Em uma cidade que ajudou a transformar o sertanejo em um dos gêneros mais populares do país, Geovanna Simão Merzian, conhecida nas redes sociais como Safí, escolheu outro caminho. Nascida e criada em Goiânia, a cantora encontrou no pop a linguagem que mais combina com sua personalidade.
Entre as referências que recebeu desde criança e as divas pop que descobriu por conta própria, foi construindo uma identidade que hoje se transforma em uma carreira de longo prazo. A escolha pelo pop, porém, não é a única particularidade da trajetória de Safí.
Antes de existir a cantora, havia uma menina que gostava de música, escrevia, tocava violão e ainda não sabia exatamente o que faria da própria vida. “Eu sempre fui apaixonada por música, mas eu nunca olhei de uma forma profissional.
Até meus 19, 20 anos, eu fazia música, acordava pensando nisso, dormia pensando nisso. Mas era um hobby.
Era um hobby que eu passava o dia inteiro pensando nele”, contou à reportagem do Jornal Opção. Nascida e criada em Goiânia, Safí escolheu o pop como principal linguagem para construir sua identidade artística | Foto: Mylenna Scheidegger/Jornal Opção
O primeiro contato mais concreto com a música veio ainda na infância. Aos 7 anos, aprendeu a tocar violão e, a partir do instrumento, começou também a desenvolver o canto.
Na escola, encontrava maneiras de estar no palco sempre que podia. Cantava, escrevia e gostava de performar, mas ainda enxergava tudo aquilo como uma atividade paralela à vida que imaginava construir.
Havia, afinal, outros caminhos considerados mais seguros. Safí se formou em Direito e chegou a exercer a profissão de advogada apenas no sentido formal: nunca atuou na área.
A música continuava ocupando espaço, mesmo quando ainda não tinha nome de carreira. Aos 17 anos, a mudança para São Paulo acabou aproximando as duas coisas.
Ela foi para a capital paulista para estudar e trabalhar, mas encontrou também um ambiente artístico muito maior do que aquele que conhecia até então. Passou a conviver com artistas, conhecer outras trajetórias e enxergar de outra maneira uma possibilidade que até aquele momento parecia distante.
O incentivo de outra artista também ajudou a transformar a dúvida em decisão. “Ela falou: ‘Por que você não tenta? Você é muito boa, você é muito talentosa, dá as caras, tenta’”, conta.
“Quando eu fui para São Paulo, eu conheci esse meio artístico ainda mais aflorado. Conheci muitos artistas lá e comecei a ver isso de outra forma.
Falei: ‘Peraí, eu sou apaixonada por isso, eu vou dormir pensando nisso, eu acordo pensando nisso. Eu só tenho essa vida para tentar, então eu vou tentar’”, lembra.
Foi com essa iniciativa e coragem que Safí, em 2020, começou com as publicações de covers na internet. A partir dali, o hobby ganhou outra dimensão.
Não houve uma explosão imediata nem um momento único em que tudo mudou. O reconhecimento veio aos poucos, como uma escada que Safí continua subindo.
Aos poucos, Geovanna também foi deixando espaço para que Safí aparecesse. O nome artístico passou a representar não apenas uma cantora, mas uma parte dela que sempre existiu e que agora encontra liberdade para crescer.
“Eu sinto que a Safí veio para encontrar aquela jovenzinha, aquela criança que sempre quis ser artista, que sempre quis transbordar. E eu encontrei nisso a Safí, essa pedra que eu estou lapidando cada dia mais”, explica.
A diferença entre as duas está justamente na maneira de enxergar o mundo, como revela Safí à reportagem. Geovanna é mais doce, prática e pé no chão.
Safí é inquieta, cheia de ideias e disposta a sonhar alto. Não existe, porém, uma disputa entre as duas.
“Então, uma precisa da outra. Uma coexiste com a outra.”
É nessa convivência entre as duas que Safí encontra a liberdade para fazer aquilo que sempre quis: ser artista. E é assim, já assumindo esse nome e essa identidade, que ela decidiu fazer pop em Goiânia.
1/3 O pop em terra sertaneja
A escolha pode parecer curiosa em uma cidade cuja identidade musical está profundamente ligada ao sertanejo. Para a cantora, entretanto, não existe uma tentativa de negar a origem.
Pelo contrário. O sertanejo também faz parte da formação que ela carrega, mesmo que não seja o gênero que escolheu para se apresentar ao público.
“Eu cresci escutando as divas pop, isso foi por uma busca minha. Só que dentro de casa tive muita influência musical do meu pai e da minha mãe, principalmente do meu pai.
Meu pai é apaixonado por música italiana e dentro de casa eu escutei muito sertanejo também”, conta. Essa mistura aparece até hoje em suas composições.
Safí acredita que o pop combina mais com a própria personalidade, especialmente pela relação com a performance, o teatro e o lado lúdico da música. Mas reconhece que a sonoridade que ouviu desde criança também deixou marcas.
“Tem muito do sertanejo na minha arte também, porque eu cresci escutando isso. Eu me pego, em várias músicas minhas, com melodias de sertanejo raiz, com a caneta um pouco do sertanejo, desse sertanejo mais sofrência”, explica.
O gênero, no entanto, não seria capaz de traduzir tudo o que ela pretende colocar em cena. “Por personalidade, se me falasse assim: ‘Por que você não faz sertanejo?’, eu te responderia curto e grosso que: um pouco não ia engolir, porque não sou eu”, explica.
“Não é minha personalidade real. Eu acho que é mais por afinidade, energia, o que eu gosto mesmo de escutar e como eu sou.
É o pop total.” Do primeiro lançamento à independência
Foi nesse universo que surgiu “Profecia”, primeira música lançada por Safí, em 2023. A faixa ganhou espaço nas rádios do Rio de Janeiro e, depois, chegou a outras regiões.
No fim do ano passado, segundo a cantora, alcançou o Top 10 Pop Nacional da Crowley, aparecendo entre músicas de nomes como Ludmilla e Anitta. O resultado aconteceu quando Safí ainda trabalhava com uma equipe do Rio de Janeiro.
Ela conta que a estratégia começou pela divulgação nas rádios cariocas e acabou criando um efeito dominó. A cantora chegou a viajar pelo interior do estado para acompanhar de perto a repercussão.
“Foi um momento muito feliz para mim. Eu fiquei muito contente, fiquei muito orgulhosa.
Foi esse momento de começar a galgar, de começar a ver a sementinha ali germinando”, lembra. Depois daquela experiência, no entanto, Safí decidiu mudar a maneira de conduzir a própria carreira.
Hoje, de volta a Goiânia, ela trabalha de forma totalmente independente. Sem a antiga equipe do Rio, passou a assumir também a responsabilidade pela divulgação e pelo planejamento dos próprios lançamentos.
“Hoje em dia eu não estou mais com a minha equipe do Rio. Tenho muito carinho por eles, mas agora estou aqui em Goiânia, independente, usando totalmente a força das redes sociais para disseminar o meu trabalho”, afirma.
A independência não significa falta de planejamento. Pelo contrário.
Safí já tem o primeiro álbum pronto e diz possuir material suficiente para cerca de dois anos de lançamentos. Um projeto que havia sido pensado como um EP de quatro faixas também mudou de formato: “Um Nó”, que já foi lançado, seria o single do trabalho, mas as outras três músicas chegarão separadamente, como singles.
Safí ainda revelou ao Jornal Opção que lançará uma música em feat com um cantor, mas que, por enquanto, mantém segredo. A estratégia, agora, é lançar uma música por vez e permitir que cada uma encontre seu próprio caminho.
Esse planejamento é parte de uma ambição maior. Safí não esconde que gostaria de ter um grande hit, e sabe que uma música capaz de explodir pode mudar a trajetória de um artista.
Mas não quer que esse eventual sucesso seja o ponto final de sua história. “Eu acredito que vai acontecer alguma hora, porque é o caminho normal dos artistas, alguma coisa sua viraliza muito, alguma música sua vira um foguete.
Mas eu tenho muito comigo, em construção de carreira, essa coisa de longo prazo. Um passo de cada vez”, diz.
O sonho, para ela, não termina no primeiro grande sucesso. “Eu quero estar daqui a 40 anos fazendo uma turnê com a Marisa Monte”, afirma.
“Eu quero ser a Safí que as pessoas conhecem pelo meu repertório, que eu tenho discografia. Eu não quero ser a artista só daquele hit.”
A cantora que escreve o que sente Além de cantar, Safí encontrou na composição uma das principais formas de organizar aquilo que sente.
A facilidade com a escrita apareceu ainda na adolescência, quando começou a transformar pensamentos e experiências em músicas. Hoje, ela acumula mais de 300 composições que ainda não foram lançadas e mantém uma rotina intensa de criação.
Entre tantas músicas guardadas, algumas carregam histórias que ficaram para trás. É o caso de “Um Nó”, faixa que nasceu durante o período em que Safí estava no Rio de Janeiro preparando o EP.
A música surgiu da vontade de voltar à sonoridade mais orgânica dos primeiros covers que fazia no violão, mas acabou ganhando um significado pessoal. No estúdio, ao lado do produtor Trindade, decidiu escrever mais uma vez sobre a mesma pessoa que havia inspirado suas músicas durante cerca de três anos.
Era, segundo ela, uma espécie de despedida de uma história que nunca chegou a acontecer como imaginava. “Eu sou viciada em amores platônicos”, brinca.
A relação que existia mais na imaginação do que na realidade acabou alimentando parte de sua produção, até que escrever “Um Nó” serviu também como uma forma de colocar um ponto final naquela história. Depois da música, Safí nunca mais escreveu sobre ele.
Os dois também deixaram de se falar e de se seguir nas redes sociais. Hoje, ele vive outra história, casado com a mulher que também fazia parte daquele antigo triângulo e pai de uma criança.
No fim, “Um Nó” acabou sendo mais do que uma música sobre um amor não vivido. Foi uma forma de transformar aquilo que ficou preso durante anos em criação.
E talvez seja justamente nessa capacidade de transformar sentimentos em música que Safí encontre uma das partes mais essenciais da artista que decidiu construir. “Um Nó” acabou sendo mais do que uma música sobre um amor não vivido.
Lançada em junho de 2025, a faixa já ultrapassa 1 milhão de visualizações no YouTube, onde o clipe soma mais de 1,01 milhão de acessos. No Tiktok, Safí já soma quase 35 mil seguidores e quase 60 mil no Instagram.
Mais do que os números, a canção representa a capacidade de Safí de transformar experiências pessoais em criação. Foi escrevendo sobre aquilo que sentia que ela encontrou uma forma de encerrar uma história que, durante anos, existiu mais na imaginação do que na realidade.
E talvez seja justamente nessa capacidade de transformar sentimentos em música que Safí encontre uma das partes mais essenciais da artista que decidiu construir. Leia também: Goiano de Anápolis, Gabriel Nandes é escolhido para representar Goiás no Estrelas da Casa
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