Com compra da NeoSpace, Itaú prioriza grandes volumes de dados para oferecer experiência individualizada

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Fonte da notícia: Valor Valor

Ao anunciar a compra da startup NeoSpace nesta segunda-feira (26), o Itaú Unibanco deixou claro que está investindo no futuro. A NeoSpace desenvolve modelos fundacionais de inteligência artificial generativa (GenAI), capazes de trabalhar com grandes volumes de dados e de oferecer uma experiência individualizada para cada cliente do banco.

São modelos diferentes daqueles que a população está habituada a usar, como o ChatGPT e o Gemini. Os modelos fundacionais são chamados de Large Data Models (LDMs), enquanto os modelos mais conhecidos pelos consumidores são os Large Language Models (LLMs).

Quando o Itaú começou a trabalhar com a NeoSpace, há quase dois anos, foi porque identificou a necessidade de construir modelos capazes de processar o grande volume de dados que o banco possui. “Todo esse conhecimento [de produtos financeiros] está inserido no nosso dia a dia, seja ele documentado ou na cabeça das pessoas.

Como é que eu destravo esse conhecimento e digitalizo para que a IA possa conhecer isso? É através da construção de modelos fundacionais”, explicou o diretor de tecnologia da informação (CIO) do banco, Ricardo Guerra, ao Valor. Em janeiro de 2025, o Itaú adquiriu uma participação de 15% na NeoSpace, ao liderar uma rodada de investimento estimada em US$ 18 milhões na startup.

Deste total, cerca de US$ 15 milhões corresponderam ao aporte do banco. Na operação, também firmou um contrato de exclusividade no mercado financeiro brasileiro, enquanto a NeoSpace continuou atendendo a outros setores.

Com a aquisição de 100% das ações da startup por R$ 2,925 bilhões, a expectativa é que a NeoSpace passe a concentrar suas atividades no banco. Esse movimento, no entanto, só será efetivado após a aprovação da transação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do Banco Central (BC).

Nesses quase dois anos de parceria, a tecnologia da NeoSpace contribuiu para aumentar a precisão dos modelos de crédito do Itaú, com ganhos de 10% em comparação com os modelos tradicionais que o banco utilizava com outras tecnologias. O Itaú, no entanto, não pretende medir o retorno do investimento na NeoSpace de forma isolada.

A avaliação é que a experiência do cliente, medida por indicadores como taxa de cancelamento (“churn”), principalidade e satisfação, resulta de um conjunto de ofertas. “Minha ambição é interagir de forma individualizada com cada cliente”, disse Guerra.

“Para isso, eu preciso de modelos capazes de construir essa tecnologia do zero, não adianta eu pegar um modelo pronto e usar. A partir daí, a NeoSpace se torna estratégica para a gente.”

Além da tecnologia, a operação permitirá ao banco incorporar cerca de 80 profissionais da NeoSpace, que possuem “conhecimento extremamente diferenciado”. “A IA vai evoluir de uma forma muito rápida para lugares que a gente não consegue prever, e eu preciso ter a capacidade de desenvolver a tecnologia de banco e me adaptar a essa necessidade do cliente constantemente”, contou o CIO.

“Ter este talento dentro de casa é fundamental para a gente continuar nessa evolução.” Essa evolução começou há cerca de dez anos, quando o Itaú passou a se preparar para acompanhar as mudanças no comportamento dos consumidores.

Em vez de alugar DVDs ou comprar CDs, o público começou a consumir mídia por meio de plataformas digitais. Antecipando que esse movimento também alcançaria o setor financeiro, o banco iniciou a modernização de sua plataforma, com a migração para a nuvem, e mudou seu modelo de trabalho para dar mais agilidade às equipes.

“A história não é diferente agora.” A independência em relação aos modelos disponíveis no mercado não foi um dos motivadores da aquisição, mas um “benefício colateral”.

Os modelos LLM são bem mais comuns no mercado do que os LDM. “Essa capacidade e esse conhecimento estão simplesmente nos dados do Itaú de anos e anos de economia, de sistema financeiro.

O modelo de linguagem não tem esse histórico de Brasil, de clientes daqui para aprender. Ele aprende por meio de livros, autores, conteúdos etc.

Então, são duas inteligências diferentes que trabalham em conjunto.” Como já havia sido comunicado, a NeoSpace continuará operando de forma autônoma, sem integração de equipes com o Itaú.

“Bruno [Pierobon] é o CEO da empresa, continua como CEO, mas, obviamente, vai navegar bastante dentro do banco, porque os casos de uso dele vão estar aqui dentro. Mas a gente quer preservar ao máximo a cultura, a forma de trabalho que a NeoSpace criou ao longo do tempo.”

A relação de longa data com Pierobon também contribui para a confiança entre as partes. O executivo foi um dos fundadores da Zup, empresa de tecnologia cujo controle foi adquirido pelo Itaú em 2019, quando foi avaliada em R$ 575 milhões.

Após a transação, ele permaneceu como CEO da companhia até deixar o cargo para fundar a NeoSpace, em 2024, ao lado de Felipe Almeida e Gustavo Debs, também cofundadores da Zup. Logo que eles fundaram a NeoSpace, o Itaú já se tornou parceiro.

“A gente teve longas conversas na época e decidimos, então, já na partida, no nascimento da NeoSpace, fazer esse contrato de exclusividade no mercado financeiro brasileiro, para que a gente desenvolvesse em conjunto esse tipo de tecnologia que a gente vem conversando”, contou Guerra.

Pierobon avalia positivamente a experiência anterior com a Zup, que, segundo ele, demonstrou haver um “fit” com o Itaú, e está animado com a operação envolvendo a NeoSpace. “É muito raro encontrar — eu não estou falando do Brasil, estou falando do mundo — um banco com uma visão assim tão forte de inovação, de foco no cliente.” Na época da criação da NeoSpace, ele conta que chegou a cogitar montar a empresa fora do país, mas decidiu ficar.

“É uma questão até pessoal. Se você vai para fora e cria tudo lá fora, ninguém melhora onde a gente está.”

Ricardo Guerra, diretor de tecnologia da informação (CIO) do Itaú Unibanco Reprodução/LinkedIn

Publicação Original Valor valor.globo.com
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