneladas em setembro, ou 2,42 milhões de bpd, um aumento de 20% na comparação anual, mas uma queda de 11% em relação ao mês anterior.

Donald Trump Trump disse ontem à Fox News que “está chegando a hora de decidir” se fará um acordo com Teerã ou “acabará com tudo”.

Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que, se houvesse racionalidade, “eles não tentariam” um ataque. Os investidores se preparam para um período crítico de negociações, com as eleições israelenses marcadas para amanhã, seguidas pelas eleições de meio de mandato nos EUA, em 3 de novembro.

Entre os dois eventos, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) se reúne para decidir de sobe ou mantém a taxa básica de juros no país. Nos últimos dias, Washington ordenou uma evacuação mais ampla de pessoal diplomático de todo o Oriente Médio, enquanto o presidente Trump insinuou repetidamente que suas forças poderiam retomar os ataques após as eleições de meio de mandato.

Por sua vez, o Irã está se preparando para retaliar, inclusive contra Israel e os Emirados Árabes Unidos. “O aumento dos conflitos na região, aliado à preocupação de que uma escalada esteja próxima, significa que os mercados de petróleo precisam precificar o risco de esgotamento dos estoques de petróleo e derivados — afirmou Vivek Dhar, analista do Commonwealth Bank of Australia”, em nota.

(Com Bloomberg News)

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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