Com seu discurso falando de anulação da eleição, o senador Flávio Bolsonaro sanciona o grande temor que havia em torno de sua candidatura: a relação com a democracia. O candidato derrotado no segundo turno pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve um desempenho na eleição na qual superou todas as expectativas, inclusive de aliados, e poderia terminar o processo mostrando mais grandeza que o seu pai, que sequer passou a faixa ao adversário.
Optou por se apequenar. Flávio teve mais de quatro milhões de votos a menos que Lula.
É evidente que a bagunça promovida pelo aliado dele, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, que optou por não agir sobre o pedido de adiamento do fim do pleito, pela lentidão do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, e pela decisão do ministro Cristiano Zanin depois das 17 horas de adiar o encerramento do pleito por duas horas poderia gerar questionamentos de setores radicais.
A decisão de adiamento não mudou o resultado da eleição, como reconheceu Nunes Marques. Apesar de atabalhoada, era uma justa medida, considerando-se que aliados do bolsonarista atuaram contra o direito de voto de diversas pessoas.
— Mesmo diante de todas essas circunstâncias, adotamos todas as providências que se fizeram necessárias e fomos absolutamente exitosos. Volto a dizer: não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial — disse Nunes Marques na entrevista em que reconheceu o resultado.
Em vez de contestar a eleição, Flávio poderia ter desmontado os temores sobre ele, reconhecendo a vitória de Lula, desautorizado manifestações nesse sentido e usado o capital político acumulado para se consolidar como principal líder oposicionista e mirar a próxima oportunidade.
O Globo