A aprovação da proposta de emenda à constituição (PEC) que proíbe a escala de trabalho 6 por 1 foi recebida com preocupação pela construção civil. A saída para acomodar a mudança é ganhar produtividade, com industrialização e robotização dos canteiros.
Eduardo Fischer, co-CEO da MRV, afirma que a aprovação da PEC, que reduz o máximo de horas trabalhadas por semana de 44 para 40, com um ano de transição, a partir de dezembro, para 42 horas, deve causar impactos, embora o valor exato não esteja contabilizado pela empresa. “Nós efetivamente fazemos as 44 horas, muitas [indústrias] não fazem”, diz.
Fischer defende uma mudança regulatória que ajude a alavancar a industrialização do setor como um todo, aproveitando o impulso que deverá ser trazido pela reforma tributária. A previsão da MRV é que será possível baratear a produção em 15% com um sistema mais industrial, o que mais do que neutralizaria impactos da mudança na escala de trabalho, de acordo com o executivo.
As diretrizes para licenciamento de projetos habitacionais variam conforme o município, o que exige que as incorporadoras trabalhem com diversos tipos de prédios e unidades habitacionais, em um padrão quase artesanal. “De São Paulo para Guarulhos, para Mogi das Cruzes, é muito diferente”, afirma, citando como exemplos os tamanhos dos cômodos e a obrigatoriedade de janela nos banheiros, algo que não existe em São Paulo, mas que outros municípios exigem.
“Às vezes, são alguns centímetros [de diferença] no tamanho do quarto” que já impedem que se faça uma “linha de produção” de imóveis, diz. Fischer defende que seja aplicado um modelo mais próximo das normas técnicas de desempenho, que determinam parâmetros mínimos para a construção, mas sem delimitar exatamente como a unidade deve ser.
Isso daria espaço para o setor privado criar os modelos que melhor se adaptem à sua forma de trabalhar, região de trabalho e estilo. O executivo ambiciona um modelo que conceda incentivos nos municípios que aderirem à essas diretrizes, como uma taxa de juros menor no crédito imobiliário, para o comprador.
Para ele, a reforma tributária já é um primeiro passo, porque vai permitir que a construtora tome crédito tributário ao adquirir serviços industrializados de outra empresa. “Antes, ela estava importando toda essa carga de impostos para dentro da sua cadeia”, diz.
Com isso, e com uma regulação mais padronizada, Fischer enxerga que uma indústria de partes de imóveis, como ambientes já prontos, em módulos, seja viável no Brasil. A MRV tem experiência com esse modelo nos Estados Unidos, onde sua empresa americana, Resia, tem uma fábrica de módulos de banheiros.
“Essas coisas podem explodir a industrialização da construção no Brasil, olhando para os próximos anos”, afirma. A industrialização também permitiria encurtar o ciclo da obra e o tempo de exposição de capital, defende o executivo.
Há, ainda, o problema da escassez de trabalhadores. “Tem uma pressão estrutural de mão de obra que tende a piorar na nossa indústria”, afirma Fischer.
O trabalho nos canteiros é pesado, desgastante e perigoso, o que tem afastado trabalhadores mais novos. “Se estamos buscando, como sociedade, que as pessoas trabalhem menos e sejam mais produtivas, esse é o caminho claro na nossa indústria”, afirma.
A companhia também está testando robôs que conseguem fazer o trabalho de operários das obras, embora Fischer ressalte que a tecnologia está no início e ainda precisa avançar. Uma das empresas que fornece esses robôs é a Minas Brisa, que também é incorporadora.
Marcos Magalhães, fundador da empresa, conta que há três anos foi atrás de alternativas para aumentar a produtividade e a qualidade das suas obras e encontrou, na China, a fabricante de robôs BMR. A Minas Brisa, que tem sede em Belo Horizonte, passou a ser representante e distribuidora da fabricante na América do Sul.
Tem, hoje, 12 robôs no Brasil e está importando outros 40, que chegam até o fim de novembro. Cada máquina cumpre uma função, que vai da limpeza do canteiro e da fachada à pintura e ao nivelamento e lixamento de pisos e paredes de concreto.
Cada máquina tem um operador, que a companhia está treinando dentro do seu quadro de trabalhadores. “Para pintura, pegamos o próprio pintor e ele está virando operador de robô de pintura”, afirma Magalhães.
“Não estamos tirando ninguém da obra, estamos qualificando a obra”. A MRV testa um robô que pinta as fachadas dos prédios, etapa que Fischer afirma ser uma das mais lentas e perigosas da construção.
Cada robô pode custar mais de R$ 1 milhão, mas Magalhães afirma que eles se pagam em cerca de seis meses, por fazer o serviço até duas vezes mais rapidamente do que seu par humano. A empresa também aluga os equipamentos.
Segundo Magalhães, a qualidade do serviço feito pelo robô tende a ser mais elevada e o desperdício de material, menor, o que ajuda a reduzir seu custo. “E sabemos que o robô não se cansa”, diz.
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