Com derrota dos republicanos nos EUA, a 'intimidação' na negociação climática 'vai embora', diz presidente da COP30

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

André Corrêa do Lago, presidente da COP30, a conferência do clima de Belém, entrega o martelo na segunda-feira a seus sucessores na COP31, e diz que a derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato é uma injeção de ânimo no encontro: "Os países estavam intimidados de falar de clima, e eu acho que com a vitória dos democratas essa intimidação vai embora".

Segundo o embaixador, o que entra em cena agora é a esperança de os americanos voltarem à mesa de negociação depois de terem deixado o Acordo de Paris contra a mudança do clima, pela segunda vez, em 2024. Corrêa do Lago, que ajudou a manter acesa a chama da diplomacia climática num momento em que os EUA ameaçavam arrastar aliados para fora de cena, concedeu entrevista ao GLOBO nesta semana, antes de embarcar para a cidade de Antália, na Turquia, onde ocorrerá a COP31.

Na conversa, ele falou também sobre sua última contribuição para a implementação de Paris, os "mapas do caminho": guias para formuladores de políticas para que países descontinuem o desmatamento e o uso de combustíveis fósseis no mundo. As promessas insuficientes de cortes de emissões impedem Paris de funcionar, e nos colocam numa trajetória além de 1,5°C, que é objetivo primário.

Os mapas do caminho, documentos não mandatórios, terão força para mudar isso? Eu acho que eles vão contribuir muito.

Primeiro, porque por mais que nós ainda não estejamos tão próximos dos objetivos de Paris quanto a gente gostaria, a gente já se aproximou de maneira significativa. Quando a gente assinou Paris, em 2015, a gente estava numa trajetória de aumento de mais de 4° C.

Agora a gente está numa trajetória de 2,7°C, e isso se deve a Paris. Não podemos dizer que Paris não está funcionando, mas sim que não está funcionando no ritmo que deveria, porque faltou foco na implementação.

A implementação, porém, não depende dos negociadores e das COPs. A implementação é o que estão fazendo os ministérios de infraestrutura, os ministérios da fazenda, os ministérios de transportes, o Banco Mundial, o FMI, o BID...Os atores da implementação não são os atores que negociam.

Então, quem negociou, negociou bem, mas a implementação foi muito mais tímida do que deveria ter sido. O papel dos mapas do caminho nisso é que eles explicam de maneira muito clara quais são os desafios e quais são as coisas que os países já podem ir fazendo.

Eles são documentos de implementação porque tudo que está neles já foi negociado e aprovado. A derrota de Trump e os republicanos nas eleições de meio de mandato nos EUAa aumenta a esperança de trazer os americanos de volta para o Acordo de Paris? Senadores e governadores democratas eleitos foram convidados para a COP31?

Não sou eu quem está fazendo os convites, porque eu entrego o meu emprego no dia 9 de novembro. Mas eu acho que os turcos estão convidando, sim.

Americanos estiveram presentes também em Belém. Eles estavam ausentes da agenda de negociação, mas já estavam na implementação e na de ação, com governos locais, empresas, academia, e representantes de várias comunidades.

Agora, não há a menor dúvida de que resultado das eleições de meio de mandato é uma notícia fantasticamente positiva. O governo Trump estava desmontando a legislação americana sobre clima, e essa mudança de perfil do Congresso Americano vai ter um impacto extraordinário em parar essa reversão.

Com o resultado da eleição americana, eu também acho que o clima vai voltar a ser uma agenda central do ponto de vista internacional. Muitos países estavam intimidados em falar de clima, e eu acho que com a vitória dos democratas essa intimidação vai embora.

A COP30 conseguiu muitos avanços em agendas paralelas, mas nem tanto na mesa de negociação oficial. Sobrou alguma para fazer fora da agenda de negociação sem ter os americanos à mesa ainda na COP31?

Historicamente, a presença dos americanos na negociação desequilibrou muito a posição dos países desenvolvidos. Entre os países que sempre tinham posição mais dura, estavam quase sempre os EUA, enquanto a União Europeia endurecia menos e puxava mais o aumento de ambição.

Mas a ausência dos Estados Unidos, segundo vários analistas, fez com que a Europa de certa forma tivesse que assumir o papel de endurecer o processo. Em questões de financiamento, por exemplo, eram sempre os americanos que estavam reclamando de colocar mais recursos na mesa, e os europeus vinham sempre cheios de ideias.

Agora os europeus estão preocupados com o financiamento, porque eles acabaram tendo que preencher o buraco causado pela saída dos americanos. Dependendo do tema, os Estados Unidos eram extraordinariamente efetivos e importante para obter avanços, mas às vezes tinham uma função de frear certas coisas.

Mas os EUA estão fazendo falta nos dois sentidos. Por exemplo, a menção à "transição para longe dos combustíveis fósseis" na COP28 em Dubai só foi conseguida graças ao John Kerry (eviado dos EUA para o clima).

Naquele momento, os americanos tiveram um papel extremamente positivo e proativo. Mas em outras COPs os americanos foram os que impediram certos avanços.

Provavelmente a gente não teria conseguido triplicar os recursos de adaptação se os americanos estivessem negociando. O que sei é que com este governo americano nada seria construtivo na negociação.

Muitos países em desenvolvimento no fundo consideram que a ausência dos Estados Unidos é melhor do que os Estados Unidos impedindo qualquer progresso em qualquer tema. O sr.

acredita que será possível avançar na implementação dos princípios de justiça climática na COP31? Esse foi um dos temas mais exitosos da COP30, com o Mecanismo de Ação de Belém, que tem que avançar em Antália.

Isso é extraordinariamente importante para os países em desenvolvimento e está na mão da Austrália, que vai presidir a negociação na COP31. Os australianos, em geral, têm uma posição mais conservadora com relação a mecanismos de apoio a países em desenvolvimento que possam significar um aumento do uso de recursos dos países ricos.

Vamos ver como é que evolui. A China está ganhando muito dinheiro com a transição energética, mas está tentando adiar o próximo relatório do IPCC, o painel de cientistas do clima da ONU, o que impediria a COP de fazer o próximo balanço das promessas de corte de emissão usando ciência mais atualizada.

Como o sr. vê esse entrave?

A China não é o país mais ativo nessa restrição na negociação do IPCC. Há outros países em desenvolvimento bem mais ativos.

A China está mais ou menos solidária a esses outros países, pelo princípio de que o IPCC deveria abraçar mais o pensamento científico do mundo de desenvolvimento. Por outro lado, a China é o país que mais contribui com estudos para o IPCC, e já é o maior produtor de ciência climática.

Então, eles têm um papel de líder nesse processo muito complexo e desafiador. Mas não deixa de ser estranho.

A China é o país que mais tem a ganhar com essa agenda, porque a China levou a sério o que tinha que fazer carro elétrico, painel solar e usinas eólicas cada vez mais baratas. Hoje em dia, eles estão tão eficientes que isso deixou de ser tema só de clima e se tornou assunto em questões de comércio.

O que acontece é que quem cuida de comércio nem sempre tem sensibilidade para tratar de clima, então estamos vendo uma ironia muito grande. Incicialmente, os países desenvolvidos é que queriam que a China virasse um grande produtor de tecnologias e de produtos sustentáveis.

Mas talvez os chineses tenham exagerado nisso, por isso os países desenvolvidos estão reagindo agora. Mas quem está reagindo são os departamentos de comércio, não os de clima.

O G77, o maior bloco diplomático de países em desenvolvimento, não está conseguindo se entender em muitos assuntos das COPs. Não é melhor que esses países negociem em blocos menores, que sejam mais homogêneos?

O G77 é um grupo incrível porque junta mais de 130 países com interesses muito diversos, e em algumas questões eles se tornam uma barreira intransponível. E eles continuam extremamente importantes para questões centrais dos princípios da convenção do clima, como financiamento.

Mas é verdade que está cada vez mais difícil haver consenso no G77 sobre certos temas, porque dentro dele você tem desde os pequenos países-ilhas, que têm uma preocupação enorme com a elevação no nível dos oceanos, até os países produtores de petróleo, que querem procurar manter pelo tempo mais longo possível o uso de combustíveis fósseis.

Então, o número de temas sobre os quais o G77 pode ter consenso diminuiu, mas o G77 continua sendo um ator importantíssimo nas negociações. A Convenção do Clima da ONU, na ausência dos americanos, pode entrar numa situação de impasse como a da Organização Mundial do Comércio (OMC), que segue travada há vários anos?

É preciso lembrar que os americanos sempre tiveram um posicionamento muito especial no multilateralismo, e os EUA foram o país que impediu que a OMC fosse criada logo depois da Segunda Guerra Mundial. Demorou anos e anos, com o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), para que as coisas avançassem aos poucos.

Mais recentemente, o próprio governo Biden também não ajudou em nada a OMC. A gente pode fazer vários paralelismos entre a OMC e a mudança do clima, no sentido de serem acordos cuja negociação é iniciada por impulso dos países desenvolvidos e que, pouco a pouco, passam a incluir países em desenvolvimento.

Depois, países em desenvolvimento passam a ser atores centrais nessas negociações, bloqueando várias das coisas que países desenvolvidos gostariam que acontecessem. Isso aconteceu na OMC, que acabou favorecendo mais os chineses do que os americanos.

Pelo menos essa é a interpretação americana. Mas nós estamos vivendo um momento muito interessante na Convenção do Clima com o que aconteceu depois de Trump sair do Acordo de Paris.

Para a negociação climática continuar, era extremamente importante que nenhum outro país saísse de Paris, e de fato nenhum outro país saiu. Mesmo países muito alinhados com os Estados Unidos não mudaram de posição com relação à negociação de mudança do clima.

Eu acho que a percepção de que a Convenção do Clima traz mais benefícios do que obstáculos se espalhou no mundo inteiro, menos um. E isso funcionou muito bem em Belém, quando existia um risco real de esvaziamento: a saída dos EUA não provocou a saída de outros e não provocou a paralisação das negociações.

Lula sinalizou que vai à COP31. Como a presença de um presidente reeleito no Brasil, num cenário global de crise de de popularidade de governantes incumbentes, fortalece as pauta do clima?

Fortalece em várias dimensões. Uma é o fato de que o presidente Lula ter sido o líder da última COP e ter trazido várias novidades à negociação, tanto na agenda de ação quanto em iniciativas como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e a coalizão de mercados de carbono regulados.

Além disso, chegando reeleito e com uma redução de 71% do desmatamento da Amazônia em quatro anos de governo, ele se torna um herói do clima. No discurso da vitória, ele mencionou a importância desse tema para o quarto mandato dele.

O sr. deixa seu 'emprego' de presidente da COP na segunda-feira (9).

Depois disso, continua representando o Brasil nas COPs 31 e 32? Eu não preciso de emprego agora.

Eu tive esse emprego fantástico, e estou muito feliz que a gente conseguiu entregar os mapas do caminho, mas não estou pensando na próxima etapa ainda. Eu vou passar essa primeira semana em Antália explicando os mapas do caminho e participando de encontros sobre as coisas que foram criadas em Belém e que ainda vão ser desenvolvidas por duas ou três presidências de COP.

Mas eu não serei mais o presidente da COP do ano. Então, o Murat Kurum, da Turquia, vai receber um martelo espetacular que a Etel Carmona, designer de São Paulo, criou, feito com madeiras da Amazônia incríveis, para ele bater nas decisões.

Esse vai ser o presente que eu vou dar na abertura da COP31 para ele se inspirar e presidir a conferência.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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