Um grupo de jovens ciclistas realizou um ataque coordenado contra várias mulheres trans que estavam nos Bosques de Palermo, na capital argentina Buenos Aires. Os envolvidos se filmaram durante a agressão, que consistiu em atirar paus, pedras, cones e outros objetos contundentes contra elas.
Entenda: Unha postiça encontrada na casa de suspeito ajuda a polícia a desvendar assassinato de casal na Argentina Investigação: Polícia filipina encontra material 'explícito' de abuso sexual em dispositivos ligados ao pai de Meghan Markle
A Defensoria LGBT da Cidade de Buenos Aires confirmou ao jornal argentino La Nación que está trabalhando em uma denúncia criminal contra os envolvidos. Há pelo menos seis vítimas que apresentaram ferimentos, e uma delas perdeu uma das orelhas.
O episódio ocorre a poucos dias da marcha do Dia do Orgulho e a poucos meses do homicídio de duas mulheres trans — ocorrido em 13 de agosto passado — em Santa Fé e Córdoba, também no país. Embora o ataque tenha vindo a público na noite de segunda-feira, depois que os agressores o filmaram e publicaram em suas redes sociais para "se gabar", na realidade a ação vinha sendo planejada há semanas.
O ataque Os vídeos que mostravam as agressões às mulheres trans foram registrados na altura da avenida Los Ombúes com a Andrés Bello.
Nas imagens, é possível ver como eles utilizam cones de trânsito como armas. "Vai, filha da p..., vai, travesti filha da p...", insultavam os envolvidos.
Inclusive, é possível distinguir as vítimas enquanto são espancadas e sua tentativa de fugir do local. As mulheres trans agredidas denunciaram à Defensoria LGBT portenha que o ataque começou quando os envolvidos passavam de bicicleta.
Enquanto pedalavam, passaram a agredi-las com paus. Em seguida, continuaram a ofensiva com outros objetos contundentes.
Algumas vítimas também sofreram ferimentos enquanto tentavam escapar. Um dos agressores fez uma publicação na plataforma Instagram zombando da revolta generalizada gerada pelo ataque.
"Agora me chamam de matatrans", escreveu, acompanhado de emojis de um rosto rindo. Os agressores incluíram descrições provocativas nos vídeos publicados.
"Corram, travecas (sic)", escreveu um deles. Publicação de um dos agressores na plataforma Instagram
Reprodução | Redes Sociais A cientista política e ativista da comunidade LGBT Gabriela Ivy deu detalhes do ocorrido.
— Elas foram atrás de várias garotas trans que trabalhavam nos Bosques de Palermo. Garotos que praticam ciclismo estilo stunt se organizaram para ir 'caçar travecas' [sic].
Eram entre 50 e 60 garotos — informou no programa de streaming TUGO. Ela apontou que as vítimas estavam na região quando um grupo de jovens as atacou.
— Conseguimos descobrir os nomes de várias contas do Instagram que publicaram vídeos com os rostos cobertos. Identificamos @_esteban_bk e @emarider.
São apenas fotos de bicicletas tunadas e o vídeo em destaque batendo [nas vítimas]. Eles jogaram vidros, pedras e paus — contou.
Vários dos envolvidos passavam de bicicleta e agrediam as vítimas Ivy informou que as vítimas estavam "traumatizadas" com o ocorrido e que uma delas terminou com ferimentos cortantes nos pés:
— Ver aparecer 50 rapazes de bicicleta jogando paus e pedras... Uma das garotas está com o pé cortado por vidros.
Ela relatou que um dos envolvidos é natural de Bernal, enquanto outro é de San Martín. — Não são garotos de um grupo de amigos.
Isso foi premeditado. O ato de filmar, de se reunir a uma certa hora, quando elas começam a trabalhar.
É muito provável que tenha sido combinado pelo Telegram, onde não fica nada registrado depois. Mas ainda não se sabe ao certo como eles perpetraram isso — expressou.
O incidente ocorre a dias da Marcha do Orgulho, que será realizada em 7 de novembro. A manifestação já havia gerado tensões com o Governo da Cidade, que havia pedido seu reagendamento para 21 de novembro por coincidir com a chegada do papa Leão XIV, prevista para este fim de semana.
A organização Pelo menos seis contas do Instagram estiveram envolvidas na organização do passeio de bicicleta: @candehg_, @tizisst10, @ssantuu._, @047.ianmateo, @quilmes.grau (do grupo Quilmes al Grau, que compartilha conteúdo de ciclismo) e @joni_sst.
As contas publicaram um vídeo um dia antes do evento intitulado: "A noite mais esperada do ano". Na gravação, dezenas de jovens fantasiados de Halloween apareciam andando de bicicleta.
Ao fundo, tocava o áudio do conhecido filme de terror "Uma Noite de Crime" (The Purge), que fala sobre uma "noite de expurgo". No entanto, as contas publicaram uma série de stories após o ataque, garantindo que os agressores não faziam parte do grupo oficial do passeio, tendo se desviado do trajeto oficial acordado pelos organizadores.
O grupo Quilmes al Grau compartilhou um comunicado esclarecendo que o percurso "não foi concluído" porque "pessoas que não faziam parte levaram e guiaram um grupo para um lugar por onde não deveriam passar". Eles apontaram que, em relação aos Bosques de Palermo, a intenção era apenas "contorná-los" para "não arrumar confusão".
"Supõe-se que os passeios noturnos servem para desfrutar e se divertir, praticar e dar visibilidade ao nosso esporte, e não para que marginais e pessoas que não pertencem aos grupos líderes façam esse tipo de coisa", sentenciaram. E concluíram: "Do Campito al Grau, não apoiamos esse tipo de comportamento e repudiamos todos os envolvidos na confusão que foi gerada".
Um dos convocadores, chamado Mariano, escreveu uma publicação em nome da organização. "Quero expressar minhas desculpas, em nome daqueles que fazem parte da comunidade do stunt bike, pelos eventos ocorridos recentemente nos Bosques de Palermo.
Éramos mais de 300 pessoas reunidas. É importante esclarecer que as atitudes que desencadearam os conflitos partiram de um grupo muito reduzido, de aproximadamente 10 pessoas, e não representam a totalidade dos presentes", afirmou.
Apesar de repudiar a agressão cometida pelos envolvidos, ele também alegou que um jovem de 15 anos "que não tinha nada a ver com as provocações" recebeu um "golpe de corrente desferido por uma pessoa trans". "O fato de ter ocorrido uma agressão dessa gravidade não justifica as represálias, os espancamentos ou os ataques que vieram depois.
Nenhuma pessoa deveria ser vítima de violência, independentemente de sua identidade, de seu estilo de vida ou das diferenças que possamos ter", publicou.
O Globo