O presidente argentino, Javier Milei, fez das redes sociais uma poderosa arma política para chegar ao poder em 2023. Agora, porém, o desgaste dessa máquina digital expõe os desafios que ele enfrenta para conseguir a reeleição no próximo ano. As menções a Milei nas plataformas digitais caíram para 3,7 milhões em junho, 72% menos que o pico de 12,6 milhões registrado em fevereiro de 2025, segundo novo relatório da consultora Ad Hoc.
Argentina: Veja quanto custa morar no país e como funciona a imigração facilitada para brasileiros via Mercosul Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no Whatsapp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Interações com suas publicações no X, como reposts e “curtidas”, caíram 62% desde que ele assumiu a Presidência, declínio que reflete um discurso político cada vez mais à deriva. Os avanços econômicos estagnaram, sua agenda legislativa enfrenta obstáculos e os escândalos de corrupção obscureceram as diferenças entre o líder libertário e o establishment político que ele prometeu erradicar. Sua imagem pública também está próxima dos níveis mais baixos.
— Milei soube usar as redes sociais porque respondia muito bem à dinâmica delas — disse Kevin Grunbaum, diretor digital da Ad Hoc. — O fato de hoje estar perdendo protagonismo é um sinal claramente negativo. A queda nas interações é um sintoma do desgaste que também estamos vendo na opinião pública. Gráfico mostra trajetória de queda no volume mensal de menções ao presidente Javier Milei nas redes sociais entre 2024 e 2026 O Globo/Editoria de Arte O escândalo que eclodiu em fevereiro de 2025, depois que Milei promoveu uma memecoin — ativo que teve um aumento exponencial em seu preço após o argentino mencioná-la no X, mas que despencou de valor horas depois —, marcou um ponto de inflexão, segundo a Ad Hoc. Desde então, a conversa sobre o presidente tem sido cada vez mais dominada por acontecimentos fora de seu controle e menos pela agenda que ele busca promover.
As crescentes divisões dentro da máquina digital de Milei se assemelham à fragmentação da direita nas redes sociais dos Estados Unidos em torno da guerra do presidente americano, Donald Trump, no Irã. Pesquisadores também determinaram que, em plataformas como o X, predominam os comentários conservadores, o que torna ainda mais significativa a perda de influência de Milei. O gabinete de imprensa do argentino não comentou o assunto.
Surgimento das tensões As tensões vieram à tona em 2025, quando Daniel Parisini, um influenciador libertário de destaque conhecido como Gordo Dan, que apresenta podcasts com altos funcionários do governo, começou a criticar abertamente integrantes da administração. As disputas se aprofundaram neste ano, quando setores da base digital de Milei começaram a questionar cada vez mais integrantes da coalizão governista.
Guga Chacra: Direita de Meloni vs direita de Trump Enquanto isso, alguns dos principais arquitetos da estratégia do presidente nas redes sociais enfrentam acusações criminais ou cometeram erros evitáveis. Fernando Cerimedo, que comandou a campanha de Milei nas redes sociais com um exército de robôs em 2023, foi preso na Bolívia no mês passado por uma suposta tentativa de feminicídio. Outro importante aliado digital, o ex-porta-voz Manuel Adorni, renunciou em junho em meio a um escândalo por suposto enriquecimento ilícito.
No início desta semana, a embaixada chinesa na Argentina criticou o diretor de Comunicação Digital de Milei, Juan Pablo Carreira, por especular que uma empresa estatal chinesa e o Partido Comunista eram responsáveis pelo colapso de uma geleira na fronteira com o Nepal que deixou milhares de mortos, feridos e desaparecidos. ‘Produto das redes’ Milei já se descreveu como um “produto das redes sociais”. Antes de chegar à Presidência, ganhou notoriedade graças a combativas aparições na televisão, vídeos virais e uma presença incessante na internet. Seus insultos, memes e ataques contra a “casta” — termo que usa para se referir ao establishment político argentino — foram uma peça central dessa estratégia.
Entenda: Políticos e artistas pedem que Javier Milei seja declarado ‘persona non grata’ em Paris As redes sociais também permitiram que Milei compensasse a falta de uma estrutura política tradicional e sua presença limitada no território. Ele percorreu relativamente pouco o país durante a campanha de 2023, mas venceu na maioria de suas 23 províncias. Desde que assumiu, ainda não visitou nove províncias, o que pode tornar mais relevante a perda de alcance digital enquanto se prepara para buscar a reeleição.
Enquanto presidente, Milei também tem usado as redes sociais não apenas para promover suas ideias e políticas, mas também como arma para atacar publicamente seus adversários. Em abril de 2024, o senador Martín Lousteau levantou timidamente a mão durante uma votação para aumentar drasticamente os salários dos parlamentares. Milei aproveitou o gesto para apresentá-lo como exemplo do distanciamento das elites políticas. A imagem positiva de Lousteau caiu de 38% em janeiro de 2023 para 17% em junho de 2024.
Agora, porém, os ataques de Milei nas redes sociais podem estar beneficiando seus adversários em vez de marginalizá-los. Ele criticou duramente a líder esquerdista Myriam Bregman, mas ela se manteve entre os políticos mais populares da Argentina neste ano.
— Agora existe uma sensação de decepção — disse Sergio Berensztein, diretor da consultoria política que leva seu nome em Buenos Aires. — À medida que os escândalos se acumularam e a economia começou a desacelerar, a militância digital perdeu a autoridade moral para continuar promovendo uma agenda tão agressiva, e o presidente é praticamente o único que ainda a conduz. Núcleo sólido Ainda assim, a máquina digital libertária não desapareceu, e a oposição não conseguiu capitalizar plenamente a perda de apelo de Milei na internet. Conteúdos contra o presidente ganharam espaço no YouTube, mas os políticos tradicionais da oposição não lideram esse crescimento. — O governo perdeu alcance, mas seu núcleo continua sólido apesar do descontentamento social — disse Lucas Malaspina, diretor da Sustantiva, uma consultoria de dados e estratégia. Quais são os países mais seguros para morar? Spoiler: EUA não estão entre os primeiros Uma questão fundamental no governo argentino é quem controla a mensagem de Milei nas redes. O assessor Santiago Caputo e Karina Milei, irmã e principal confidente do presidente, continuam disputando o controle da estratégia digital, segundo duas fontes. A questão é tão delicada que, na semana passada, o porta-voz Adrián Ravier anunciou que uma pessoa próxima de Karina assumiria o comando da área, mas voltou atrás poucas horas depois. Analistas políticos consideram que o problema pode ser temporário enquanto a oposição continuar sem encontrar uma mensagem clara. Em última instância, a situação econômica dos argentinos provavelmente terá mais peso do que as redes sociais. — As redes sociais são uma ferramenta fundamental. Portanto, se isso melhorar um pouco e a oposição continuar tão adormecida e descoordenada quanto até agora, talvez eles consigam seguir em frente — disse Berensztein. — Especialmente se conseguirem melhorar, ainda que marginalmente, a percepção da opinião pública sobre a economia.
O Globo