Cinco filhotes de orangotango, todos com menos de 18 meses, foram resgatados em uma floresta no leste da Índia, em um caso que levantou suspeitas de tráfico internacional de animais silvestres. Encontrados abandonados na região florestal de Udayapur-Talsari, no distrito de Balasore, no estado de Odisha, em 8 de setembro, os primatas foram encaminhados ao zoológico de Nandankanan, onde permanecem em quarentena, sob observação veterinária. Moradores acionaram o Serviço Florestal Indiano depois de encontrar os animais por volta das 18h, no horário local. Segundo o agente florestal Pratik Indalkar, os filhotes estavam pouco ativos quando foram localizados, mas receberam alimento e atendimento inicial. Cerca de mil moradores teriam se reunido no local, surpresos com a presença de uma espécie que não faz parte da fauna nativa da região. A Divisão de Vida Selvagem de Baleshwar confirmou o resgate em uma publicação na rede social X, em 10 de setembro. De acordo com o órgão, os cinco animais estavam saudáveis no momento do atendimento, receberam frutas e medicamentos e foram transferidos para o zoológico para acompanhamento médico. A chegada ao local ocorreu em 9 de setembro. — Embora sejam absolutamente lindos, é devastador vê-los deslocados para tão longe de seu verdadeiro lar — afirmou Indalkar em uma publicação no Instagram.
Suspeita de tráfico internacional As autoridades investigam como os orangotangos chegaram à floresta indiana. A principal hipótese é que os filhotes tenham sido abandonados durante uma operação de tráfico de animais silvestres. Segundo Prakash Chand Gogineni, conservador-chefe regional de florestas, o caso pode ter sido resultado de uma operação de transporte malsucedida. — Parece ter sido uma operação de trânsito que deu errado — disse Gogineni ao jornal The Times of India. Dos cinco filhotes, três são machos e duas são fêmeas. Apesar das suspeitas, as autoridades afirmam que ainda não há provas conclusivas de contrabando. — Como seu habitat natural são as florestas tropicais, eles não poderiam ter migrado para lá naturalmente, o que indica uma possível intervenção humana. As investigações estão em andamento para determinar como chegaram à região — afirmou Indalkar. Segundo informações divulgadas pela CNN, o governo da Indonésia considera que as evidências disponíveis apontam para a ilha de Sumatra como provável local de origem dos animais. Os orangotangos são nativos das ilhas de Sumatra e Bornéu, no Sudeste Asiático, milhares de quilômetros distantes do estado indiano de Odisha. Captura pode ter custado a vida das mães Especialistas em conservação acreditam que os filhotes provavelmente foram retirados da natureza. A captura de orangotangos tão jovens costuma envolver a morte das mães, que protegem os filhotes de forma intensa e raramente os deixam sozinhos. — Para mim, é quase certo que eles foram retirados da natureza. Conseguir cinco filhotes de orangotango da mesma idade seria extraordinariamente difícil, mesmo para as instalações de reprodução mais bem equipadas do mundo — afirmou Lionel Hachemin, diretor global do programa de combate a crimes contra a vida selvagem do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal. Binur D. Naibaho, diretor de paisagens sustentáveis do Centro de Informações sobre Orangotangos, organização não governamental sediada no norte de Sumatra, destacou a relação entre a captura dos filhotes e a morte das fêmeas adultas. — Se você encontra um filhote de orangotango, significa que uma mãe orangotango morreu — afirmou. Segundo Naibaho, moradores de algumas comunidades de Sumatra podem receber até 15 milhões de rúpias indonésias, o equivalente a cerca de US$ 846, para capturar um filhote e entregá-lo a intermediários do mercado ilegal. Femke den Haas, cofundadora e diretora da organização indonésia Jakarta Animal Aid Network, explicou que as fêmeas enfrentam os invasores para proteger os filhotes. — Não há possibilidade de a mãe abandonar o filhote. Ela vai lutar por ele até o fim — disse. Depois da captura, os animais podem passar de uma a três semanas em trânsito até chegar à Índia, segundo Hachemin. As condições de transporte dos cinco filhotes ainda são desconhecidas, mas especialistas relatam que animais traficados frequentemente enfrentam confinamento em caixas escuras, fome, desidratação e maus-tratos. Recuperação no zoológico No zoológico de Nandankanan, os cinco filhotes permanecem em quarentena e recebem acompanhamento veterinário diário. A equipe monitora a temperatura e o estado de saúde dos animais, que também ganharam bichos de pelúcia para ajudar a reduzir o estresse. Segundo Pradeep Mirase, vice-diretor do zoológico, os filhotes ainda não receberam nomes, mas começaram a reconhecer os cuidadores. Os mais velhos já conseguem escalar estruturas e balançar de um lado para outro, enquanto os menores permanecem agarrados uns aos outros. O transporte até o zoológico exigiu cuidados especiais para evitar ferimentos e reduzir o estresse. Os responsáveis utilizaram materiais para amortecer os impactos do trajeto, disponibilizaram objetos para os filhotes interagirem e levaram equipamentos para lidar com possíveis problemas de ventilação. — Precisávamos oferecer acolchoamento e algo com que eles pudessem brincar, porque ficariam estressados sem isso. Havia funcionários dentro do veículo e caixas térmicas isoladas à disposição, já que não tínhamos certeza sobre a ventilação — relatou Indalkar. Os orangotangos são classificados como criticamente ameaçados de extinção. Segundo dados citados pelo The Times of India e pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), a população estimada da espécie é de aproximadamente 118,6 mil indivíduos. Os primatas têm uma das relações maternas mais duradouras entre os mamíferos: as mães podem criar os filhotes por até nove anos, período em que ensinam habilidades essenciais para a sobrevivência, como encontrar alimentos, se deslocar pelas copas das árvores e reconhecer perigos. O caso dos cinco filhotes evidencia os riscos do tráfico internacional de animais silvestres, uma atividade criminosa que retira espécies ameaçadas de seus habitats e as transporta por redes de intermediários. Embora os animais resgatados tenham recebido atendimento, ainda não há previsão de quando poderão deixar a quarentena nem informações definitivas sobre seu destino a longo prazo.
O Globo