'Colonialismo cartográfico': Entenda por que mundo ainda usa mapa do século XVI e saiba quem o desenhou

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A Assembleia Geral das Nações Unidas votou na sexta-feira a favor de uma resolução liderada por vários países africanos para adotar um mapa que amplia o continente africano, ao mesmo tempo que reduz a América do Norte e a Europa. Visando uma "representação mais precisa" das massas continentais, a resolução apresentada pelo Togo foi apoiada por 164 países, enquanto os Estados Unidos votaram contra e outros seis países se abstiveram (Estônia, Geórgia, Lituânia, República da Moldávia, Sérvia e Ucrânia). Entenda: ONU aprova resolução para adotar novo mapa-múndi que mostra tamanho real da África Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no Whatsapp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países — Por vários séculos, projeções cartográficas utilizadas em livros didáticos, na mídia, em plataformas digitais e em documentos oficiais não refletem com precisão a verdadeira extensão de nossos continentes. Seu uso para fins de informação geral ou educacional continua a influenciar a percepção que gerações inteiras têm sobre a aparência do mundo — disse o ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey. — A persistência dessas distorções contribuiu para minimizar simbolicamente o tamanho da África, assim como o de outras regiões, criando uma visão desequilibrada da geografia global.

Em suas considerações, a delegação americana afirmou que a resolução apresentada pelo Togo "zomba do trabalho e do propósito" das Nações Unidas, acrescentando que, embora a iniciativa seja "apresentada como um esforço inócuo para atualizar as proporções cartográficas", os EUA "veem claramente" que ela "não pode ser dissociada do projeto ideológico muito maior e mais radical do qual faz parte".

A campanha do Togo promove o uso do design Equal Earth, de 2018, mais preciso, desenvolvido por uma equipe internacional de cartógrafos. O proposto pelo IBGE, que põe o Brasil no centro do mundo, além de inverter norte e sul globais, também é o da projeção Equal Earth. Distorção eurocêntrica Por ser um globo, é matematicamente impossível projetar a superfície curva da Terra em um plano, como papel ou tela, o que necessariamente leva a distorções em qualquer mapa. A forma como essas distorções são feitas é arbitrária, dependendo do uso que se pretende dar ao mapa.

A representação atual amplamente utilizada foi criada pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator em 1569 para ajudar marinheiros pelos mares. Assim, usando seu mapa-múndi, um navegador poderia saber exatamente em que direção deveria seguir segundo a bússola para ir de um ponto a outro. Gravura de retrato de Gerard Mercator, feita por Nicolau III de Larmessin e publicada em 1739 WikiMedia Commons O problema é que, embora a projeção foque em representações precisas das formas e ângulos das massas terrestres, seus tamanhos relativos são frequentemente imprecisos.

Por ser uma projeção cilíndrica de um globo, apresenta os meridianos (linha imaginária vertical que vai do Polo Norte ao Polo Sul) como paralelos equidistantes, o que não corresponde à realidade (já que essa distância se encurta à medida em que as linhas se afastam da Linha do Equador). Entenda: França se une à África por mapas-múndi mais representativos e abandona projeção usada há séculos Como resultado, seu mapa, que também é eurocêntrico, distorce as áreas próximas aos polos enquanto encolhe as regiões equatoriais, fazendo com que a Europa e a América do Norte pareçam muito maiores do que realmente são, enquanto a África e a América do Sul parecem menores.

A Groenlândia, por exemplo, aparenta ter o mesmo tamanho que a África e a América do Sul, quando, na realidade, o continente africano é 14 vezes maior que a ilha ártica, e o Brasil sozinho é quatro vezes maior.

A projeção de Mercator é o padrão em aplicativos como o Google Maps, e são os que mais moldaram nossa imagem mental do planeta. Estereótipos ocidentais Historiadores e geógrafos afirmam há anos que a projeção de Mercator está enraizada em estereótipos ocidentais, enquanto ativistas cunharam o termo "colonialismo cartográfico". Alguns argumentam que o mapa moldou sutilmente as relações de poder internacionais ao minimizar a presença física do Sul Global e ampliar visualmente os países do Hemisfério Norte, ao mesmo tempo em que reduz as regiões equatoriais.

Isso reforçou, para alguns especialistas, vieses sistêmicos no comércio internacional, nas prioridades de desenvolvimento e nas estruturas educacionais.

Em março: ONU declara tráfico de africanos escravizados como ‘crime mais grave contra a Humanidade’ Em 1973, o historiador Arno Peters, que foi um dos críticos mais proeminentes da projeção de Mercator, lançou o mapa-múndi de Peters, baseado na projeção de Gall-Peters. Ele tem sido frequentemente usado como alternativa ao mapa de Mercator.

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