Foi há cinco anos que a esposa do auxiliar de produção Whillyan de Freitas Marin, de 34 anos, notou os primeiros sinais de uma doença neurodegenerativa que o marido lidaria com mais intensidade algum tempo depois. Thais de Araújo, de 28 anos, percebeu que o companheiro por vezes esquecia detalhes da rotina de cuidados com o filho Noah, à época, recém-nascido. O quadro chegou a ser diagnosticado como esclerose múltipla, mas anos depois foi reavaliado como a doença de Creutzfeldt-Jakob — mesma condição de saúde identificada por Lito Sousa, piloto de aeronaves e influenciador que relatou viver o avanço progressivo da doença no mês passado. Assim como Lito, Whillyan e sua família passaram a buscar estudos de drogas experimentais fora do país que pudessem fazer frente ao problema de saúde, uma tentativa de contornar a falta de medicamentos reconhecidos para o tratamento da doença. Apesar das tentativas com pesquisadores estrangeiros, nenhum dos dois conseguiu ser incluído nos estudos até agora. — A maior dificuldade que eu enfrento emocionalmente é a sensação de incapacidade — desabafa Thais. — Quando eu sei que vai abrir inscrição de algum estudo ou tratamento no exterior eu viro a noite acordada para conseguir entrar no site, mas as respostas que recebemos são sempre negativas. E Whillyan complementa: — Eu quero muito ter uma chance de ver o meu filho crescer, ter uma vida com a minha esposa, são coisas que a gente sonha desde o começo da vida. Simplificando, eu quero ter a chance de viver — diz. A doença de Creutzfeldt-Jakob não é uma exceção, os desenvolvimentos experimentais para doenças e síndromes ainda demoram a chegar aos centros de estudo brasileiros, e aos pacientes experimentais que poderiam beneficiar-se de sua aplicação. Especialistas ouvidos pelo GLOBO relatam que o país ainda engatinha quando o assunto é esse tipo de inovação — custoso e que pode ultrapassar uma década de desenvolvimento. Há, porém, medidas práticas que podem levar a um impacto positivo e ajudar a colocar o Brasil numa necessária rota de inovação. De acordo com dados da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), o Brasil teve 305 estudos clínicos iniciados em 2025. Não se trata de um número desprezível, está entre os 20 maiores realizadores do planeta. Mas o maior volume de desenvolvimentos se concentra em países como Estados Unidos (4279 estudos no ano passado), China (3200), Espanha (761), Austrália (605) entre outras potências globais. A Argentina, acompanha de perto, com 230 estudos. O Brasil, avalia a entidade, tem um cenário de “crescimento moderado”. — Os Estados Unidos são uma grande referência porque têm uma indústria farmacêutica muito grande. Se a gente falar de terapia celular, terapia gênica, elas ainda circulam num tipo de empresa que são as biotechs, as empresas de biotecnologia (mais comuns nos EUA) — explica Renato Cunha professor afiliado da Universidade de São Paulo e líder do programa de Terapia Celular da Oncoclínicas. — O número de farmacêuticas e dessas biotechs é importante, porque é a partir delas que ocorrerá o estudo. Olhando para a CAR-T cells, por exemplo, nenhuma empresa farmacêutica nacional investe nisso. Se houvesse (um volume de ) biotechs no Brasil poderíamos ter mais desses estudos. O país, porém, tem qualidade para fazer pesquisa clínica e uma população diversa. O que são pontos positivos.
Jornada até lá Renato e outros especialistas no tema ressaltam que não se trata de um caminho simples até encontrar uma molécula viável para tratar uma doença de qualquer natureza. O tempo de desenvolvimento pode superar uma década (embora alguns ganhos com o desenvolvimento possam surgir antes disso) e a jornada de validações e análises é financeiramente custosa.
— Ativos científicos realmente únicos e capazes de gerar empresas transformadoras são raros em qualquer lugar do mundo. É quase um alinhamento de planetas: é preciso reunir a ciência certa, os pesquisadores certos, o alvo certo, o timing certo, capital especializado e um ambiente capaz de transformar aquela descoberta em produto — diz Gabriel Bottos, fundador da Vesper Biotechnologies, empresa desenvolvedora de negócios brasileiros em biotecnologia. Entre as inovações no bojo da organização está a busca por uma molécula brasileira para tratamento de câncer, entre outras inovações como o uso modificado do Zika vírus para outros cuidados de saúde. Gabriel entrou na área após a sobrinha, Helena, ter tido sucesso em um tratamento experimental para um câncer agressivo. Os cuidados de saúde ocorreram em Madri. — No Brasil, isso é ainda mais desafiador porque o ecossistema é mais incipiente. Temos menos casos de sucesso e menos capital especializado, o que aumenta a percepção de risco. Mas temos ciência e talento para construir empresas tão boas quanto as melhores do mundo — comenta. Luciana Borio, da ARCH Venture Partners, nos EUA, e ex- diretora de Políticas de Preparação para Emergências Médicas e Biodefesa na Casa Branca resume o funcionamento desse ecossistema. — No fundo é necessário um investimento inicial forte em tecnologia — conta. — Esse investimento dá retorno. Pode gerar, por exemplo, o surgimento de empresas menores tecnológicas que serão incorporadas por companhias maiores que darão tração a essa inovação. Quem está por dentro da área avalia que é preciso além do interesse do mercado farmacêutico e do surgimento de novas empresas focadas em biotecnologia. É necessário ainda mirar na formação acadêmica, para que os pesquisadores do país conheçam de ponta a ponta — da bancada de desenvolvimento à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — os rigorosos processos que permitem que uma inovação chegue ao público brasileiro. E desenvolvam, nas palavras de Gabriel Brottos, uma “visão empreendedora” que preencha a lacuna entre a descobertas de laboratório até os estudos regulados, escala industrial, transferência de tecnologia e, por fim, o mercado.
A opinião é partilhada por Sue Ann Costa Clemens, professora associada à Universidade Johns Hopkins. É preciso que esses desenvolvedores tenham sempre o fim, o desfecho, do estudo em mente, ela diz. Há ainda, ela conta, outros desafios de ordem prática que complicam esse cenário, como a dificuldade em produzir materiais que serão avaliados ao longo de toda a pesquisa. — Temos muitas descobertas no Brasil, fico até feliz em ver isso. Mas os pesquisadores não conseguem desenvolver o produto (o material que seria avaliado com os voluntários ou em bancadas) nas fases clínicas e pré-clínicas, às vezes é preciso fabricá-lo fora — comenta sobre a cadeia de produção. — Ou seja, em alguns casos, é preciso fazer a versão da fórmula do medicamento candidato fora do Brasil. Já soube de casos em que foi preciso fazer na Argentina, por exemplo.
Mudança na lei A expectativa de quem desenvolve estudos aqui é que o Brasil acelere o passo com a chegada de mais estudos diante de um novo marco legal para esse tipo de pesquisa no país. A mudança, aprovada em 2024, prevê redução de prazos e maior previsibilidade de processos para os desenvolvedores. Na visão da Interfarma, porém, ainda é preciso que a lei se traduza em regulamentos próprios, usados na prática. — Uma coisa é a legislação e as outras são as regulamentações infralegais. Precisamos desses marcos para consolidar a forma que acontecerá, por exemplo, a análise ética. Além disso, é preciso o estabelecimento de uma plataforma única que concentre todos os dados desses estudos — diz Luciana Takara, diretora de política e inteligência regulatória. — Outra coisa é que o Brasil tem dimensão continental. Temos centralização dos centros de pesquisa no eixo sul-sudeste do país. É preciso descentralizar esses centros e qualificar mais profissionais, também na área Norte e Nordeste. Para médicos e pacientes que acompanham avanço globais e nacionais de estudos, a expectativa para o a chegada de novas pesquisas, sobretudo nacionais, é grande. É o que conta Giorgio Fabiani, médico neurologista e pesquisador do Hospital Angelina Caron, no Paraná.
— É importante o paciente sair do consultório com alguma coisa que ele mantenha um mínimo grau de esperança. Em alguns casos, saber que alguns tratamentos estão sendo pesquisados é um estímulo para que aquela pessoa faça exercícios e mantenha boa alimentação. Ele saberá que precisa se manter bem — avalia. — Não podemos dar falsas esperanças, mas podemos mostrar onde estão as expectativas. *Estagiária sob supervisão de Mariana Rosário.
O Globo