As empresas Celeo, Cymi e Neoenergia se sagraram as maiores vencedoras do leilão de transmissão de eletricidade, realizado nesta sexta-feira (30) na B3, em São Paulo (SP). As companhias ficaram com 6 dos 08 lotes.
O investimento total é estimado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em R$ 8,9 bilhões. O deságio médio foi de 50,1% ante a Receita Anual Permitida (RAP) máxima proposta pela agência reguladora, o que significa uma economia em torno de R$ 21 bilhões, por conta dos descontos oferecidos pelos investidores.
A principal vencedora foi a Celeo, que arrematou os lotes 4 e 8, com investimentos em torno de R$ 4,9 bilhões, quase 55% do volume total de obras previstas no leilão desta sexta. A Cymi, que ficou com os lotes 3 e 5, contratou R$ 2,5 bilhões em investimentos, cerca de 23% do total, e a Neoenergia, R$ 1,2 bilhão nos lotes 1 e 7.
Os demais vencedores foram a EDP, com o lote 2, e a Cox, com o Lote 6. Segundo Ivo Sechi Nazareno, diretor da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o resultado do leilão de hoje, que manteve os descontos históricos na casa dos 50% dos últimos anos, demonstrou que a turbulência no mercado financeiro após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições não afetam os investidores de longo prazo em infraestrutura.
“Se a gente olhar o resultado de hoje, sob o ponto de vista da alegada turbulência, ele parece até contraintuitivo, porque o deságio permaneceu em torno de 50%, apesar da subida do dólar, apesar da eventualidade da manutenção ou de discussões a respeito da expectativa futura da taxa de juros.
O que demonstra que esses negócios são, de certa forma, blindados em relação a essas oscilações de curto prazo. Então, o que a gente pode mostrar, com o resultado de hoje, inclusive, é que os investidores continuam acreditando no setor elétrico e que as questões de curto prazo não afetam essa infraestrutura de longo prazo, uma vez que os contratos são longos e eles vão acomodar durante sua vida, essas oscilações momentâneas que acontecem”, disse ele a jornalistas, após o leilão.
Resultados O lote 1, que inclui a operação de ativos já existentes na Bahia e antes operados por controlada da Neoenergia que somavam 483 km de linhas e de três subestações, além da construção e operação de mais 238 km de novas linhas e mais 100 MVA em capacidade de transformação, foi vencido pela própria companhia do grupo Iberdrola, que ofertou uma RAP de R$ 59,85 milhões, representando um deságio de 51,21%.
O trecho teve uma disputa a viva-voz de quase uma hora e mais de 100 lances com a Tradetek. O lote 2, que visa a construção de 126 km de linhas e uma subestação de 300 MVA para atender a região Nordeste de Goiás, foi arrematado pela EDP com uma oferta de R$ 26,23 milhões de RAP, representando um deságio de 53,29%.
O terceiro lote ficou com a Cymi Construções e Participações, de origem espanhola, que ofertou R$ 78,7 milhões de RAP, representando um deságio de 57,08%, para o trecho que inclui a construção de 45 km de linhas e 3.600 MVA de capacidade de transformação para atender a região central da cidade de São Paulo.
O lote 4 era o maior do certame e ficou com a Celeo Redes, também de origem espanhola, que ofertou R$ 377,1 milhões vencendo a disputa pelo trecho completo versus as ofertas por sublotes, com um deságio de 50,55%. Ele soma R$ 4,1 bilhões em investimentos estimados pela Aneel e visa a realização de obras estruturantes para o atendimento do Mato Grosso do Sul, passando também por outros estados.
O quinto lote foi arrematado pela Cymi, que ofereceu uma RAP de R$ 96,4 milhões, representando um deságio de 46,36%. O trecho abrange 173 km de novas linhas, além de subestações que somam 2.094 MVA com o objetivo de ampliar o atendimento à região metropolitana de Curitiba, no Paraná.
Já o lote 6, que tem como objetivo a construção e operação de uma subestação de 900 MVA em capacidade de transformação e 4 km de trechos de conexão para reforçar o suprimento às regiões Oeste e Sudoeste do Paraná foi vencido pela Cox Brasil, do grupo espanhol Cox, que ofertou R$ 37,85 milhões, deságio de 53,46%.
O sétimo lote, que contempla 113 km de novas linhas e 2.100 MVA em capacidade de transformação para atender o sertão da Paraíba, foi arrematado pela Neoenergia, com uma oferta de R$ 68 milhões, que equivale a um deságio de 38,55%. E, por fim, o lote 8 foi também vencido pela Celeo, com um lance de R$ 66,7 milhões, deságio de 48,02%.
O trecho prevê a implantação de compensadores síncronos, equipamentos para estabilização da rede, em Porto Velho, em Rondônia, para reforçar a resiliência do sistema em virtude das mudanças climáticas e beneficiando também ao Acre. A previsão é que os contratos sejam assinados em fevereiro de 2027, data a partir da qual começa a contar o prazo para entrada em operação comercial que vai de 42 a 60 meses a depender do lote.
A expectativa da Aneel é que sejam gerados 20.312 empregos diretos e indiretos com as obras. Próximos leilões
O mercado de linhas de transmissão de energia deverá ter três licitações no ano que vem, com investimento somado em torno de R$ 50 bilhões, afirmou Ivo Sechi Nazareno, diretor da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). O primeiro deles deverá ser realizado no final de abril e já teve consulta pública aberta.
Neste momento, está em análise pelo órgão regulador. Para o segundo semestre há uma expectativa de duas licitações de transmissão.
Em outubro, deverá ser realizada uma delas, envolvendo o sistema de corrente contínua e tecnologia inédita, denominada VSC. “Em detrimento das tecnologias das contratações anteriores, que são diferentes, ela é mais complexa, elaborada e mais moderna.
Provavelmente, esses contratos que originarão desse leilão serão os maiores que o Brasil já contratou em transmissão”, disse ele. A estimativa é que os investimentos dessa licitação fiquem perto de R$ 30 bilhões.
Este leilão deverá ser instituído em conjunto com uma outra licitação prevista para dezembro. “Então vão ser dois leilões instruídos de forma conjunta, com provavelmente segregação de atividades, um em outubro, provavelmente o de corrente contínua, e outro em dezembro, o de corrente alternada ou tecnologia convencional, como a gente viu aqui hoje”, afirmou.
“Ano que vem é um ano que promete muitos investimentos, tecnologia para escoamento de energias solares e eólicas do Nordeste para agregar centros de consumo, então vai ser um ano com expectativa de investimentos, caso todos os projetos que estão em estudo pelo planejamento aconteçam, que vão superar 50 bilhões de reais em investimentos em transmissão, o que demonstra a necessidade que o país tem para atendimento do seu sistema elétrico.”
Valor