A cidade de São Paulo chegou ao patamar de 2 mil ônibus elétricos em circulação no fim de setembro, a maior frota do país. Desse total, pelo menos 864 veículos usam tecnologia da Eletra, única empresa brasileira a desenvolver sistema nacional de eletrificação do transporte público.
Segundo dados do e-bus Radar, plataforma que reúne dados sobre frotas de ônibus elétricos no transporte público da América Latina e do Caribe, a Eletra figura entre os cinco principais fabricantes e é a única latino-americana do ranking de 13 empresas liderado pela chinesa BYD. A empresa foi fundada há 25 anos, mas o DNA do transporte começou muito antes, quando a família atuou com transporte a cavalo.
Com sua fábrica instalada em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, a empresa anunciou investimento de R$ 270 milhões, sendo 60% desse total para a expansão fabril e 40% para o desenvolvimento de produtos e nova geração de chassis. A Eletra disputa com a BYD, Mercedes-Benz, Scania e Volks, o mercado de ônibus elétricos, que deslanchou no Brasil nos últimos dois anos.
Como nasceu a Eletra? A Eletra nasceu há 25 anos, fundada por Maria Beatriz Sete Braga, minha mãe.
Mas meu bisavô transportava passageiros a cavalo usando tílburis ( tipo de charrete ou carruagem leve) ao longo da Estrada Velha de Santos, conectando cidades como Cubatão, Santo André e São Bernardo. É dessa atividade que a Eletra herdou o DNA para transporte.
E como sua mãe estruturou a companhia? Ela teve a ideia de criar a empresa após fazer uma viagem a Turim, na Itália, onde andou em um ônibus escolar elétrico e decidiu trazer essa tecnologia sustentável ao Brasil.
Mas como as baterias da época tinham pouca autonomia para o sistema de transporte brasileiro, a Eletra iniciou suas operações focando na fabricação, manutenção e reforma de trólebus (veículos elétricos alimentados por fiação aérea). E quando a companhia tornou-se uma fabricante de ônibus elétricos a bateria?
Em 2021, a legislação municipal de São Paulo, que proibiu a renovação de frotas por veículos a diesel, voltou a vigorar após a pandemia. Isso abriu oportunidade inédita para a substituição de frotas por veículos limpos.
Foi aí que reestruturei o foco dos negócios, direcionando a engenharia para desenvolver ônibus elétricos a bateria. Passamos oferecer consultoria técnica para resolver gargalos de infraestrutura e recarga nas garagens.
O que a Eletra fabrica? Nós nos tornamos uma montadora e passamos a fabricar o próprio chassi 100% nacional.
A Eletra faz o software de controle da eletrificação, a integração de sistemas elétricos e mecânicos. Além do chassi, a Eletra atua comprando a estrutura de chassi (o ferro) de parceiras tradicionais como Mercedes-Benz e Scania para realizar a eletrificação.
A Eletra não fabrica carrocerias, que são produzidas e montadas por encarroçadoras parceiras. E as baterias?
O pacote de baterias é desenvolvido e montado pela WEG no Brasil, e as células de lítio (matéria-prima) são importadas da China. O motor é fornecido pela WEG, sob medida para a potência e tração exigidas pelos projetos da Eletra.
Chegamos a fabricar carregadores de bateria no passado, mas agora focamos apenas na produção dos veículos. Como superar o gargalo da infraestrutura de carregamento dos veículos elétricos no Brasil?
Através da Eletra Consult, oferecemos a prefeituras e operadoras planejamento detalhado para transição para frotas elétricas. Uma equipe vai até o município para analisar linhas de ônibus, quilometragem rodada, horários e a disponibilidade de energia existente nas garagens das operadoras.
Avaliamos quanta energia a garagem tem disponível e qual a quantidade de ônibus elétricos e carregadores que ela consegue suportar de imediato. Se for necessária energia adicional, solicitamos à concessionária/distribuidora local.
Hoje as cidades não adquirem apenas os ônibus, mas um projeto de eletrificação? Sim.
É montado um plano gradual para a entrada dos veículos em circulação. Por exemplo, iniciamos uma operação com dez veículos elétricos e vamos aumentando até cinquenta à medida que o aumento de tensão elétrica for liberado.
O pedido dos ônibus para a linha de fabricação só é acatado quando a viabilidade de recarga e o cronograma de energia das garagens estiverem definidos, garantindo que os veículos não fiquem parados por falta de carregadores. Como é enfrentar a concorrência dos chineses?
Nos ônibus elétricos, a disputa de preços é “pau a pau”. Focamos no diálogo direto com os operadores e garagens, entendendo suas dores reais.
Os veículos asiáticos ou europeus são projetados para estradas de alta qualidade e menor lotação. No Brasil e América Latina, o sistema viário é precário, e o volume de passageiros é muito alto.
O ônibus da Eletra é adaptado para ruas esburacadas e superlotação, alcançando durabilidade de 15 a 20 anos. Em vez de vender modelos fixos padronizados, customizamos o tamanho do veículo, a capacidade da bateria e a potência do motor de acordo com as necessidades específicas de cada cidade e topografia.
A equipe da Eletra vai para dentro das garagens e permanece por meses oferecendo suporte técnico, treinando motoristas e capacitando a equipe de manutenção. Quanto custa em média um ônibus da Eletra?
A referência de preço para um ônibus elétrico (modelo padrão de 12,8 metros para 75 passageiros) é de cerca de R$ 3 milhões. O valor pode variar dependendo das especificações do projeto, como o tamanho do veículo e o tamanho do pacote de baterias necessário para a autonomia de cada linha.
O ônibus elétrico custa inicialmente três vezes mais do que um ônibus a diesel. Mas o custo de energia é um quinto (20%) do gasto com combustível, e o custo de manutenção é reduzido em 75%.
Portanto, o retorno do investimento ocorre em 5 anos. Defende algum incentivo para a indústria nacional competir com asiáticos?
Defendemos que o governo adote ação estratégica para resguardar a indústria brasileira de ônibus elétricos, senão os concorrentes estrangeiros vão “engolir” o setor, da mesma forma que ocorreu no mercado de carros de passeio. Somos a favor da cobrança de impostos e a aplicação de barreiras sobre ônibus e veículos elétricos importados da China.
Essa proteção já é adotada pela própria China, pelos EUA e países da Europa para defender suas indústrias locais. Defendemos a concessão de incentivos fiscais para a produção nacional e o comércio exterior.
Onde serão aplicados os R$ 270 milhões em investimentos anunciados? Cerca de 60% dos recursos serão destinados à expansão da estrutura fabril em São Bernardo elevando a capacidade de produção dos atuais 1.800 a 2.200 veículos por ano para até 4.000 ônibus/ano.
Essa ampliação prevê aumentar o quadro direto de colaboradores da fábrica de 260 para 500 funcionários. E os 40% restantes vão para o projeto de criação de uma nova geração de chassis, novos modelos de veículos, aprimoramento das tecnologias de controle e adaptação dos ônibus às características viárias de cada região.
O Globo