Colômbia – O aumento dos ataques de grupos armados e a disputa por territórios ligados ao narcotráfico levaram o governo da Colômbia a ampliar o uso de tropas nas cidades. A medida mais recente foi anunciada na quinta-feira (29) pelo presidente Abelardo de la Espriella, que determinou a presença temporária do Exército em Cúcuta, município de mais de 800 mil habitantes na fronteira com a Venezuela.
A decisão veio após o assassinato de um político que pretendia disputar a prefeitura e uma explosão que deixou feridos. Abelardo De la Espriella suspendeu negociações de paz com grupos armados após assumir presidência (Foto: Reprodução/Instagram/@delaespriella_style)
O governo afirma que a operação pretende recuperar o controle de áreas afetadas pela criminalidade e proteger a população. Além do reforço militar em conjunto com a Polícia Nacional, De la Espriella anunciou a ativação, a partir de 3 de novembro, da operação Esparta e do chamado Bloco de Segurança Urbana, voltados ao combate às organizações criminosas e ao enfraquecimento de suas fontes de financiamento.
A crise em Cúcuta se agravou em poucos dias. Na segunda-feira (26), Miguel Castellanos Serrano, ex-secretário de Governo do município e pré-candidato à prefeitura, foi morto a tiros enquanto estava acompanhado do filho.
No dia seguinte, um artefato explosivo detonou nas proximidades da sede da Direção de Impostos e Alfândegas Nacionais (DIAN), perto de uma das pontes internacionais que ligam a Colômbia à Venezuela. O ataque deixou seis pessoas feridas, entre policiais e civis, segundo informações divulgadas pela agência EFE.
A cidade já havia registrado outro atentado em setembro, quando a explosão de um carro-bomba em uma delegacia na região metropolitana de Cúcuta matou um civil e feriu ao menos 11 pessoas. Diante da sequência de episódios, autoridades locais vinham cobrando mais apoio do governo nacional para reforçar a segurança.
Disputa entre guerrilhas e grupos do narcotráfico A localização de Cúcuta ajuda a explicar por que a cidade enfrenta uma situação tão delicada.
O município fica no departamento de Norte de Santander, em uma região de fronteira extensa e porosa, utilizada por organizações armadas para movimentar drogas, armas e mercadorias contrabandeadas. Entre os grupos que atuam na área estão o Exército de Libertação Nacional (ELN) e facções dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
As organizações disputam o controle de rotas e atividades ilegais, como o narcotráfico e a mineração clandestina. A presença desses grupos também está relacionada a crimes como extorsão, tráfico de pessoas, ameaças e assassinatos.
A poucos quilômetros de Cúcuta fica Catatumbo, uma das regiões mais afetadas pelo conflito armado colombiano. A área concentra plantações de coca e é palco de confrontos entre o ELN e dissidentes das Farc.
Desde o início de 2025, a intensificação dos combates provocou o deslocamento de mais de 100 mil pessoas, de acordo com dados citados pelo jornal El País. A situação não se restringe à fronteira.
Em setembro, De la Espriella também determinou a militarização de Santa Marta, cidade turística no litoral do Caribe colombiano. Na ocasião, ataques a estabelecimentos comerciais e incêndios de veículos foram atribuídos às Autodefesas Conquistadoras da Sierra Nevada (ACSN), grupo de origem paramilitar que atua no narcotráfico e na extorsão.
A agência France-Presse (AFP) relatou que, durante a onda de violência em Santa Marta, comerciantes receberam ameaças e diversos estabelecimentos fecharam as portas. Ônibus e caminhões foram incendiados, enquanto moradores relataram medo e incerteza diante da possibilidade de novas ações criminosas.
As tropas foram enviadas para reforçar a segurança na cidade e nas estradas da região. Mudança na estratégia de segurança
A militarização das duas cidades faz parte de uma política de segurança mais dura adotada por De la Espriella desde que assumiu a presidência, em agosto. O presidente suspendeu negociações de paz com grupos armados iniciadas pelo governo de Gustavo Petro e passou a defender uma atuação mais ofensiva das forças de segurança.
A estratégia inclui operações contra acampamentos de guerrilhas, reforço do policiamento e ações para atingir as estruturas financeiras das organizações ilegais. A ofensiva militar, no entanto, também tem provocado mortes.
Dezenas de pessoas foram mortas em operações contra grupos armados, entre elas pelo menos oito menores de idade, segundo informações divulgadas no contexto da crise de violência no país. O governo sustenta que o aumento da presença militar é necessário para impedir que organizações criminosas controlem territórios e intimidem moradores.
A estratégia, porém, enfrenta questionamentos sobre sua capacidade de resolver as causas da violência. Em Cúcuta, representantes de entidades de direitos humanos e críticos da medida afirmam que a presença de soldados nas ruas, por si só, não elimina redes criminosas nem resolve disputas por rotas e atividades ilegais.
D24am