O alerta, enterrado num relatório governamental obscuro, era claro. A prestigiosa rede de laboratórios de pesquisa do Departamento de Defesa — cujos cientistas ajudaram a desenvolver a comunicação via satélite, a tecnologia de radar e até mesmo o mouse de computador — estava em apuros.
Os laboratórios perderam uma parcela significativa de sua equipe no ano passado, em grande parte devido aos esforços do governo Trump para enxugar a força de trabalho federal, concluiu o relatório. Entenda: Governo Trump elimina proteção para espécies ameaçadas de extinção, e mortes decorrentes de riscos previsíveis ficarão isentas; entenda
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Preencher posições críticas estava se mostrando difícil, em parte devido à exigência do presidente Trump de que as novas contratações fossem avaliadas quanto à sua lealdade aos objetivos dele. O relatório, emitido pelo Pentágono, apontou para “consequências potencialmente graves para o futuro da defesa nacional”.
Mas a turbulência na pesquisa científica se estende além do Pentágono. O Departamento de Energia, um centro fundamental de pesquisa nuclear e quântica, perdeu mais de mil cientistas e equipe técnica.
A Fundação Nacional de Ciências (NSF), que por décadas foi a principal financiadora de pesquisas fundamentais de longo prazo, reteve mais de US$ 1 bilhão em financiamento. Nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), o maior órgão financiador de pesquisa médica, autoridades atrasaram ou cancelaram mais de 2 mil bolsas de estudo para pesquisadores biomédicos focados em temas como Alzheimer, câncer e outras doenças.
'Clima sombrio': cresce temor entre aliados com inflexibilidade de Trump sobre estratégia para eleições de meio de mandato Sob o comando de Trump, o governo federal ainda gasta aproximadamente o mesmo em pesquisa — cerca de US$ 200 bilhões este ano — que os governos anteriores.
Cientistas ainda recebem bolsas; as universidades ainda são financiadas. Mas, sob a superfície, o sistema de ciência financiado pelo governo federal que ajudou a transformar os Estados Unidos numa superpotência global está sob intensa pressão das políticas de Trump, colocando em risco as vantagens da nação em defesa, medicina e tecnologia.
A Casa Branca proclama regularmente que está promovendo os interesses americanos. No entanto, suas ações estão desgastando a vantagem científica do país à medida que rivais globais desafiam a dominância dos EUA em campos que ajudarão a definir o Século XXI.
O dano é subproduto de três pilares da agenda de Trump. Um deles são os cortes profundos de empregos e os cancelamentos de bolsas arquitetados no ano passado pelo chamado Departamento de Eficiência Governamental (Doge), liderado por Elon Musk, que considerava grande parte dos gastos federais um desperdício.
Sem trégua: Governo Trump processa a Universidade Harvard O segundo é a pressão contínua do governo sobre as universidades.
A Casa Branca usou cortes de financiamento para obrigar as instituições a aderirem às suas exigências de mudanças de políticas ideologicamente motivadas. O terceiro é uma campanha do diretor de orçamento de Trump, Russell Vought, para impor maior controle político sobre como o governo gasta o dinheiro nas decisões em torno da pesquisa científica.
Se não fossem os tribunais contendo a campanha do governo contra as universidades e os legisladores de ambos os partidos rejeitando cortes no financiamento da pesquisa, o impacto na ciência teria sido muito mais profundo. Ainda assim, os efeitos se espalharam por quase todas as facetas da máquina de pesquisa da nação.
Cientistas aspirantes viram seus caminhos profissionais frustrados, com menos vagas disponíveis. O número de inscrições para doutorado de estudantes estrangeiros, tipicamente uma fatia significativa dos programas de ciência dos EUA, encolheu 21% este ano nas principais universidades, de acordo com dados reunidos para a Associação de Universidades Americanas.
'Uso agressivo da autoridade': EUA atingem sua pior pontuação em ranking de liberdade, e Trump é citado As admissões totais de doutorado nessas escolas caíram à medida que as universidades tentam se virar com menos recursos.
Até mesmo as agências que trabalham em tópicos que Trump e seus assessores chamaram de prioridades — incluindo defesa nacional, inteligência artificial, computação quântica e energia nuclear — foram esvaziadas. Juntas, as mudanças ressaltam como as políticas de Trump perturbaram a pesquisa científica além das áreas que o governo mirou de forma mais direta, como vacinas e ciência climática, ameaçando o poder e a proeminência dos EUA.
A liderança da China Por muitas métricas, a China está diminuindo a diferença em relação aos Estados Unidos como líder mundial em pesquisa.
Algumas organizações que classificam as universidades globais mostram que as melhores escolas chinesas estão deslocando cada vez mais as universidades americanas do topo. Superpotência: O avanço da China na pesquisa científica
E o impacto dos artigos de pesquisa chineses, medido pelas citações de outros cientistas, alcançou o dos Estados Unidos, de acordo com a Clarivate, uma empresa de dados e análises. Quando as consequências completas das ações do governo se tornarem evidentes, alertam os especialistas, pode ser tarde demais para consertar.
Isso ocorre porque a pesquisa básica financiada por bolsas federais frequentemente leva décadas para se reverter em tecnologias, tratamentos médicos e produtos de consumo. Um cão-robô desenvolvido pela empresa chinesa Unitree Robotics cumprimenta uma pessoa durante exposição em Shangai, na China: liderança chinesa em alta tecnologia
HECTOR RETAMAL/AFP IA, GPS e tratamento contra o câncer
O trabalho financiado pelo governo federal em relógios atômicos a partir do final da década de 1940, por exemplo, abriu caminho para a tecnologia GPS. Em 1976, uma pesquisa financiada pelo governo federal resultou em uma grande descoberta sobre as origens dos genes causadores de câncer, o que levou a um Prêmio Nobel e, duas décadas depois, a medicamentos contra o câncer que salvam vidas.
Um técnico dentro da estrutura de suporte do pré-amplificador do National Ignition Facility do Lawrence Livermore National Laboratory, em Livermore, Califórnia: centro pioneiro no estudo de energia LAWRENCE LIVERMORE NATIONAL LABORATORY/NYT
Alguns dos primeiros precursores da inteligência artificial remontam a pesquisas apoiadas pelos EUA na década de 1980, que usavam um algoritmo para ensinar redes neurais a aprender com os erros. — A ciência é um jogo de longo prazo — disse Marcia McNutt, que até recentemente era presidente da Academia Nacional de Ciências, o principal órgão consultivo científico do país.
— Quando não ganharmos mais nenhum Prêmio Nobel, teremos perdido a capacidade de nos recuperar. Em resposta à reportagem, funcionários da Presidência, do Pentágono e de outras agências científicas contestaram que as políticas do governo estivessem prejudicando a ciência.
Em vez disso, disse a porta-voz da Casa Branca, Liz Huston, o governo está revigorando a ciência americana ao transformar organizações que precisam de mudança. “O presidente Trump está inaugurando uma nova era de ouro da ciência americana ao modernizar nossas instituições de pesquisa, reorientando-se para missões nacionais ambiciosas e alavancando totalmente a superinteligência para a descoberta científica”, disse Huston em um comunicado, usando o termo preferido de Trump para inteligência artificial.
Trump 2.0: Democratas apostam em frente ampla e estratégia digital contra extrema direita A Casa Branca disse que o governo expandiu uma série de programas que apoiam jovens pesquisadores e observou que a decisão de reduzir as admissões de doutorado este ano foi tomada pelas próprias universidades.
Além disso, declarou que a maioria dos cientistas que deixaram de trabalhar para o governo federal desde que Trump voltou ao cargo não foi demitida, mas saiu voluntariamente. E observou que as metodologias para classificar universidades, como as comparações entre os Estados Unidos e a China, são limitadas.
A Associação de Universidades Americanas afirmou que as decisões das escolas de reduzir as admissões foram, em grande parte, resultado das “incertezas no financiamento federal para pesquisas”. Fuga de cérebros
O resto do mundo agora enxerga uma oportunidade. A Austrália, por exemplo, anunciou seu “programa global de atração de talentos”, chamando-o de “uma oportunidade urgente e inigualável de atrair as mentes mais brilhantes que estão deixando os EUA”.
O Canadá dedicou mais de US$ 1 bilhão para atrair mil pesquisadores internacionais, atraindo líderes americanos em campos como bioquímica e neurociência. Até a China, um país não conhecido por liberdades acadêmicas, atrai pesquisadores.
Um vencedor do Prêmio Nobel de Química do ano passado deixou a Universidade da Califórnia em Berkeley, para liderar um instituto em Pequim que utiliza inteligência artificial para acelerar a descoberta de novos materiais — dois campos que o governo Trump afirmou que deseja dominar.
As raízes do império científico dos EUA podem ser traçadas até um relatório histórico de 1945, publicado durante o governo Truman, intitulado “Ciência: A Fronteira Sem Fim”. Ele descrevia uma visão, inspirada em parte pelo Projeto Manhattan que levou à bomba atômica, de como a ciência impulsionaria a dominância dos EUA no mundo.
O governo federal passou a estabelecer uma rede de agências científicas com missões distintas. A Fundação Nacional de Ciências apoia trabalhos teóricos ou experimentais, que lançam as bases para futuras tecnologias anos ou até décadas mais tarde.
Vista aérea do Samuel Oschin Air and Space Center, onde o ônibus espacial Endeavour, da Nasa, ser exposto em sua posição de lançamento. O centro, em Los Angeles, será inaugurado em 13 de novembro
AFP O Departamento de Energia foi estabelecido para buscar avanços relacionados à geração de energia, bem como para gerenciar o arsenal nuclear da nação.
A Nasa, criada em resposta aos avanços soviéticos no espaço, colocou o ser humano na Lua. Os Institutos Nacionais de Saúde, cujas raízes remontam a 1887, financiam avanços biomédicos.
O governo federal também fornece dezenas de bilhões de dólares todos os anos às universidades do país, ao mesmo tempo em que financia laboratórios nacionais, a indústria privada e outras instituições — um sistema construído ao longo de 80 anos por presidentes e legisladores de ambos os partidos.
Em menos de dois anos, Trump abalou esse sistema em seus alicerces. Demissões em massa
A reviravolta começou cedo no governo. O Doge arquitetou demissões de funcionários e incentivou outros a renunciarem em toda a burocracia federal.
Em um ano, o quadro de funcionários do NIH encolheu um quinto. Os quadros da NSF foram reduzidos em um terço.
Até mesmo a Nasa, que encolheu menos do que outras agências, perdeu 20% de seus doutores. Entre os que saíram estava seu cientista-chefe, um especialista em ciência climática cujo cargo o governo eliminou.
O Doge e a Casa Branca orientaram as agências a buscarem termos nas descrições de bolsas que pudessem revelar pesquisas que o governo considerasse progressistas, incluindo qualquer coisa que parecesse promover a diversidade, equidade e inclusão. Alguns pesquisadores que perderam financiamento reconheceram ter emoldurado seus projetos na linguagem de DEI (Diversidade, Equidade, Inclusão).
Mas, argumentaram eles, era isso que o governo de Joe Biden havia enfatizado. Jessica Rosenberg, diretora de educação do Centro de Ciência e Engenharia Quântica da Universidade George Mason, havia recebido financiamento da NSF para pesquisar maneiras de incentivar mais estudantes americanos a buscarem carreiras em tecnologia quântica, um campo emergente que gerou inovação ao expandir vastamente o poder computacional.
A NSF cancelou a bolsa no ano passado, cerca de quatro meses após o início do projeto. Rosenberg disse suspeitar que a bolsa foi visada porque sua inscrição mencionava estudantes de origens diversas.
Funcionários do governo Trump argumentam que a pressão para incorporar DEI degradou a ciência, e que os cientistas que adotaram a abordagem eram os próprios culpados por perder o apoio. — Não podemos nos dar ao luxo de ter os cientistas dos EUA marcando pontos para uma agenda ideológica — disse Michael Kratsios, conselheiro científico de Trump, em uma reunião de cientistas no ano passado.
Universidades punidas Trump e seus assessores retornaram à Casa Branca querendo punir escolas de elite como Columbia e Harvard por transgressões como tolerar o antissemitismo.
Mas quando os cortes no financiamento de pesquisas se tornaram a arma preferida da Casa Branca, professores e administradores tiveram de decidir se lutariam ou se aquiesceriam. Estudantes protestam em Nova York contra as medidas do governo Trump para forçar mudanças em universidades como Harvard e Columbia por meio de cortes de bolsas e sanções
MARCO POSTIGO STOREL/AFP Harvard processou.
Outras escolas negociaram. E mesmo em universidades que não foram explicitamente visadas, pesquisadores fizeram mudanças na esperança de manter o dinheiro federal que era fundamental para o seu trabalho — suavizando a linguagem em suas propostas, estreitando seus projetos e debatendo a linha entre a supervisão governamental legítima e a interferência política inadequada.
May Mailman, ex-assessora da Casa Branca que ajudou a liderar a campanha de pressão contra as universidades, disse que o governo não estava excessivamente preocupado com os efeitos na pesquisa. Os fundos retirados de uma universidade poderiam eventualmente chegar a outras escolas cujo comportamento e ideologia fossem aprovados pela Casa Branca, disse ela.
Guerra declarada: Governo Trump ameaça retirar isenção fiscal de escolas e universidades dos EUA que adotam políticas baseadas em raça Enquanto isso, disse Mailman, o governo tentou minimizar a interrupção nos campos de pesquisa que apoiava, incluindo inteligência artificial e alguns tipos de energia.
No entanto, parte do trabalho vindo das universidades, segundo ela, pode não ter merecido o dinheiro dos contribuintes investido nele. — Existe a sensação de que se gasta mais em pesquisa do que o retorno que se obtém — de que o sistema está um pouco quebrado — acrescentou.
O governo também buscou profundos cortes de financiamento para agências científicas federais. No ano passado, quando Vought apresentou o pedido de orçamento anual do governo ao Congresso, ele defendeu a redução dos fundos de pesquisa nos Institutos Nacionais de Saúde em 41%; o corte na Fundação Nacional de Ciências em 55%; e a redução do orçamento da Nasa para a ciência em quase metade.
Nenhum governo anterior, de qualquer partido, havia buscado cortes tão profundos. O Congresso rejeitou esses cortes.
Ideologia em vez de mérito As ações do governo também prejudicaram agências centrais para a sua agenda política.
A avaliação do Departamento de Defesa sobre as capacidades de ciência e pesquisa diz que as mudanças no primeiro ano do governo Trump degradaram a altamente conceituada rede de laboratórios de pesquisa do departamento, devido principalmente aos cortes do Doge e aos obstáculos à contratação.
“Sem uma reversão rápida e sustentada dessas políticas”, alertou o relatório, o “motor de inovação” do Departamento de Defesa “corre o risco de parar”. Os laboratórios perderam cerca de 14% de sua equipe, concluiu o relatório.
Em julho, poucas semanas após o Pentágono publicar seu alerta sobre os laboratórios de Defesa, Kratsios, o conselheiro científico da Casa Branca, emitiu um relatório próprio. Americanos vão às urnas: Congresso tem impedido parte dos cortes em ciência
O documento enfatiza muitos dos objetivos do governo: aumentar o papel da iniciativa privada na pesquisa federal; contornar o processo tradicional de revisão por pares para decidir quem recebe bolsas de pesquisa, dando a avaliadores individuais a chance de “fazer apostas científicas ousadas” em pesquisadores de sua escolha; e redirecionar mais dinheiro para pesquisadores mais jovens.
Kratsios mal mencionou uma parte crucial da agenda do governo: uma proposta de regra emitida pelo governo Trump em maio passado, que exigiria que os nomeados políticos de Trump aprovassem quais pesquisadores recebem financiamento e retirando o poder de autoridades científicas apartidárias, que tipicamente têm sido as tomadoras de decisão.
Sob a proposta, os pesquisadores que buscam fundos “devem se comprometer a cumprir as políticas do governo”. No dia seguinte ao lançamento de seu relatório, Kratsios compareceu perante o comitê de ciência da Câmara para discuti-lo.
— Tudo o que vejo é manchas e deterioração — disse o deputado democrata Gabe Amo. — O senhor se compromete a não deixar nosso aparato científico em frangalhos?
Em resposta, Kratsios disse que "não acha que estaria fazendo meu trabalho se quisesse deixar o empreendimento científico em frangalhos”, e que se compromete "a não fazer isso.”
O Globo