Clientes sem móveis concentram 62% da dívida da Kitchens

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Fonte da notícia: Valor Valor

Cerca de 950 consumidores que pagaram por móveis planejados e não receberam os produtos concentram pelo menos R$ 187 milhões em dívidas da Kitchens, fabricante de móveis de alto padrão que pediu recuperação judicial na quarta-feira (28). O valor representa mais de 60% dos R$ 299,9 milhões em créditos sujeitos ao processo, segundo levantamento do Valor na relação de credores apresentada pela própria empresa à Justiça.

A contagem considera os créditos identificados como “pedido não entregue”. O peso desses consumidores pode influenciar o resultado da votação do plano de recuperação.

Na classe dos credores quirografários, que inclui os clientes, a aprovação depende da maioria dos credores presentes à assembleia e de mais da metade do valor dos créditos representados. “Com centenas de consumidores, eles podem decidir a votação por cabeça, aprovando ou bloqueando o plano”, diz Ana Carolina Monteiro, que chefia a área de reestruturação do VNP Advogados.

Segundo ela, a participação dos clientes é um desafio, já que costumam estar dispersos e comparecer pouco às assembleias. Na petição apresentada à Justiça, a Kitchens, fundada em 1964 e com fábrica em Guarulhos (SP), atribui a crise à combinação de juros altos, retração nas vendas de móveis e encarecimento do crédito bancário.

A companhia afirma que seu modelo de negócio, no qual os móveis são vendidos antes de serem produzidos, depende da entrada de recursos de novos pedidos para financiar a fabricação dos contratos anteriores. “Quando a demanda retrai e o crédito encarece, a empresa passa a depender de financiamento externo para entregar os pedidos já contratados”, disse a Kitchens no documento.

A fabricante sustenta que a crise “não decorre de perda de mercado da marca”, mas de uma dívida “que se tornou incompatível, em prazo e custo, com a geração de caixa da operação”. O cenário também é desfavorável para a indústria moveleira.

De janeiro a agosto, as vendas de móveis e colchões no varejo caíram 2,4% em volume no país, na comparação com igual período de 2025, segundo dados do IEMI enviados pela Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel). Em São Paulo, principal mercado da Kitchens, a retração foi de 7,5%.

O setor também acumula redução de 4,7% no número de empregos em 12 meses. Os balanços anexados ao pedido mostram o impacto da crise nas contas da empresa.

Em 2025, a fábrica e a companhia responsável pela administração das lojas somaram prejuízo de R$ 64,6 milhões, com receita líquida de R$ 194 milhões. As despesas financeiras consumiram R$ 30,4 milhões no período.

No fim do ano, o grupo tinha R$ 124,5 milhões recebidos de clientes por pedidos ainda não entregues. No início de 2026, segundo a petição, a rede contava com dez lojas próprias e seis franquias.

Para os consumidores, o pedido de recuperação judicial não encerra automaticamente os contratos. “O simples ajuizamento da recuperação judicial não significa que a empresa esteja impossibilitada de cumprir suas obrigações contratuais”, afirma Carolina Mascarenhas, sócia da área de reestruturação e insolvência do Demarest.

Segundo ela, há fundamento jurídico para que o consumidor continue exigindo a entrega dos móveis, já que a fabricação e a entrega fazem parte da atividade da Kitchens. A possibilidade, porém, depende das condições de cada contrato, do estágio de produção e da capacidade da empresa de cumprir os pedidos.

Monteiro afirma que o plano de recuperação pode prever a entrega dos móveis como forma de pagamento, desde que a fábrica tenha capacidade e capital de giro para produzir e que o cliente não tenha rescindido o contrato. Para quem optar pela devolução do dinheiro, as condições podem ser desfavoráveis.

“Os credores quirografários costumam ter os piores termos. É comum ver deságios de 50% a 80% ou mais, carência de 12 a 24 meses e pagamento em 8 a 15 anos”, diz.

Segundo a advogada, alguns planos criam uma subclasse de pequenos credores, com pagamento integral até determinado limite, o que pode beneficiar os consumidores. Ela recomenda cautela aos clientes que ainda têm parcelas a pagar, diante do risco de não receberem os produtos.

O Procon-SP orienta que o pedido de recuperação judicial não suspende automaticamente as obrigações da empresa nem altera os direitos previstos nos contratos. Segundo o órgão, prazos, entregas e canais de atendimento devem continuar sendo respeitados, assim como os pagamentos por parte dos consumidores.

Quem tiver problemas, deve procurar inicialmente a empresa e, caso não obtenha retorno, pode recorrer ao órgão de defesa do consumidor de sua cidade ou Estado ou ao Poder Judiciário. O Procon-SP recomenda reunir documentos que comprovem a contratação e a situação do pedido.

A pedido do Valor, o Procon-SP informou que a Kitchens Indústria e Comércio Ltda. recebeu 17 reclamações até setembro de 2026.

Foram quatro em 2025 e três em 2024. A pressão sobre a empresa também aparece no número de processos judiciais.

Segundo a relação apresentada pela Kitchens, o grupo responde a 366 ações abertas em 2026, ante 47 em todo o ano de 2025. Das ações deste ano, 155 são trabalhistas.

A lista de credores também prevê verbas rescisórias para cerca de 280 funcionários, com a observação “a confirmar no desligamento”. Entre os bancos, Sofisa, Itaú, Bradesco e Safra estão entre os maiores credores.

O pedido de recuperação ainda aguarda análise da Justiça. Em decisão à qual o Valor teve acesso, a juíza Larissa Gaspar Tunala, da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, determinou o encaminhamento do caso a uma vara regional empresarial, competente para Guarulhos, onde fica a fábrica.

A Kitchens também pediu a suspensão das cobranças contra o grupo, medida que ainda não havia sido decidida. Se o processamento da recuperação judicial for deferido, a empresa terá 60 dias para apresentar o plano aos credores.

Procurados, a Kitchens e seus advogados não responderam até a publicação desta reportagem.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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