‘Com chuva, é difícil desovar corpos nos cemitérios do PCC’, diz especialista sobre cadáveres em sacos encontrados em SP

‘Com chuva, é difícil desovar corpos nos cemitérios do PCC’, diz especialista sobre cadáveres em sacos encontrados em SP - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

A descoberta de dez corpos enrolados em sacos plásticos e cobertores nas ruas de São Paulo, em pouco mais de um mês, alimentou nas redes sociais o rumor de que um serial killer estaria agindo na capital paulista — hipótese já descartada pela Polícia Civil. Nesta semana, a Justiça decretou a prisão de três homens suspeitos de participação nos assassinatos; segundo as investigações, eles têm ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em entrevista ao GLOBO, o historiador e cientista social Joel Paviotti, especialista em crime organizado, analisa por que a tese do serial killer ganhou força na internet mesmo sem evidências. Ele detalha o funcionamento dessa justiça paralela exercida pelas facções e explica os fatores logísticos que levam à desova de corpos em vias públicas. Dez corpos foram encontrados em pouco mais de um mês em SP em cobertores e sacos plásticos. Rapidamente a internet espalhou o boato de um serial killer. Esse boato faz sentido para você? Joel Paviotti — O boato não faz sentido porque não há uma assinatura de serial killer. São sacos diferentes, cobertores, a forma de cortar os corpos e localidades diferentes. Essas vítimas não têm nenhum vínculo, nenhuma identidade em comum e nenhuma característica que as relacionem. Não se pode afirmar isso, por enquanto é só boato, e a polícia até descartou essa possibilidade. Por que essa tese ganhou força, na sua opinião, mesmo sem evidências? Os brasileiros gostam de uma teoria da conspiração? Joel Paviotti — O serial killer causa muito fascínio no brasileiro, principalmente o pessoal que é da década de 90 e cresceu vendo vários filmes sobre isso. Também agora tem muitos filmes e séries relacionados a serial killers, que inclusive fazem bastante sucesso no Brasil. O serial killer em si traz um tom de mistério em um storytelling, que faz com que as pessoas possam compreender mais facilmente o que está acontecendo. A história do serial killer é basicamente um cara que sai para matar e a gente só tem que entender a motivação dele, porque os crimes estão ali expostos. Isso gera um medo também na população porque nunca se sabe onde o cara está e quem pode ser vítima dele. Já as facções criminosas são consolidadas e não geram tanto pânico quanto a presença de um serial killer. A Justiça de SP pediu a prisão de integrantes do PCC que estariam por trás dessas mortes. Mas, em geral, o PCC desova corpos em cemitérios clandestinos, locais distantes e que não chamam atenção da polícia. Por que agora teriam mudado a forma de descarte dos corpos? Joel Paviotti — Esse negócio de desovar as vítimas dentro de sacos não é comum em São Paulo. Só que estamos num período longo de chuvas e muitos desses tribunais ficam pra cima das favelas, em regiões de mata, que acabam sendo de difícil acesso, principalmente durante as chuvas. E mesmo com a chuva, o corpo precisa ser desovado rapidamente, senão ele começa a se decompor, então esses casos dos corpos nos sacos plásticos acontecem. Eles colocam essas pessoas em sacos, cortam partes delas para facilitar o carregamento, para não sujar o carro, e desovam em certas regiões, muitas vezes desertas. E eles matam em uma área e jogam na outra para confundir e atrapalhar o trabalho da polícia. Sintetizando para deixar mais lúcido, tipicamente, a regra é que se enterrem em cemitérios clandestinos. Uma vez que a polícia encontra um ou dois cemitérios clandestinos, você já atrapalha essa logística. E às vezes não dá pra desovar no cemitério clandestino porque há muita chuva, cresce muito mato. Também é uma prática comum do crime enrolar em sacos e cobertores? Joel Paviotti — Na verdade, isso é uma prática comum. Você não quer sujar o seu carro de sangue ou de qualquer coisa, porque você pode se incriminar. É uma espécie de embalagem para colocar o corpo, para poder levar dentro do automóvel e jogar em algum lugar para ser confundido com sacos de lixo comuns. Desse jeito o corpo passa batido por um ou dois dias até que a polícia encontre e investigue. Então isso é basicamente uma questão técnica de cortar o corpo e colocar nos sacos para facilitar a desova, não tem nada a ver com um ritual. O que se sabe sobre as vítimas? Elas tinham dívidas com o PCC, por exemplo? Joel Paviotti — Geralmente, nas periferias, pessoas que cometem crimes de muita aversão, por exemplo estupro, matar senhoras ou crianças, passam por um processo no tribunal do crime, que é uma espécie de instituição ilegal que julga e mata o cara. Você tem uma pessoa que faz esse julgamento, outra que mata e outra que carrega para desovar o corpo e levar para um cemitério clandestino. Existem diversas equipes em São Paulo, principalmente na Zona Leste, onde o PCC é muito forte. Praticamente todas as pessoas ali dos casos, pelo menos até o momento da averiguação da oitava pessoa, tinham passagem pela polícia ou eram acusadas de cometer algum crime. Alguns deviam droga, outros tinham crimes bárbados, e essas pessoas foram mortas, embaladas e jogadas em várias partes de São Paulo. Mas, lembrando que mesmo essas pessoas tendo passagem pela polícia e a suspeita de que deviam ao PCC, vale deixar claro que elas não tinham nenhum vínculo entre elas. Dez corpos em pouco mais de um mês parece um número expressivo. Mas é muito mesmo? É possível fazer uma comparação com outros meses do ano? Joel Paviotti — É muito difícil conseguir fazer esse levantamento, porque não temos dados de quantas pessoas são executadas pelo PCC mensalmente. São crimes cometidos em vários lugares diferentes, muitos corpos podem ter sido desovados e ocultados e não sabemos essa quantidade. O que sabemos é que muito provavelmente esses corpos estão sendo desovados porque aconteceu algum problema nesses cemitérios clandestinos. Pode ser a chuva, pode ser a descoberta e o fechamento de vários cemitérios clandestinos, não dá pra saber. Mas é uma quantidade significativa de corpos, com certeza absoluta. * Estagiária sob orientação de Aline Ribeiro

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