Cientistas examinam cérebro de 46 crianças e encontram ligação entre ultraprocessados, maior reação a fotos de comida e ganho de gordura

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O que acontece no cérebro de uma criança quando ela vê a fotografia de um biscoito ou de uma porção de batatas fritas? Para investigar essa reação, cientistas dos Estados Unidos colocaram 46 crianças dentro de aparelhos de ressonância magnética e observaram como seus cérebros respondiam às imagens de alimentos.

Os resultados revelaram uma ligação interessante: aquelas que consumiam mais alimentos ultraprocessados apresentavam uma resposta mais intensa em uma região cerebral relacionada à motivação e à recompensa. Essa atividade, por sua vez, estava associada a um maior aumento de gordura corporal durante o acompanhamento.

A descoberta foi publicada em 23 de outubro de 2026 na revista científica JAMA Network Open e faz parte de uma pesquisa conduzida pela Universidade do Sul da Califórnia (USC). O estudo não demonstra que os ultraprocessados modificam diretamente o cérebro infantil, mas oferece novas pistas sobre como os hábitos alimentares podem estar relacionados à maneira como crianças reagem aos estímulos da comida.

O experimento envolveu meninos e meninas de 7 a 10 anos, todos com peso considerado saudável no início da pesquisa. A escolha permitiu investigar possíveis relações entre alimentação e atividade cerebral antes do aparecimento de excesso de peso.

Durante os exames, as crianças observaram fotografias de alimentos considerados especialmente apetitosos, incluindo biscoitos e batatas fritas. Também foram apresentadas imagens de objetos comuns, como lápis e bancos, para que os pesquisadores pudessem comparar as reações.

Os cientistas utilizaram uma técnica chamada ressonância magnética funcional, capaz de identificar alterações na oxigenação do sangue associadas à atividade de diferentes regiões cerebrais. Foi assim que encontraram uma diferença importante no estriado dorsal, uma área envolvida nos mecanismos de recompensa, motivação e formação de hábitos.

Nas crianças que consumiam mais ultraprocessados, essa região apresentava uma resposta mais intensa diante das fotografias de alimentos. Isso não significa, necessariamente, que elas sentissem mais fome, mas indica diferenças na forma como seus cérebros respondiam àqueles estímulos.

Os exames foram realizados depois de as crianças terem se alimentado, justamente para reduzir a influência da fome imediata sobre os resultados. Além das imagens cerebrais, os cientistas investigaram o que as crianças costumavam comer.

Para isso, reuniram informações sobre os alimentos e bebidas consumidos em dois períodos diferentes de 24 horas, com a participação dos responsáveis. Os produtos foram classificados conforme o sistema NOVA, que considera o grau e a finalidade do processamento industrial dos alimentos.

Entre os exemplos de ultraprocessados estão refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, macarrão instantâneo e determinados cereais matinais. São produtos frequentemente formulados com ingredientes e aditivos pouco utilizados na cozinha doméstica.

Um número chamou a atenção: em média, 67,7% das calorias consumidas pelas 46 crianças vieram de ultraprocessados. Esse percentual corresponde apenas ao grupo estudado, não à alimentação de todas as crianças dos Estados Unidos.

Ao comparar os registros alimentares com os exames, os pesquisadores perceberam que uma maior participação desses produtos na dieta estava associada a uma resposta cerebral mais intensa às imagens de comida. A relação não permite afirmar qual fenômeno veio primeiro.

Crianças com maior sensibilidade aos estímulos alimentares também podem desenvolver preferências que favoreçam o consumo desses produtos, por exemplo. Ainda assim, os resultados levantam uma possibilidade relevante: o cérebro pode participar da relação entre os padrões de alimentação e as mudanças na composição corporal durante a infância.

A investigação não terminou na ressonância magnética. Os pesquisadores acompanharam os participantes por aproximadamente um ano e voltaram a avaliar medidas como índice de massa corporal (IMC), percentual de gordura e circunferência da cintura.

Foi nessa etapa que surgiu outra associação importante. As crianças que haviam apresentado respostas mais intensas no estriado dorsal também tendiam a registrar maiores aumentos de IMC e percentual de gordura corporal no acompanhamento.

O consumo mais elevado de ultraprocessados também esteve associado a um aumento maior da circunferência da cintura. Segundo os resultados publicados na JAMA Network Open, quando os cientistas incluíram a atividade do estriado dorsal nos cálculos, a associação entre ultraprocessados e mudanças no IMC ficou 31% menor.

No caso do percentual de gordura, a redução foi de 44%. Esses números não representam uma diminuição da gordura das crianças.

Eles indicam quanto as associações estatísticas enfraqueceram ao considerar a resposta cerebral, sugerindo que ela pode fazer parte da relação investigada. Há, porém, uma ressalva importante: a associação direta entre consumo de ultraprocessados e aumento posterior de IMC ou percentual de gordura não alcançou significância estatística conclusiva nessa amostra.

Os resultados mais consistentes envolveram a resposta cerebral às fotografias, sua relação com o ganho de gordura e a associação entre consumo de ultraprocessados e aumento da cintura. A infância é um período em que o cérebro continua se desenvolvendo e as preferências alimentares estão sendo formadas.

Por isso, compreender como diferentes padrões de alimentação se relacionam com as respostas cerebrais pode ajudar a orientar futuras pesquisas sobre obesidade. Kathleen Page, professora de medicina e pediatria da USC e uma das responsáveis pelo estudo, destacou em comunicado da universidade a importância de investigar essas relações precocemente, quando os hábitos ainda estão em formação.

Mas os próprios pesquisadores reconhecem limitações. O trabalho acompanhou apenas 46 crianças, utilizou informações alimentares relatadas pelos participantes e avaliou a atividade cerebral em um único momento.

Além disso, por ser observacional, não permite concluir que os ultraprocessados tenham provocado as diferenças cerebrais encontradas. Estudos maiores e com novos exames ao longo do tempo serão necessários para compreender melhor essa relação.

O resultado também chama atenção para o ambiente alimentar. Produtos ultraprocessados costumam ser práticos, acessíveis e amplamente disponíveis, fatores que influenciam as escolhas das famílias.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda priorizar alimentos in natura ou minimamente processados e evitar o consumo frequente de ultraprocessados, especialmente na alimentação infantil. Por enquanto, a descoberta acrescenta uma peça importante à investigação científica: a forma como o cérebro responde às imagens de comida pode estar relacionada a mudanças futuras na gordura corporal, mesmo em crianças que ainda não apresentam excesso de peso.

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